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Tempo de roteiro II

Publicado em: 20/04/2022

Chá e Cadernos 100.86
Mauri Praoni

Mais para o acaso que para a História, muitos fatos reais, biográficos, geográficos, sociais, estéticos e familiares têm um desague que pode compor um roteiro fabulatório indutivo e enriquecedor. Possuem um tempo rítmico que pode ajudar muito quem tem dificuldades para aprofundar uma roteirização. Condivido alguns. Advirto, porém, que qualquer boa escritura cênica exige, em havendo uma arqueologia teatral, que se contamine, o menos possível, as consequentes analogias do também consequente senso comum.

Alguns exemplos: ver o teatro grego como fosse criado na semana passada, teatro negro com pretensões a entretenimento da Broadway, procurar “teatralidade” em manifestações estéticas de povos originários, denunciar antissemitismo em “O Mercador de Veneza” shakespeareano, inventar uma inexistente tragedia muçulmana. Jamais se faz uma arqueologia do que não houve. Se tanto, com muito estudo e urgência histórica, acontece o paradoxo da “vanguarda” de uma convenção morta. O exemplo mais emblemático disso: ter reanimado a tragédia grega no Ocidente acabou criando o “atuar cantando” o “dramma per musica”, que virou o melodrama lírico (que não é o dramalhão brega), que virou opera rococó, buffa, romântica; enfim, os musicais e as revistas. Evoluções constante em cada centímetro do globu, visíveis em cada comunidade, em cada sociedade, cada cultura.
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Como artificio didático, o tempo de existência de que disponho me induz a propor, mais adiante, uma narração casual e mitológica de Hipermaestra, na versão do italiano Pietro Metastasio (1698-1782), poeta, libretista, dramaturgo e abade, que o poeta e inconfidente mineiro Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) traduziu para o Português. Advogado e culto, trabalhou também como minerador. Conspirou contra a metrópole. Deixou cinco filhos. Durante mais de 30 anos, viveu maritalmente com a ex-escravizada Francisca Arcângela de Sousa, alforriada quando deu à luz ao primeiro filho do escritor.

Os dois desenvolveram temas idealizados sobre dever filial de obediência versus amor idealizado. Nessa precisa época, houve a passagem, no melodrama, do épico ao amoroso.

A língua italiana era difundida na Europa graças ao melodrama e aos libretos. A escrita, dividida em recitativos (a ação real e o diálogo) e árias (situações mais líricas e musicais), realçou o valor espetacular de uma pobreza que se fez de tudo para que se conservasse. No Brasil, o seu imaginário se diluiu com a pulverização das culturas dos povos originários, paralela ao aporte gigantesco da mão de obra escravizada da colônia.

No primeiro Brasil colonial, a comunicação oral popular se dava pela chamada Língua Geral, uma mistura fonética das línguas faladas pelos povos originários posta sob a regra do latim operado pelos jesuítas. Como a primeira peça escrita de José de Anchieta, tudo era feito para a catequese; foi alternativa à imposição do cristianismo pela escravização e tráfico de escravizados. Com a expulsão dos jesuítas, foram-se os raros livros, textos e a própria língua falada. Sumiu-se mais uma cultura consistente. Essa é a regra imposta no Brasil. Pouco antes dessa, digamos, passagem, ocorria na metrópole o matrimonio do Rei José I. Este usou a ocasião para incrementar o seu projeto de incrementar culturalmente o Império português em relação ao interior da Europa.

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A compreensão língua italiana era parte fundamental da cultura dos principais centros europeus, sobretudo pelo melodrama anteriormente citado. Ao poeta italiano Metastasio foi encomendado este Hipermaestra pelo casamento do Imperador Habsburgo na centralíssima Viena.

Por emulação aos Habsburgos, D. José I se casa. Por maior emulação, Claudio Manuel da costa traduz Metastasio ao português, e o encenam na Vila Rica, hoje Ouro Preto. Mas… isso após a expulsão dos jesuítas por culparam os ímpios de Lisboa pelo terremoto de 1755 (achar “bruxas” é antigo esporte.)


