Uma dúzia de reflexões para o fim do verão! New born baby cry!

Publicado em: 02/10/2017

1 – Um teto para o movimento dos cidadãos sem bússola

Perguntaram sobre o que seria esta nova coluna que acaba de nascer, inaugurada pelo seu olhar, leitor, pousado agora, bem aqui. Apontamentos, eu disse. Considerações. Considerações sobre o que? Sobre tudo, acrescentei. Mas, sobretudo sobre nada. Perder tempo, buscar irrelevâncias, aqueles asteroides apagados, sem brilho, que orbitam apagados, que passariam despercebidos pelo radar do cidadão reto e pelos radares da ciência. Busco acessar a atenção distraída, sem-bússola, sem direção, distante das compulsões ao sentido, à lógica, ao contorno, à nitidez. Acessar a zona noturna. É ao cidadão torto que me interessa falar! Alea jacta est. A sorte está lançada! Não aboliremos o acaso.

2 – Contramão!

Fim de verão! Disse Paulo Francis: não há vida inteligente acima de 25º Celsius! De acordo. Fosse eu prefeito, obrigaria, por lei, que a temperatura jamais subisse para além de certo limite pré-estabelecido (vinte e três graus). Céu plúmbeo! Ventos! Essa é a boa paisagem para chamar a inspiração.

Obs.: Claro que com esta plataforma jamais serei eleito. Mas, muito antes disso, sem ser candidato, jamais serei eleito – pois até reunião de condomínio me causa arrepios.

Sou contra as temperaturas altas, como se viu. Mas sou contra também tantas outras coisas do cotidiano – que a maioria parece ser a favor –, que me tornei assim um sujeito condenado a não se adaptar aos usos e costumes do povo da minha época! Pobre da minha alma! Uma pequena lista:

– Sou contra os cocôs de cachorro pelas calçadas (enquanto a maioria parece ser a favor).
– Sou contra a música alta na academia de ginástica, nas lojas, nos carros, nas casas dos vizinhos… (é necessário silêncio para falar com o Deus; é necessário não tamponar os buracos para escutar os sussurros que o ser murmura).
– Sou contra televisão em restaurante – que hipnotiza mesmo a contragosto.
– Sou contra o carnaval, pois adoro depressão.
– Sou contra ar-condicionado violento (apesar de detestar o calor. Mas não se esqueçam: o ser humano é contraditório; de qualquer maneira, o frio do ar condicionado é artificial e seco).
– Sou contra compositores vivos de música erudita (que deveria antes ser testada em macacos).
– Sou contra que se tranquem as portas dando duas voltas na chave. Considero uma perda de tempo em nome de uma evidente falsa ilusão de segurança (o ladrão que ultrapassa uma porta trancada com uma tranca, ultrapassa também uma porta trancada com duas. E no tempo gasto para dar a segunda volta na chave, o cidadão de bem poderia escrever um livro, ou fazer alguma coisa de útil);
– Sou contra pessoas excessivamente alegres de manhã muito cedo; um desrespeito com a infelicidade alheia.
– Sou contra cruzeiros de navio, temáticos ou não! Étnicos ou não. Sustentáveis ou não.
– Sou contra novas palavras inventadas sem a menor necessidade, tais como espaço-gourmet e home-theater. Fui descobrir que espaço-gourmet é nada mais que um terracinho com churrasqueira (yuk!). O que se come ali, pra levar um nome desses? Escargot? Caviar? Feijoada não? E o que dizer de home-theater, que nada mais é do que uma televisão com caixas acústicas externas. Por que, pergunto, essa pequena alteração deveria conduzir a um novo nome? Mudou-se o estatuto da ‘coisa’? Inventou-se um novo objeto? E por que o nome estrangeiro? Quem adere a isto pensa que assim é chique? Proponho então que se chame voiture-avancée um automóvel em cujo porta-luvas haja um compartimento para guardar clipes…
– Não tenho fígado para quem fica fazendo sinal de ‘aspas’ com dois dedos de cada mão a cada quatro palavras. Exemplo: “o problema foi que a Europa não fez a ‘lição de casa’…”.
– Odeio quem abre o guarda-chuva na rua quando ainda não começou a chover.
– Sou contra casais que se tratam de cuti-cuti-cuti publicamente.
– Não gosto de quem fala tudo no diminutivo: raivinha, bravinho, invejinha. É o fim da picada. O mesmo se aplica aos que se referem àquelas partes do corpo, que têm também função sexual, de um jeito infantilizado: bumbum, pipi, popó, pupu…
– Muito difícil suportar gente que fala sério o tempo todo. Principalmente em festas. Quase desmaiei num jantar, quando o cidadão à minha direita, cujo nome me reservo o direito de não mencionar, discorreu sem pressa sobre o lixo atômico e, em seguida, sobre a monocultura da cana em Ribeirão Preto.
– Sou contra quem não diz o que acha, mas diz sempre o que acha legal achar.
– Sou contra quem, ao invés de um pingo, põe um círculo sobre o ‘i’. Aquelas pessoas que tratam de fazer com que a caligrafia sorria para o leitor.

