Progressismo em Movimento

Publicado em: 16/11/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.68

O franco-argelino Albert Camus (1913-1960), prêmio Nobel que escreve acessivelmente a pessoas comuns, o que disse “eu me revolto, portanto, nós somos”, fez questão de conhecer pessoalmente Abdias do Nascimento (1914-2011). Quando veio ao Brasil em 1949, febril, assistiu a Calígula, de sua autoria, pelo Teatro Experimental do Negro, idealizado e dirigido por Abdias. Viu também um ensaio de Aruanda, peça sobre o amor entre uma mulher e uma entidade do candomblé. Elogiou muito a uma jovem atriz: Ruth de Souza (1921-2019). o espetáculo não tinha dinheiro para ser encenado. De Calígula foi realizado, sem recursos, somente uma apresentação de um ato no Teatro Ginástico, com direção de Abdias com figurinos e cenografia de Tomás Santa Rosa (1909 – 1956).


Ruth de Souza conversa com Albert Camus no teatro em 1949

 


Ruth de Souza em Aruanda


Abdias do Nascimento e Ruth de Souza

(Fotos da internet)

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“O futuro é o único tipo de propriedade que os senhores dão livremente aos escravizados.” (*)

O contexto em que ele empregou na frase acima foi que justificar qualquer atitude presente em favor do futuro pode levar à “criação de prisões “. É sempre importante pensar que o passado muda – não de fato, mas do ponto-de-vista – se o enxergarmos no contexto do presente.

A titulo construtivo, peço a licença de colocar a citação camusiana em outro contexto: ligado à1ª edição da Semana Ismael Ivo – Web Seminário de Dança, organizado pela SP Escola de Teatro. (aqui, sobre o Seminário https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/sp-escola-de-teatro-realiza-1a-edicao-da-semana-ismael-ivo-web-seminario-de-danca ).Mais especificamente, quando Elísio Pitta – como os demais participantes – fala do futuro, em que “estamos só no começo”. Há quem melhor reporte o todo da Semana. Gostaria, aqui, de compartilhar meu âmbito pessoal: provocado profundamente a me reconhecer em seres humanos na luta que todo artista trava, pela vida toda, contra a improvável racionalidade exigida nas projetações artísticas. Pois movimentos cênicos são mais importantes numa narração teatral quando pressupõem corpos; os quais pressupõem uma política. Enquanto diretor de teatro, não elaborei projeto (uma atividade ideal) que não fosse descartado na concretude da realização cênica. Deles sempre precisei, mas, no frigir dos ovos, seguia uma nova e imprevisível sintaxe prática. Próprio por estar trabalhando de maneira concreta.

Em montagens, o presente corre ao futuro, e as escolhas viram políticas – porque no sonho do futuro está a liberdade de que hoje dispomos. Camus advertiu para a escolha da construção do futuro, da vitória que o sonho nos traz em resistirmos num presente insuportável e incerto. Há, também, uma crítica ao uso de religiões pelo poder – coisa oposta à religiosidade profunda de seres humanos -, em muitas manipulações liberalistas do futuro, das utopias falsamente igualitárias ou meritocracias no post mortem.

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No movimento primordial do tráfico de África para as Américas, imagino a dança dos escravizados nos tumbeiros no holocausto – somente imagino, por ser-me impossível equacionar. Teria sido possível resistir com vida pela escolha de um futuro, por horrível que fosse? Muitos mataram-se. Chegou vivo quem conseguiu dançar. Foram os dançarinos do impossível, foram artistas do além-do-humano imaginado por Nietzsche. Este, escritor e filosofo, está com os mestres de hoje, com os artistas descendentes daquele passado.

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É clichê tóxico declarar que dançarinos não criam verbais. Corpos trazem em si uma sintaxe também verbal, e seu movimento pode e será, desde sempre, gramática narrativa teatral, além de alegórica. Quando um dançarino fala, expõe o que pensa, dança e diz o seu corpo. É como, ou mais, o bom ator convencional que conjuga uma música particular em suas falas. Costumo dizer, aos atores, que dancem a música de suas falas. Mais ainda: que dancem o que se vê e ouve nos nossos imaginários.

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A resistência urgente à retorica dos supremacismos, ao imperialismo, ao colonialismo e ao fascismo – séria ameaça às sociedades contemporâneas – passa necessariamente pela afirmação dessa arte. Por um motivo simples e concreto: tal linguagem liberta através da luta pela sobrevivência do que é humano. O que se afirma aqui é a recusa a uma ideia de que a arte – sobretudo a dança – deva residir num inexistente passado de ouro a que deveríamos voltar, depois de destruir o nosso presente. O Seminário afirmou a construção de um futuro progressista através daquela luta, que está apenas no começo. Uma Semana de ideias progressistas para se sair com dignidade da toca da pandemia e do arbítrio.


Tomas Santa Rosa (fotos da net)


Camus em Iguape, 1949 (foto da net)

(*) L’avenir est la seule sorte de propriété que les maîtres concèdent de bongré aux esclaves.