Terremoto/maremoto e ruina do Teatro São Carlos, Lisboa

Além disso, o novo e maior teatro {de corte) português pouco funcionou. A Ópera do Tejo ou Real Casa da Ópera era um faustoso teatro em Lisboa, Foi inaugurado em fins de março de 1755 e engolido pelo terremoto/tsunami de 1 de novembro do mesmo ano. Localizado junto ao Rio Tejo, era um magnifico projeto de Galli da Bibbiena, cenógrafo inventor de croquis técnicos que possibilitaram aos realizadores e maquinistas construírem mágicos cenários convencionais.


O Marques de Pombal, administrador da reconstrução de Lisboa

A catástrofe em Lisboa trouxe muitas consequências ao Brasil, além do tsunami que atingiu um pouco urbanizado litoral norte do País. Para pagar parte da conta da reconstrução, houve enorme aumento de impostos sobre o ouro das minas brasileiras. Além disso, todos os Jesuítas foram expulsos de Portugal. Terminou a educação regular e do uso da língua geral tupi em Pindorama. Um alto Português passou a de ser a lingua oficial, excludente quem estava na base da pirâmide social: foi o período barroco e parnasiano de uma literatura sem contrapeso étnico regional; emblemáticos foram os literatos da Vila Rica, hoje Ouro Preto, a primeira realidade urbana brasileira que chegou a ser um alter ego urbano europeu tropical. Aqueles literatos coincidiram com os muitos inconfidentes que quiseram romper com o envio de seu ouro para a metrópole. Enquanto isso, negros e índigenas escravizados eram massacrados em qualquer lugar do continente sul-americano, por qualquer tensão que fosse: sustentaram a exploração econômica de todas as metrópoles coloniais.

Nunca é demais lembrar também desse roteiro, se se quiser prosseguir com o aqui narrado. São muitas possibilidades, bifurcações, mas todas elas asseveram cada segundo e cada centímetro da violência e desrespeito à alteridade, reais, que testemunhamos em cada segundo de nosso quotidiano. Antes de prosseguir: uma ré engatada pode não significar um retrocesso, mas uma contenção; muita alegoria crível e intrínseca à narração de nossa trama pode nascer.

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Roteiro, acaso, ou fabulação, o poeta maior daquela realidade foi aquele Cláudio Manoel da Costa que, encarcerado e dito suicida, foi provavelmente assassinado a mando de Luis da Cunha Meneses, arrivista político narcisista e despótico, que exigia ouro e atirava restos alimentares de seu Palacio. Era o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, de Tomas Antonio Gonzaga (1744-1810); ambos os artífices inconfidentes fracassaram na politica – mas foram literatos vitoriosos a transição do enredo épico ao amor idealizado.
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Traduzo aqui a introdução contextual metastasiana da sua versão de Hipermaestra (*)

“Drama escrito com muita pressa pelo autor em Viena, por ordem do soberano, a ser realizado a ser apresentado na corte, com música da HASSE, por grandes e distintos personagens para sua própria diversão privada. Entretenimento privado: mas depois tocado publicamente pela primeira vez por músicos e cantores na grande no grande teatro da corte, na presença dos monarcas, por ocasião do casamento da real altezas reais Marianne, arquiduquesa da Áustria, e do príncipe Carlos de Lorena, no ano 1744.

“Danao, Rei de Argos, assustado por um oráculo que previu a perda de seu trono e de sua vida pelas mãos de um filho de Egito, ordena secretamente que sua filha mate seu noivo Lynceus na própria noite de seu casamento. A autoridade paterna não persuadiu a magnânima a princesa magnânima para um ato tão desumano; mas nem mesmo a ternura de um amante poderia fazê-la revelar a Lynceus o horrível comando recebido, para não expor seu pai à vingança de um príncipe corajoso e intolerante, querido pelo povo e pelos militares. Como, em tão grande angústia, a generosa Hipermestra observou todos os deveres opostos de esposa e filha, e com que provas admiráveis de virtude ela finalmente trouxe seu pai, seu marido e ela mesma à felicidade, será visto em (…)”

Essa trama da época, em contraste com a nossa, pode ser vista como machismo, mas também como afirmação da mulher que exerce o amor por escolha, como vitória do afeto sobre a desobediência que muda o curso das coisas. (A princesa não assassina o noivo, ordem de seu pai, argumentando que não recusa à própria humanidade. O pai aceita.) Pode ser visto e contado de outros pontos de vista, mediante encenação/edição/censura/adaptação/ilustração/filme: desafio à indignidade da ordem, realização do amor, independência feminina. Via roteiro de ilustrações, via desfile de escola de samba, via alegoria política, via entretenimento, via crítica social, enfim, via o que é factual e como chega a nós.