A lista poderia seguir longa e as considerações sobre cada item também. Mas já que essa toada esboça um movimento contramão, para engordar ainda mais o manifesto, confesso que, especificamente no campo das artes, sempre preferi o segundo lugar ao primeiro. Aquele que a voz do povo proclama como sendo o segundo melhor do mundo. Explico:

Prefiro Sir John Guilgoud a Laurence Olivier;
Rubinstein a Horowitz;
Plácido Domingo a Pavarotti;
Glenn Close a Meryl Streep;
Marlene Dietrich a Greta Garbo;
Marília Pera a Fernanda Montenegro;
Sophia Loren a Elizabeth Taylor;
Sarah Vaughan a Ella Fitzgerald;
Leontyne Price a Maria Callas;
Gorbachev a Iéltsin;
Barbara Gancia a José Simão;
Drogasil a Droga São Paulo.

E aqui alguém terá estranhado a presença de Dietrich como oficialmente segunda em relação a Garbo, ou de Sophia Loren como segunda em relação a Elizabeth Taylor, entre outros fatores dessa ordem sempre discutível. Outro alguém poderia estranhar a presença de farmácias na lista, ou de gente que não é exatamente do campo das artes; mas eu digo: artista também tem dor de cabeça e também toma analgésico como qualquer ser humano.

Importante: a exceção confirma a regra: Pelé foi, claro, melhor que Maradona!

3 – Idiossincrasias

Nunca me digam que o filme é ótimo. Isso leva minhas expectativas aos píncaros da glória. Imagino uma obra tão superlativa e sublime, que não há filme ótimo que se compare àquilo que concebi. Assim, fico sempre decepcionado com o contraste entre a obra e a fantasia, entre o ideal e o possível, e acho que fui enganado, causando mal-estar e sucos gástricos. O mesmo se aplica a peças de teatro, exposições de artes plásticas, espetáculos de dança, livros, discos, viagens, bares e cafés.

4 – Teoria sobre a língua materna e a sua consequência

As palavras – como eu não obtive o seu significado baseado num dicionário – foram ganhando sinônimos muito pessoais. Na minha língua materna, em algum lugar do vasto significado pessoal que era associado a cada palavra, há alguma intersecção que contempla – nem sempre – a definição oficial (aquela, sim, encontrada nos dicionários). Para além desse ponto, em suas ramificações semânticas, as palavras têm para mim uma enorme autonomia, quase um edifício de significado idiossincrático, tão verdadeiro e, pela singularidade, intraduzível. Conclusão: todo cidadão é um estrangeiro.

5 – Tempo-Política-Economia!

