Sobre porta aberta, maionese fatal e outras mais

Publicado em: 02/10/2017

Começo por uma chamada que acabo de ler num portal: Professora dá aula de porta aberta temendo violência dos alunos.

 

“Oi?”

Mensagem surreal? Storyline de filme de horror? Passado nefasto tirado dos anais da Idade Média? Claro que não me chama mais atenção do que qualquer violência que sofremos dia a dia, e das que também praticamos. Mas quem vai à escola vai para quê? Para brigar, discutir, agredir, matar? Vai para se drogar, traficar, estuprar? Vai para quê, santo deus? Como é que chegou-se a esse ponto? E o caso dessa professora não é isolado, sabemos, diante de tantas notícias sobre violência nas escolas do país.

Por outro lado, começa o show de gargalhadas tristes na televisão e nas rádios, com o horário eleitoral. Por dois dias assisti à propaganda na TV.

Não é MUITO grotesco afrontarem nossa INTELIGÊNCIA com tanta HIPOCRISIA?

Densa hipocrisia.

De dar, confesso, muita tristeza. Não fosse o riso triste.

Não sou partidária e não discuto política partidária em lugar nenhum. A gente tem o hábito de tomar a parte pelo todo. Então se eu gostar de sorvete ao invés de chocolate, vou arrumar um monte de inimigo que abomina a ideia de se gostar de sorvete, não pensando duas vezes em me relacionar a algum monstro do lago congelado, ou algo assim. E trabalho muito mal na faixa do ódio. Não gosto, ponto.

Eu sou a favor da liberdade, sim, real! Com pluralidade de pensamento, grandeza de visão de mundo e respeito às ideias do outro. Como não percebo isso com frequência, fico quieta. O mesmo ocorre com o teatro – já viram alguém te perguntar sobre o que achou do espetáculo, querendo realmente ouvir o que você tem a dizer? Não, né? Geralmente a pergunta é senha para que o outro queira impor sua própria visão. Com raras pessoas (que bom que existem!) consigo ter o prazer da reflexão, trocar impressões de fato, sem que comecem a ficar nervosas, incomodadas por existirem opiniões diferentes das delas.

Bem, mas voltando, quando será que vamos amadurecer? Quando vamos ter uma correspondência entre dignidade cidadã e uma política que nos represente de fato?

Não enquanto continuarmos acreditando nos “produtos” dos marqueteiros eleitorais. Show de mentiras maquiadas para serem verdades (quase) à perfeição: uma “verdadeira” arena de solidariedade, show business de amor ao próximo, espetáculo de retidão, distribuição de dente, beijo na testa do pobre, abraços apertados na dona Maria, no seu José, na senhora Raimunda, hora de tomar chimarrão, vestir quimono, andar abraçado com os de pés no chão, andar em carro simples, comer churrasquinho grego, engolir pão de queijo, coxinha, tapioca, bucho de bode, pizza, café, maionese. Pobres animais, digo, os puros, de verdade.

Uma amiga me contou que nos anos 1950 corria uma espécie de bordão na esfera da política eleitoral: A maionese pode ser fatal à política. Nada mais correto. Se eleitos, passam anos comendo cinco estrelas para em fase de campanha virarem avestruzes, tendo o bico na gentileza e o pensamento no voto.

E aqueles que agora evocam: “No meu tempo…”, “A família cristã”, “Quero reconstruir nosso país”, “Uma nação com valores!”, “Querido Brasil”. Querido Brasil? A gente ainda cai nessa?

Aliás, o Brasil mostrado na tevê nunca esteve tão azul, tão despoluído, limpo mesmo. Não é o que minha garganta e meus olhos dizem nos últimos tempos. E a realidade aponta para um quadro extremamente sujo. Quanto tempo ainda leremos que no Brasil o professor tem que dar aula de porta aberta com medo da violência dos alunos?

Amigos, deveríamos usar o Facebook para tentar levantar informações de verdade sobre os ilustres avestruzes, digo, candidatos. E mudar a face mais do que sinistra que se abate sobre esse nada azul mundinho nosso de voraz hipocrisia.