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Palhaços

Publicado em: 01/06/2022

Chá e Caderno 100.92
Mauri Paroni

Este texto com cortes reedita um artigo sobre a intersecção de uma encenação de “O Homem da Tarja Preta”, de Contardo Calligaris (1948-2021) e a opera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo (1857-1919). Aqui homenageio Pipol, videomaker e criador do histórico portal Cronópios, falecido precocemente em 2015. Era um portal literário que fez história por ser um dos primeiros eletrônicos de alto nível cultural, inventado com Edison Cruz. Nele escreviam Claudio Willer, Sergio Sant’Anna, Glauco Mattoso e tantos outros. Eu assinava a coluna de teatro ali. Este é um modo de lembrar aquele portal que não está mais na internet.

(…)

[ O sucesso da trama de Pagliacci é perene porque apresenta uma vertiginosa sucessão cênica de fatos realmente ocorridos, com eficácia e emoção comparáveis somente ao Otello de Shakespeare.
Uma trupe mambembe chega na praça de uma aldeia calabresa do extremo sul da Itália. Eles já tinham vindo ali antes e todos os conhecem. A mensagem dada na praça é um verdadeiro manifesto do Verismo italiano (***) – corrente literária encampada por Ruggero Leoncavallo. Compositor e libretista do melodrama, filtrou-o de um delito realmente ocorrido em Montalto Uffigo, Calábria. O pai do compositor foi promotor no caso e conseguiu a condenação do uxoricida.
O coadjuvante Tonio declara ao público:
“Senhoras e senhores! Na peça que estão prestes a assistir, o autor (…) não pretende contar-lhes o que estão acostumados a ouvir (…). Não! Este autor quer mostrar-lhes um verdadeiro pedaço de vida. A verdade foi sua inspiração. Verão o amor do modo como o povo real ama. Verão os trágicos resultados do ódio e a agonia da dor real. Escutarão gritos de raiva real e risos cínicos. Não pensem em truques teatrais. Pensem em nossas almas, pois somos pessoas de carne e osso – e neste mundo solitário respiramos o mesmo ar que vocês.”
O palhaço Canio promete-lhes: “Vocês verão como o Palhaço comete tolices e se vinga”. Tonio ajuda Nedda a descer da carroça. Canio o empurra, a multidão ri, Tonio jura que ele se vingará do insulto real. Nedda, sozinha, admite que ela está assustada com seu marido; quer uma vida diferente e canta a liberdade dos pássaros. Tonio interrompe-a com uma declaração de amor, implora-lhe não levar em conta seu corpo deformado. “Eu te amo! você é meu único desejo e ainda vou possuí-la!”, e tenta forçá-la a beijá-lo. Ela o chicoteia no rosto. Ele jura vingar-se dela também. Um flerte de outrora, o camponês Silvio, aparece, e lhe pede para que fuja com ele na mesma noite. Ela está insegura, mas diz que o ama. Tonio conta o que viu a Canio. Silvio escapa. Canio ameaça Nedda de morte, quer saber o nome do amante. “Jamais direi o seu nome!”, diz ela. Tonio puxa Canio de lado e o convence a fazer a única coisa que sabe: fingir.
O ator Beppe pede a todos que se vistam. Hora do espetáculo. Canio está só:
“Atuar! Enquanto presa do delírio, não sei mais o que digo, ou o que faço!
No entanto – é necessário – esforce-se!
Bah! Acaso você ainda é um homem?

Você é um Palhaço!

Veste a túnica e enfarinha o rosto.
Aqui as pessoas pagam e querem rir,
e se o Arlequim te rouba a Colombina,
Ri, Palhaço, e todos aplaudirão!
Transforma em cenas a agonia e o choro;
em uma careta o soluço e a dor.
Ri, Palhaço, sobre o teu amor despedaçado!
Ri da dor que te envenena o coração!” (*)

Ele entra no palco (posto na rotunda do palco real) chorando, enquanto a cortina (real) desce lentamente. Tudo aqui tem sinal invertido. Com o espetáculo no palco ficcional, e o segundo ato real, sobem as duas cortinas, no fundo e no proscênio. Somente Pirandello, décadas depois, conseguiu a síntese de tal dicotomia – nem meia palavra dita ou escrita no século XX pode ignorar essa dicotomia. Mas voltemos à trama.

Colombina, representada por Nedda, está sentada à mesa. Ela conta ao público que seu marido, o Palhaço (Canio), está fora. Enquanto ela espera que o frango assado seja servido, faz sinal para seu amante, Arlequim (Beppe), entrar. Em seguida, seu criado, Tadeu (Tonio), declara seu amor. Ela o menospreza e pede seu jantar. Arlequim entra para cortejá-la. Quando os amantes preparam-se para jantar, Pagliaccio volta para casa. Arlequim escapa pela janela. Colombina lhe diz “até a noite”. Canio enlouquece com ambigüidade da situação. Acusa seriamente Colombina de infidelidade. Fora de seu papel, pede para saber o nome do amante de Nedda que, como Colombina, o chama de Palhaço. Ele grita, “Não! Não sou palhaço! Sou o louco que te acolheu morta de fome nas ruas, que te deu amor e um nome!” O público fica tomado pela aparente confusão de signos e consequente intensidade da representação. O que acontece no palco pode ser perigosamente real, mas o jogo de papéis é o mesmo: traição conjugal, assistida da plateia por um amante preocupado com a revelação de sua identidade. Nedda recusa-se a declarar o nome do amante. Canio, com uma faca em suas mãos dada por Tonio, apunhala Nedda; não há mais drama, há uma morte espetacular. Silvio finalmente se revela: também acaba apunhalado letalmente. Canio mata para saber a verdade numa comédia, sem saber o que enxergar ou no que acreditar, como o público. A morte portadora de verdade significa o fim do drama, mas não da trama, compartilhada pela platéia-personagem, aterrorizada pelo que viu. Para por um mínimo de ordem, o ator-assassino anuncia o fim da representação. (O famoso “La commedia è finita”).

