Roma: Gládio, Lei e Cooptação

Publicado em: 23/04/2021

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Mauri Paroni

Gládio e Lei foram base material do domínio de Roma sobre o mundo ocidental conhecido em seu tempo. Através de um processo chamado Romanização, povos muito diversos obrigaram-se ou foram obrigados a fazer parte de um império. “Povos”, além do termo genérico, designa pessoas. Pessoas. Seres humanos, como eu, você, ou “bárbaros” como os da aldeia gaulesa de Asterix e Obelix. A maioria. Pessoas que não eram nem se sentiam parte de uma entidade abstrata, chamada Roma, com pesadas dinâmicas imperialistas. Como isso foi possível? Como os romanos, com o passar dos anos, às vezes séculos, conseguiam assimilar os diversos povos, leis, idiomas, religião, etnias, origens – inteiras civilizações – depois de as dominarem militarmente?

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A violência da conquista era seguida pela imposição de um sistema legal escrito, coisa rara naquele tempo. Tal sistema de leis era o Latim escrito, dotado de poder proporcionado pelo monopólio da violência exercido por um Estado constituído. Os romanos atacavam militarmente para submeter um povo, conquistar seu território e agregá-lo a outra gente de culturas desenvolvidas com características diferentes. A dominação acabava metabolizada entre aquelas pessoas por assimilação, através de um instrumento cuja base era a coercibilidade da língua (latina) sustentada pelo gládio das legiões: instituíram o chamado Direito.

Pragmaticamente, os invasores romanos harmonizavam-no com as leis pré-existentes. Era um processo histórico com sofisticados mecanismos de cooptação das classes dirigentes locais utilizados pelas elites romanas. Isso muito nos interessa: artistas, empregamos uma língua neolatina num palco ou num filme; ou no desenvolvimento e influência das artes performáticas – no bem e no mal, conforme o lugar que escolhemos na dialética da progressão da cultura.

Voltemos àquela antiguidade, por isso não tão distante. Do Etrusco ao norte da África, a língua do comercio e do direito era, pois, o latim e suas variantes, que suavizaria um certo tipo de resistência. Falamos de cultura de pessoas: íntima, familiar, comercial, política. Social. Falamos do Direito. O tratamento seguinte à guerra de conquista e de escravização, a consequente chamada Pax Romana, começava com a concessão da cidadania assim que fossem instituídas novas classes dirigentes autóctones entre os vencidos. Por clareza: “No amor ou no furor”, se empregarmos o jargão violento do futebol de hoje quando as torcidas perdem a paciência com seus elencos.

É claro que não era um modo igual para todos. Naturalmente, o contato com Etruscos (Etruscas, por precisão a quem realmente mandava naquelas famílias da atual Toscana) era diferente do contato com o mundo hispânico, por exemplo.

Os romanos promoviam a corrupção da resistência das classes dominantes germânicas ou gaulesas pela a transformação do mundo cultural ariano em um mundo romano. Assimilavam seus deuses e mitos, assassinavam e escravizavam líderes sobreviventes, distribuíam títulos e terras conquistadas aos conquistados, levavam estradas, aquedutos, termas e… a segurança do Direito, das relações comerciais, das famílias. Levavam o Direito.

Não foi sempre assim. Um dos casos em que não funcionou desse jeito ocorreu com o povo Hebreu. O padrão repetiu-se nas guerras hispânicas, quando Roma se fechou por quase um século num brutal imperialismo de conquista, a qualquer custo humano, estratégico ou econômico que fosse. Houve, também, ao menos uma duríssima guerra servil entre as muitas guerras entre generais. Foi a revolta de escravizados liderada por Spartacus em 73 a. C., eliminados com mais violência que os inimigos externos como Cartago.

O quinto longa-metragem do diretor Stanley Kubrick, Spartacus (1960), versa sobre aquela revolta. Tem elenco de primeira ordem: Lawrence Olivier, Kirk Douglas no papel principal, Peter Ustinov como o lanista (empresário de gladiadores) Lentulus Batiatus, Tony Curtis, Charles Laughton, Nina Foch. Roteiro de Dalton Trumbo.

Os gladiadores, mosaico na Galleria Borghese. Fonte: Wikiwand

Kirk Douglas, o “Eu sou Spartacus” de Stanley Kubrick. Fonte: Sapomag 

Depois daquelas guerras, Roma concedeu cidadanias e títulos consulares como a membros da intelligentsia espanhola. Construíram uma cultura muito parecida com o que hoje chamamos globalização. Havia ordenações jurídicas diferentes mas uma só cidadania: a Romana. A violência ainda ditava as cartas, mas o Direito virou o cimento de tudo. O cidadão romano de outro país podia praticar a sua cultura, idioma e tradições. Ninguém o incomodava. Possuía uma língua e uma religião que ninguém tocava. Mas tinha a obrigação de fazer parte de um Estado num nível mais alto. Não podia se comportar, social e políticamente, em contradição com a política de Roma. Exemplo: Quem promovesse sacrifícios humanos era enviado a explicá-los aos leões do circo ou era diretamente posto na cruz.

