“Poesia é a infância da língua”, diz Manuel de Barros

Publicado em: 02/10/2017

Gosto demais de poesia. Na minha cabeceira, sempre cabe mais de um livro de poemas. Fernando Pessoa e Borges têm seus lugares garantidos, ao lado da “Bíblia”, que também adoro. Aliás, tenho com a poesia a mesma relação que tenho com a “Bíblia”.

Leio sempre em voz alta e de maneira aleatória. Como num ritual, me preparo primeiro, em seguida abro em uma página qualquer, leio e, depois de uma pequena reflexão, releio. Geralmente não costumo ler mais de 10 ou 15 poemas. Dedico pra isso uma hora, uma hora e meia de leitura, nunca mais do que esse tempo.

Então, a belíssima edição da “Poesia completa”, de Manoel de Barros, da espanhola Leya, está em minha cabeceira neste momento. E, num ritual deslumbrante e especialmente mágico, tenho ido dormir com o bardo pantaneiro.

Manoel de Barros, o poeta dos sentidos, faz, com suavidade, a poesia mais mordente que jamais conheci. Artesanal e, ao mesmo tempo erudito – estudou pintura e cinema no Museu de Arte Moderna, em Nova York, e bebe de referências que vão de Van Gogh a Buñuel –, foi revelado nacionalmente por Millôr Fernandes em sua coluna no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, nos anos 1980.

Mas foi o filólogo Antonio Houaiss que disse uma das coisas que mais gosto sobre Manoel de Barros: afirmou, em algum momento, que o poeta coloca a “humanidade diante das coisas”.

Aos 96 anos – Manoel nasceu em 1916 –, o poeta continua produzindo ativamente. Lançou, em 2010, o belíssimo “Menino do mato” e, em 2011, “Escritos em verbal de ave”.

Apesar de uma aparente subjetividade, seus poemas possuem uma racionalidade enorme. Parte do específico, do diminuto para atingir o universal; emerge do singular para ganhar a pluralidade. No prólogo desse “Poesia completa”, ele diz:

“É nos loucos que grassam luarais”.

Ou:

“Poesia é a infância da língua”.

Todavia, e levando-se em conta o que o próprio poeta diz em algum momento no livro “Passos para a transfiguração”, que “o sentido normal das palavras não faz bem ao poema”, penso que fazer qualquer análise de sua obra não fará bem para  sua poesia.

Sugiro, então, que corram para uma livraria e adquiram este “Poesia completa” e se encantem. Também uma bela dica de presente para uma pessoal bem especial.