Para muitos o amanhã nunca chegará! A ideia de tempo é de fato muito abstrata. Para estas pessoas justamente inventou-se o cartão de crédito, o expediente mais capitalista do sistema, no pior sentido. Muitos caem nessa armadilha. Eles não têm dinheiro, mas compram tudo. Pois terão que quitar a dívida no-só-depois! E esse dia jamais chega, pensam eles. Têm razão, em parte: no agora absoluto da criança, o futuro é uma noção teórica tênue, impalpável, sem sentido nenhum. Isso levou à bancarrota os Estados Unidos recentemente e a Europa toda, mais recentemente ainda. Pessoas perdulárias dizem: “Mas é no cartão! Não precisa ter dinheiro”. A ideia deles, extremamente infantil, porque encharcada de pensamento mágico, é a de que até que esse futuro da fatura chegue, “trabalharei, juntarei dinheiro, pagarei”. Então tá! Neurótico eu, pois pago tudo à vista! E, se não posso, não compro.

Incompreensível para mim também é a classe de gente que, quando se deprime, vai às compras. “Fui fazer um agrado ao ego”, disse um ex-amigo. Nunca me utilizei desse expediente, mas aqui também sou exceção: o lado perverso do sistema é o de capturar a ingenuidade das pessoas e escravizá-las, para que elas fiquem devendo valores que eternamente as esmaguem e paralisem.

O teor político de todo esse comentário foi sem-querer! O teor econômico, também! Embora ambos deem espessura social relevante a este texto, eu só pretendia humildemente expressar meu espanto diante da facilidade de enganar um cidadão, pessoa física!

Os dois próximos itens fazem link com questões escatológicas e podem ser desprezados por aqueles de estômago sensível.

 

6 – Perro-caliente e vida social

Um cachorro logo vai cheirar o fiofó do outro. Ali, ele obtém muitas informações. Ele procede a uma desconstrução. Desse modo, ele sabe qual foi o almoço, o jantar e o café da manhã do colega. E, com isto, tem o mapa da posição do animal na matilha, na alcateia, no grupo, na vida-social… Alfa, beta, gama, delta… Como naquelas vernissages em que os frequentadores puxam assunto, entre taças de vinho: “Trabalha com que?”; “Vem sempre aqui?”; “Qual é o seu signo?”; “Qual seu nome?”; “Qual seu sobrenome?”. As questões relativas ao trabalho e à ocupação profissional são sempre delicadas. Tem gente que não gosta de responder. O sobrenome também. O perguntador pode receber a pecha de enxerido. Pois o perguntado sente como se o outro estivesse cheirando seu fiofó, coisa muito pessoal.

7– Dedicado à Cacilda. Grummus merdae – vestígios do dia, a marca do bandido…

Há regras sem exceção. Sobre isso também tratamos aqui. Todo bandido, depois de assaltar uma residência, obra! Trocando em miúdos, ele defeca ali. Não num vaso sanitário, pois seu gesto é uma performance, uma instalação, tem que ter glamour. Para Freud, as razões disto são duas. A primeira, mais fácil de compreender, atribui à obra uma agressão. A distância entre os extratos sociais promove ódio entre abastados, de um lado, e desfavorecidos, de outro. O ladrão tem raiva da abundância que encontra na casa assaltada. A segunda razão, é menos evidente, mas, como tudo em Freud, de uma lógica irretocável. Retroativamente, a obra é uma reparação infantil pelo mal afligido. Um prêmio ao dono da casa. “Roubei, mas deixo um presente a você”, diria o ladrão, como a criança que dá aos pais um lindo cocô todo santo dia, logo cedo de manhã (quando é boazinha).

Um paciente chegou ao meu consultório, um dia, queixando-se de ter sido recentemente assaltado. Enquanto estivera ausente, um ladrão entrou em seu apartamento e levou o que conseguiu. Muito sábio, ciente do grummus merdae, pois sou um doutor, o que não é pouca coisa, indaguei pelo presente: pela universal assinatura do bandido. Mas o paciente não havia constatado nada de diferente em sua residência. Além dos vazios pela perda de seus objetos e valores, nenhuma nova instalação, nenhum vestígio. Aparentemente.