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Possibilidades na arte convencional podem surpreender. Um simples exemplo: como Claudio Manuel da Costa provavelmente alforriou e viveu maritalmente com a sua ex escravizada, como existiu Xica da Silva, Metastasio levou a atriz e cantora negra Vittoria Tesi (1701-1775) a ser o contralto mais importante da Viena de princípios do século XVIII. “La Fiorentina” ou “la Moretta” foi a primeira cantora negra importante na história da música ocidental, a primeira ‘diva’ do contralto na história do teatro lírico – somente não nos chega a necessária evidência histórica desse caso. O trânsito extenso e intenso entre culturas que muitos querem “opostas” tende a ser apagado da memória artística e da estrutura social.


Caricatura de Vittoria Tesi (Século XVIII)

A diversidade plural possibilitada pela roteirização da vida dos séculos recentes até o nosso contemporâneo é imensa. No Brasil, da citada ida do épico ao romântico, via junção ao lundu, n mistura do melodramático tardo romântico, mais evidente do velho seresteiro Vicente Celestino, de “ O Ébrio” ao “Rir pra não chorar”, de Cartola, representam maravilhosos caminhos de inversão de sentidos numa mesma direção; são uma riqueza brasileira, dialética, que o olhar crítico permite sobreviva… a que, mesmo?

Pelo que se pode farejar, que sobreviva ao pesadelo de festas de matrimonio com filas para manobristas, vestidos longos, “salmõm”, vinhos horríveis, buffets, apês com “lazer completo, suítes e 4 vagas”, pétalas de rosa na cama redonda, algodão egípcio, big brothers, entretenedores imbecis, cultura do ódio e da barbárie.

Mas tudo depende do quanto saberemos resistir e proteger, também politicamente, a própria cultura. Que é secular, por possuir a sua rara santidade: a humana.


Ouro Preto

(*)
[Dramma scritto in gran fretta dall’autore in Vienna, d’ordine sovrano, per essere eseguito nell’interno della corte, con musica dell’HASSE, da grandi e distinti personaggi a loro privatissimo trattenimento: ma pubblicamente poi rappresentato la prima volta da musici e cantatrici nel gran teatro di corte, alla presenza de’ regnanti, in occasione delle nozze delle altezze reali di Marianna, arciduchessa d’Austria, e del principe Carlo di Lorena, l’anno
1744.

Danao, re d’Argo, spaventato da un oracolo che gli minacciava la perdita del trono e della vita per mano d’un figlio d’Egitto, impose segretamente alla propria figliuola di uccidere lo sposo Linceo nella notte istessa delle sue nozze. Tutta l’autorità paterna non persuase alla magnanima principessa un atto cosi inumano; ma neppure tutta la tenerezza di amante poté trasportarla giammai a palesare a Linceo l’orrido ricevuto comando, per non esporre il padre alle vendette d’un principe valoroso, intollerante, caro al popolo ed alle squadre. Come, in angustia si grande, osservasse la generosa Ipermestra tutti gli opposti doveri e di sposa e di figlia, e con quali ammirabili prove di virtu rendesse finalmente felici il padre, lo sposo e se stessa, si vedra dal corso del dramma.]

De

Hipermestra
Pietro Metastasio,
Curador B. Brunelli
http: //www.liberliber.it/biblioteca/licenze/ “Todas as obras de Pietro Metastasio”, editado por B. Brunelli, volume I, Mondadori, Milão, 1954 contribuíram para a edição eletrônica Claudio Paganelli, paganelli@mclink.it, Vittorio Bertolini,
vittoriobertolini@inwind.itStefania Ronci, stefaniaronci@libero.it – “Projeto Manuzio”