EN | ES

VER O OUTRO: Bob Sousa entrevista Sara Antunes

Publicado em: 03/07/2025 |

Sara Antunes, por Bob Sousa

Atriz, diretora e criadora cênica com trajetória marcada por investigações poéticas e políticas, Sara Antunes cumpriu temporada nos palcos com Dora, espetáculo que revisita a vida e a luta de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, militante da resistência armada à ditadura civil-militar brasileira. A montagem, construída a partir das cartas trocadas entre Dora e sua mãe, entrelaça documentos reais, memórias afetivas e uma potente linguagem visual para fazer reviver a história de uma mulher que entregou o corpo e a alma à utopia de um país mais justo.

Com dramaturgia e direção assinadas pela própria Sara, Dora se estrutura como uma cartografia de afetos, onde projeções, luz vermelha, objetos de memória e vestidos costurados – tanto pela mãe de Dora quanto pela mãe da atriz – criam uma cena de profunda delicadeza e impacto. Ao recepcionar o público e construir fragmentos de dramaturgia a partir desse encontro, Sara instaura uma experiência que transborda os limites do palco, propondo um teatro de presença, escuta e resistência.

Nesta entrevista, conversamos com Sara Antunes sobre o processo de criação do espetáculo, os vínculos pessoais que atravessam a encenação e os desafios de trazer a memória de Dora novamente à vida.

Bob Sousa – Seu espetáculo parte de uma intensa pesquisa documental e afetiva, transformando cartas, memórias e objetos em matéria cênica. Como foi o processo de elaboração dessa dramaturgia tão íntima e, ao mesmo tempo, política?

Sara Antunes – A gente nunca sabe quando um tema, uma personagem, uma história, vai no fisgar e o tamanho disso. As obras, quando sao autorais desse jeito, levam tempo, porque são também elaborações pessoais. Em 2014, comecei um projeto (que não era meu) sobre as Guerrilheiras do Araguaia. De lá pra cá, são 4 filmes e 2 peças em que o tema da ditadura é central….um foi desencadeando outro. São 10 anos dessa pesquisa toda. Meu pai foi preso político e exilado. A gente não foge da nossa própria história. Eu acredito que o tipo de Dramaturgia que faço é manifestação dessa ordem de conversa, íntimo demais e ao mesmo tempo político.

Bob Sousa – Os vestidos costurados por sua mãe e pela mãe de Dora compõem uma camada simbólica muito potente da cena. Como esses elementos afetivos ajudaram a costurar – literalmente e metaforicamente – a presença de Dora em você?

Sara Antunes – Minha mãe já costurou muito vestido pra mim e ainda vive costurando o vestido da peça que, pelo tempo, pelo tecido velho, vive rasgando…e quanto mais ela remenda mais gosto. A mãe da Dora era costureira e as cartas trocadas por elas durante a prisão e exílio me deram a concretude da costura, quando ela pedia um vestido, um tecido. Dora também costurava corpos enquanto estudante de medicina. Imagino essa Dramaturga numa mesa de dissecação, numa máquina de costura ou num quarto de relíquias afetivas…eu também remendei, também suturei feridas….entre cortes, agulhas e tecidos a gente foi se achando, se espelhando. A costura foi uma convergência que aproximou as mulheres dessa peça.

Bob Sousa – Você escolhe recepcionar o público e construir fragmentos de dramaturgia a partir desse encontro direto. Como essa escolha interfere na construção da cena e no tipo de relação que você busca estabelecer com quem assiste?

Sara Antunes – Eu adoro me relacionar com o público, e convidar os corpos para o jogo coletivo, presente, participativo, que é o ato teatral. Quebrar a ilusão de estar só em cena porque construo junto naquela alquimia com o público…. A peça muda muito de um dia para o outro. Mas esse prólogo da conta do convite: vamos juntos? Uma espécie de novelo é jogado para o público vir comigo, entre os remendos dessa vida tão intensa. Vem quem quer… mas, os fios foram jogados.