Na sessão seguinte, entretanto, dois dias depois, ele chega devastado: “Doutor, encontrei a bosta do bandido”, me conta. O ladrão havia obrado num balde e, em seguida, guardado o continente (com o conteúdo), embaixo do tanque, na área de serviço do apartamento. Nessa regra, não há exceção.

Cacilda fez cocô no terceiro andar da SP Escola de Teatro, no Brás, num dia do ano da graça de 2010. Justo eu, que presto tanta atenção quando caminho pelas calçadas da cidade, por enorme infelicidade, pisei no cocô de Cacilda (porque pensei que estava andando em terreno seguro e, até, sagrado; afinal, e os deuses do teatro? Por onde andam?). Nesse dia, fiz o que pude. Quis acreditar que, como dizem, “dá sorte”. E dediquei a aula a explicar o grummus merdae de Freud, que agora divido com vocês.

Posteriormente, esse assunto foi tema de prova, e, aqueles alunos que não aprenderam a lição, se deram muito mal, levando um zero bem redondo.

Para você, leitor, que não é da Escola, explico: Cacilda é canina. Tem uma história. E quatro patas. Pertence à Instituição e está ali desde o princípio.

8 – Haikais ocidentalizados…

– Lógica rápida: quando a essência vem à tona, ela sai do núcleo e estaciona na periferia, deixando de ser essência, portanto;
– Já é amanha? Não, ainda é ontem;
– Uma lâmpada caiu na cabeça de Thomas Edison, que disse ‘eureca’; e inventou a lâmpada;
– Desculpe-nos pelas obras, estamos em transtornos;
– Toda pessoa que a gente encontra está sempre no intervalo entre dois cocos!;
– Globalização: todos os cidadãos de todos os países do mundo deveriam votar nas eleições presidenciais de qualquer país da rede globalizada;
– Ode à mesóclise e ao jeca-tatu: minha perna farseô; far-se-á necessário fisioterapia;
– Ela era muito bem quista até a retirada de um quisto sebáceo;
– O vento, às vezes, parece desaforo;
– Preocupação é uma mosca pousada na cara;
– Se persistirem os médicos, consulte o sintoma.

9 – Anglo-saxão

A língua inglesa está, sem dúvida, mais próxima dos processos primários do que as línguas latinas. Ela se presta a deslocamentos e condensações, permitindo mais facilmente a criação de novas palavras, favorecendo que se a recrie (que se recrie a língua). Quem inventou a língua inglesa tinha provavelmente acabado de acordar. E, no entanto, ela é, também, paradoxalmente, mais objetiva que, por exemplo, o português. Estar perto dos processos primários e ser capaz de tanta objetividade é um desafio à nossa inteligência. Em inglês, o sujeito é capaz de frases curtas, precisas e cheias de pontaria. Sobram poucas perguntas a se fazer (veja que beleza o “New Born Baby Cry” do início deste texto, para citar um exemplo apenas).

Os resumos, sumários e abstracts das teses de doutorado dos pesquisadores brasileiros de ciência, sempre presentes nos trabalhos acadêmicos, têm que vir em três idiomas. Além do português, um deles tem que ser necessariamente o inglês (o terceiro em francês ou alemão ou espanhol, a escolher). Nesses resumos, percebemos: a versão inglesa é sempre a mais curta de todas. Pois, em poucas palavras, já está dado o recado, impressionante concisão! Filólogos, expliquem!