O Estado Romano promovia a cooperação entre aristocracias controladas, a qualquer momento, por “avaliações”, sobre a lealdade dos governantes locais. Tampouco escravizava por etnia, cor de pele ou qualquer relação cultural; escravizava pela demanda de mão de obra fácil, na medida do que precisavam ter.

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O cristianismo acabou sendo visto pelo poder central de Roma como um sério problema. Sempre pragmáticos, os romanos os perseguiram, sim, mas muito menos do que nos foi fabulado. Não houve perseguição sistemática. Simplesmente o romano proibia qualquer sacrifício que não fosse pelo seus deuses e imperadores.

Suspeitava-se que Nero houvesse posto fogo a zonas populares de Roma exatamente quando paleocristãos – não todos – apregoavam um “juízo final” para todos os pecados da humanidade. O gigantesco incêndio, de fato, fez o céu da urbe desaparecer e repentinamente atirou a vida ao caos. O advento de um ressuscitado salvador divino que haveria de julgar a todos – e tudo mais o que já sabemos – era cantado por membros de uma seita de desesperados que viviam em buracos repletos de cadáveres – as catacumbas. Isso alarmou os militares do Império. Fosse hoje: Imagine-se tal catástrofe totalizante na periferia de uma megalópole em meio a cantos em louvor de um próximo governo “do filho de deus”, tudo entoado por fundamentalistas. Voltemos a Roma imperial: Eram turbas imensas acordadas para uma justiceira “verdade” final. O poder acreditou que aquela gente iria explodir o tecido social da cidade pelo princípio dinástico de outro poder divinizado.

Essa foi a causa última das perseguições organizadas por generais que não podiam tolerar isso porque bloqueava os seus comandantes.

“Qualquer um que coma da minha carne e beba do meu sangue o sangue terá vida eterna e reinará sobre o mundo.” O caldo ideológico daquele horror era coroado pela conhecida estória do sacrifício da carne e do sangue, coisa que romanos certamente não entendiam enquanto metáfora. Apregoado por fundamentalistas, aquele suposto incentivo diário ao crime de canibalismo era ritual, mas foi-lhes imputado o fato e a ameaça real.

Depois do grande incêndio, ninguém em Roma realmente sabia o que estava acontecendo. O fato é que ele convenceu uma seita numerosa e militante, quase hegemônica, de que Cristo estaria para descer do céu e que aquele fogo gigante queimaria e julgaria as pessoas na capital do mundo. A ideia de que os cristãos fossem uma seita criminosa procurou-lhes a imediata condenação à morte como assassinos. Pensaram no poder central: “O que está acontecendo? Há uma lei a ser respeitada.”

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O que se sabia publicamente em Roma era sempre dúbio e manipulado por canais oficiais. Tomo como exemplo o caso de Cláudio (10 a. C.-54 d. C.), pai postiço de Nero (37 – 68 d. C.) e tio de Calígula ( 12-41 d. C.), assassinado pela guarda pretoriana. Esta o encontrou escondido atrás de uma cortina depois do ato. Ele acreditava que também iria morrer, mas os pretorianos gostaram de ideia de fazer dele o imperador. Cláudio era visto como débil mental por sua família, a qual o afastou da política. Culto, aluno de filósofos importantes, acabou governando Roma muito bem. Era muito popular. O diferente, “monstruoso” manco, parvo e gago Cláudio, que, aliás, nasceu na Gália em 10 a. C., foi o primeiro imperador de fora da Itália. Fingia não saber de nada, mas era genial na manipulação da própria imagem, como o foram Cesar (100-44 a.C.) e Augusto (63 a.C.-14 d.C.).

Na cena do assassinato de Calígula, Grato proclama Cláudio imperador. Pormenor de Um imperador romano, 41 d.C., de Lawrence Alma-Tadema, 1871. Fonte Wikipédia

Claudio, já visto como imperador, em mármore encontrado em Gabii (Pontano) entre 1792 ou 1795 – Louvre Ma1231.jpg. Fonte Wikipédia.

Eram linguagem de poder, fundamentais no relacionamento com as outras populações, línguas e mitos, enquadradas na administração do poder imperial. Na fabulação das perseguições e condenações, conjugava-se a linguagem fática das legiões (exército). Exemplos eloquentes: O desaparecimento da língua etrusca, cultura de mulheres cultas e exímias comerciantes, foi perpetrado através do cancelamento de qualquer documento que a traduzisse ao latim; ou o desaparecimento de um possível latim que pode ter sido a língua falada no norte da África. Não foi mera coincidência o fato de ter desaparecido quase totalmente com a dissolução do Império.

Na História há fabulação, mas não “se” ou coincidência.

 

 

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