Pequeno Auto e Homilia de uma Cartomante à sua Voz Pecadora

Publicado em: 17/12/2021

Chá e Cadernos 100.72
Mauri Paroni

Ao abrir-se o pano, a cartomante fala do escuro ao espaço vazio enquanto, lenta e imperceptivelmente, sobe a luz de proscênio; aparece a leitura da a sua imagem corpulenta.

A Cartomante:

Pelo som desta minha voz que quebra o silêncio, consigo relaxar o piso esfincteriano para urinar com mais facilidade. Porque somente me sinto só de verdade com o som desta voz. O silencie traz- me a proximidade do irmão gêmeo, o que me traz a lembrança inconsciente de uma vida social no útero.

Pausa.

Eu sempre usava vermelho e ele azul, advertência ao mundo injusto dos adultos que nos tratavam como “conjunto”; desde sempre vertiginosamente unidos, isso explica dedicarmo-nos visceralmente ao palco, em textos e dança aos sons, pausas e silêncios.

Distribui cartas sobre seu próprio vestido, o que , na parca iluminação, cobre o seu corpanzil. Abre uma carta.

A voz do pecado sussurra:

Três. Três. Três!

A cartomante:

Três, se e quando superada a ideia demoníaca da maldade material de um terceiro, é mais, muito mais, que a própria existência. Acho isso muito dócil para este monologo dito pela imagem de um corpo perdido sob a roupa, qual cenografia que se desconstrói no enquadramento. Com um corpo ao centro desta aurora de afetos na maravilha da arte.

Vira outra carta.

Omnia…

A voz:

A letra de Santo Agostinho. Vai estudar! “Omnia munda mundis”: tudo e’ puro aos puros de coração.

Irritada, a cartomante vira outra carta. Lê.

“Ou é o mal que tememos, ou o mal é que tememos “.

Vira outra carta.

“Se a justiça não for respeitada, o que seriam estados senão grandes bandos de ladrões?”

Vira outra carta.

“À medida que o amor cresce dentro de você, cresce a beleza. Pois o amor é a beleza da alma”.

Vira outra carta.

“Tarde te amei, beleza tão velha e tão nova, tarde te amei. E lá estava você dentro de mim e eu lá fora, e lá estava eu procurando por você. Eu, feio, estava me derramando sobre as coisas bonitas que você criou. Você estava comigo e eu não estava com você”.

Vira outra carta.

“Aqueles que amamos, mas que perdemos, não estão mais onde estavam, mas onde estamos”.

Vira outra carta.

“Uma fé que não pensa não é nada”.

Santo Agostinho

A cartomante continua a pregar ao vazio.

Quem cheira uma misera carreira, alimenta a milícia e elege esse estrupício que está no poder. Gostaria de coisa mais simples. De voltar a caminhar. A dançar. A jogar bola. Mas tenho que ler cartas. Alimentar a bruxa dentro de mim. Essa voz, desavergonhada, anda precisando de uma fogueirinha. De um bom maçarico. Daqueles bem recalcados, neste inferno natalício… (Ao vazio) Quem está aí? Quem? Quem? Deve saber que provas e fatos não me interessam. Razões, muito menos. Interessa sentir. Sentir um pequeno círculo que sabe ouvir a verdade contra a maioria. Sentir quem está do lado certo. Maniqueísmo. O mal está na voz pecadora. Aqui interessa sentir.

Vira uma carta.

Tenho que estar com alguém do meu lado. Interessa sentir. O mecanismo pode ser o mesmo: acusa. É bom saber que alguma coisa é verdadeira não por ser “verdadeira”. Mas porque não posso demonstrar cientificamente o contrário.

A voz:

Sobre essas cartas, digo: são mentirosas. Boa noite, a quem está na plateia. Chega de pensar besteira.

A cartomante:

Sou alquimista.

A voz:

Saberia transformar o chumbo em ouro?

A cartomante:

Tento.

A voz:

Se não consegue, não passa de uma enganadora.

A cartomante:

Mas eu consegui.

Mostra um lingote dourado.

Ouro. Veja. Cai pesadamente no chão.

A voz:

Hmmm… contra-regragem… não é ouro de verdade.

A cartomante:

É chumbo transformado em ouro. Graças às pessoas presentes aqui. Criadas por Deus.

A voz:

Este ouro… Não foi criado por Deus, não é ouro natural.

A cartomante dispõe mais cartas.

A voz:

Bruxaria. Pra fogueira. Acende o fogo.

A cartomante:

Isto aqui e’ teatro. Transmutação em ouro. Separado foi o enxofre do mercúrio. Matrimonio alquímico, pedra filosofal. Com isso, transformo tudo.

A voz:

Enganação.

A cartomante:

Encenação. Consegui o ouro. Consegui o teatro.

A voz:

Vamos queimar os dois. Escravizar esse teu ouro com o poder.

A cartomante:

Vivo fincada neste chão há decênios, neste IML prestes aposentar-me na morte por enfarte.

Epilogo
A voz (tem um soluço. Enquanto fala, a luz se apaga-se quase imperceptivelmente):

Desejo possuir algum espectador nudista que sei que está na plateia, quase uma psicanalista, meio sacerdote cross dresser que prega sermões como este que ouviram da cartomante, baseado nos afetos e homilias sobre neuroses complementares. Quero assombrar o pensamento de alguma convidada burguesa bem apessoada, fumadora de um, excitada com um espelho posto na frente.

A cartomante:

Estou excitada sob esta luz já bastante fraca, urna democrática de desejos noturnos,
na devastante solidão do meu corpo.

Pano.