10 – Língua sem tônus

Quanto mais alto o posto ocupado no âmbito social, mais inespecífico o discurso e os desejos e os votos. No final do ano, uma mensagem do presidente da república será sempre genérica, algo como “que o País encontre os rumos do desenvolvimento e as famílias, trabalho e pão!”. O bispo igualmente dirá num tom dessexualizado e desvitalizado “que o povo tenha saúde no novo ciclo que se aproxima”. O papa dirá algo vago: “Que o mundo encontre paz para os conflitos”. Em suma, dir-se-á: “Que chova onde falta água”; “Que os povos se entendam”; “Que haja comida para quem tem fome”; “Educação para as crianças”; “Realização para os cidadãos”; “Harmonia ali onde reina a discórdia”.

O mesmo ocorre com pessoas de idade provecta: a linguagem vai ficando cada vez mais impessoal e inespecífica. Busca-se somente aquilo que tem importância, num exercício de resumo que, paradoxalmente, se apresenta frouxo e espalhado, uma síntese dispersa, um principal sem tônus, longo e vagaroso, quase em câmara-lenta; flácido mesmo: “Saúde! Que isto é muito importante!”.

Deixando de lado a vaidade dos discursos articulados, o idoso busca e encontra nas palavras “paz, saúde, trabalho, harmonia e felicidade” o essencial, e o transmite num desejo frágil, com voz claudicante, num timbre ralo, como se tivesse que demorar-se a pensar no termo exato que traduza seu bom sentimento, e como se Deus, Ele mesmo, estivesse escutando.

Mas, entre nós, levar cinco minutos pensando até encontrar a palavra “saúde” para fazer um voto a alguém querido, dá nos nervos de qualquer um.

Outra característica daquelas personalidades cheias de notoriedade é a de referir a si mesmas na terceira pessoa. O Papa diz: “O Papa deseja um ano novo repleto de harmonia a toda a humanidade”. Pelé diz: “O que o Pelé quer é que a FIFA se organize”.

Mas veja-se que curioso: bebês de colo também falam dessa forma. “Nenê quer papinha”; “Nenê fez totô”; “Nenê quer tota-tola”, etc.

É como se eles soubessem, mais que os demais, que todo ser é também seu duplo. Ou, de novo, todo indivíduo é estrangeiro a si mesmo, e necessita de um mediador.

11 – Sessão ciência: sexo e nascimento

Interessante notar que, à medida que a medicina, a ciência e a tecnologia avançam, a possibilidade de gerar um filho fica cada vez mais perto de mulheres que não teriam chance há algum tempo. Ao mesmo tempo, as novas técnicas de fecundação e de produção de bebês estão cada vez mais distantes da maneira ‘natural’ de reprodução. Com instrumentos esterilizados e laboratórios gelados, células e citoplasmas, óvulos e espermatozoides, embriões e fetos, são retirados daqui, transplantados ali, num cardápio de novidades que alcançam casais, antes, estéreis.

Este ambiente cheio de assepsia separa ainda mais o sexo (o encontro sexual) da reprodução, colocando-os muito distantes um do outro. Como se a vida sexual nada tivesse a ver com o nascimento de bebês.

Na história da humanidade, foi complicado e demorado relacionar encontro sexual, gestação e parto. De fato, não é óbvia esta conexão: os nove meses, que separam o coito do nascimento, representam muito tempo (E há também o hiato desde a fecundação até que seja perceptível a gravidez). Mais fácil acreditar em cegonha. Tribos primitivas atribuíam a gravidez e o parto a fatores outros que não o encontro de um homem e uma mulher, um pai e uma mãe; atribuíam a gestação e a chegada de uma criança às lunações, ao movimento das marés e a outras pulsações da natureza. Ver “Totem e Tabu”, de Freud (1912).

Disse Millôr Fernandes, há onze anos: “A tecnologia avança. Já estão fazendo inseminação artificial com espelho no teto” (Caderno Mais, Folha de São Paulo, 05/08/01, p. 28). Pena que não se possa fumar um cigarro depois disso. Ou perguntar: “Foi bom pra você?”.

12 – Caso clínico/vinheta clínica/consultório sentimental

Uma paciente, que atendi já há muitos anos, e de quem não tenho mais notícia, queria um namorado. Essa era a sua questão. E olha que, na ocasião, homem no mercado não era coisa fácil. Depois de um longo inverno, frio e tenebroso, começou a namorar um rapaz, que parecia bom e decente. Logo, porém, ela ficou em dúvida se gostava dele ou não. “Ele parece bobo”. Ele estava sempre rindo, e ela começou a achar que, ao rir, ele parecia bobo. Concluindo que se tratava de um bobo mesmo, pôs fim ao curto relacionamento. Meses depois, encontrou com o mesmo rapaz, já em outra, namorando outra garota, muito cheio de dignidade. Ela (minha paciente) continuava solteira. E, nesse encontro, constatou que o rapaz não era bobo coisa nenhuma. Ele parecera bobo naquele passado recente, pela paixão. “Ria de felicidade!”, percebeu, enfim, a pobre moça, sofrida e tragicamente atrasada. Claro: a gente não cabe em si quando ama. “E agora, doutor?”, perguntou-me ela, arrependida. “Agora Inês é Marta!”.

Moral da história: antes de terminar seu namoro, cheque bem checado se seu namorado(a) “é” bobo(a), ou “está” bobo(a). Pois, neste estabelecimento:

– Não se fazem trocas, nem se aceita devolução;
– Certas decisões são irreversíveis;
– Confira a mercadoria;
– Não admitimos reclamações posteriores;
– Não quero meu nome em bocas de Matildes;
– Não me venham com lamúrias;
– Nem digam que não avisei;
– No cigarettes disposal.

Para que o leitor durma em paz, devo informar: essa estória, mais tarde, terminou bem. A moça se casou, teve um filho e viveu feliz para sempre. Comigo é assim!

Depois de tanta sabedoria concentrada, me despeço. Bom fim de verão, volto em abril, mais esperto e civilizado, com a temperatura, se o bom Deus quiser, mais amena.

Post-sciptum: O leitor talvez se pergunte o que uma coluna deste tipo faz num site de teatro. Bem, não sei exatamente! Não saber pode não ser um defeito. O que sei é que a monocultura e o subdesenvolvimento são primos de primeiro grau. A SP Escola de Teatro tem o mérito de, desde o princípio, estar aberta ao diálogo com outras áreas do conhecimento. Foi esta abertura que possibilitou a minha inclusão com o curso que desenvolvi em 2010 e 2011, no setor de Extensão Cultural da Instituição, colocando o teatro a dialogar com Freud, ele mesmo, o pensador austríaco.

E, como psicanalista que sou, privilegiei o conceito de atenção flutuante da psicanálise e a sua decorrência de fazer o espírito vagar solto, ao sabor de suas próprias inclinações, sem saber previamente o que vai encontrar pelo caminho, tornando a irrelevância uma bandeira, como escrevi nas primeiras linhas deste texto. Freud pôs a ciência para adormecer, em 1900, com um novo método de pesquisa, a associação livre (irmã da atenção flutuante). Certos fenômenos, não visíveis a olho nu, são apreensíveis somente diante de um modo peculiar de prestar atenção.

Este espaço virtual de reflexões em fragmentos, aqui inaugurado, é um exercício de pensar livremente, lançando um olhar despretensioso na direção do cotidiano, da vida, das questões com as quais o homem está envolvido, temas vitais, temas colaterais, temas fundamentais, temas sem importância nenhuma. Seguimos com a convicção de que descobrimos somente a posteriori o valor e o sentido das coisas. Os vínculos que ligam este modo de fazer ciência com o teatro são muitos e são imensos.

Muitas e imensas também são as relações dessa maneira de investigar o mundo com os processos de criação no campo das artes. Mas, lembremos que Freud também disse: a ciência chega mancando, ali onde a poesia alcança flutuando. Que possa a Psicanálise aprender com o Teatro. A isto voltaremos inúmeras vezes num futuro próximo. Futuro que acaba de nascer aqui.




 

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