Leoncavallo, autor do drama verista de Pagliacci, é confessional em relação ao público e a credibilidade é tornada impossível pelo melodrama mas a coisa funciona. Nada de mágica. Se o naturalismo não pode existir na ópera enquanto forma, pode enquanto assunto e conteúdo. Estava deflagrado o avanço formal, operado mais tarde por Luigi Pirandello, que trouxe a reboque todo o teatro do século XX.

***

Vamos colocar “Pagliacci” ao lado da estreia da peça “O Homem da Tarja Preta”, no teatro Eva Herz, em São Paulo, [com Ricardo Bittencourt] direção de Bete Coelho. Pensemos o monólogo de Contardo Calligaris, autor também nascido na Itália, sob as luzes e sombras das traições sugeridas pela obra de Leoncavallo. Vale a pena a especulação. O texto também é confessional e, a seu modo, contemporaneamente melodramático.
A espinha dorsal da encenação de “O Homem da Tarja Preta” constrói e desconstrói, no rosto do ator, a máscara de uma mulher devassa que tecla em salas de bate-papo para fetichistas. A personagem é um executivo de classe média alta em busca superficial e frustrada de transgressão através daquela máscara. Não demora muito a trair a si mesmo quando revela diretamente ao público a sua obsessão: ser traído diante de seus próprios olhos. Para isso, conta com a cumplicidade da esposa. Esconde tudo dos filhos, diante de cujo retrato se penitencia insistentemente, em progressão geométrica à aproximação do final. Essa outra traição o afasta de qualquer cumplicidade com a platéia. Estamos na metade do espetáculo quando a obsessão começa a assumir a lógica da condução dos negócios e do relacionamento familiar da personagem. Ao surgir das primeiras contas a máscara está completamente dissolvida, e basta que a platéia entre um pouco mais no jogo para tudo virar um drama onírico como uma peça de Schnitzler.

A personagem-público dos camponeses do sul da Itália do século XIX, que ressaltei na trama de Pagliacci, em “O Homem da Tarja Preta” vira… O público da Sala Eva Hertz, na noite de estréia, dia 18 de março de 2009. Público composto de classe média presumivelmente alta. Graças a esse público contemporâneo e paulistano o rumo das coisas é outro. Se o herói do século XIX de Leoncavallo mata porque não viu a traição, o herói do século XXI de Contardo não mata porque quer vê-la. Tudo vira uma espécie de “Eyes Wide Shut” (De olhos Bem Fechados, de Kubrick-Schnitzler), com um superman nas mãos do pai em vez da Barbie nas mãos da filha. A estréia é uma condição que traz insegurança ao mais tarimbado dos atores, traz uma coincidente insegurança da personagem. A compensação é que as estreias são infestadas de descolettes: gente cega que faz de tudo para demonstrar que vê mais do que há para ver. Não me refiro aqui a quem nunca foi a um espetáculo – estes sabem mais ainda porque não o decodificam de maneira viciada. O descolette não percebe que o espetáculo, que só existe na mente do espectador, acaba somente quando se para de pensar nele, talvez nem isso. A desequilibrar a coisa em favor da arte, Ricardo Bittencourt é um ator dotado daquela intuição fundamental para representar o não visto no palco, o que garante um bom espetáculo.

A confessionalidade do discurso livre do monólogo lembra o Juiz-penitente de “A Queda”, de Albert Camus: o medo de que o fim do amor seja covardia diante da morte. A transgressão vira um sermão direto ao público dito por um penitente que não se arrepende de sua tese. Aproveita-se da contemporânea liberdade de falar diretamente em sexo. Da liberdade de assumir-se enquanto cornudo, de querer ser notoriamente enganado pela mulher-companheira-de-transgressões, somente para salvar aquela mesma moral pública que Canio salvou ao tornar-se assassino: a pureza da mãe, daquela mãe mediterrânea descendente direta de Isis, de Proserpina, da Mãe de Deus, da linhagem de virgens com filhos (aqueles mesmos do retrato) concebidos sem sexo e sem pecado. Quanto mais ele se afirma, mais alegremente se assume como palhaço. Mas o que precisamente a platéia aplaude? O palhaço ou o cornudo?

Trata-se de um penoso conflito de identidades. Cornudo orgulhoso e feliz, nega-o diante da fotografia de seus filhos. A tese de Contardo se conclui com o raiar do dia. A personagem anuncia a morte de sua verdade mais íntima, “quero aprender a ser macho, quero saber como os machos fazem”. O ator não pode mais fingir, não usa mais qualquer máscara em meio aos risos embaraçados da platéia. Ele vive a tragédia de antigas lendas do palco, espécie de morte real num templo da ficção, qual fosse um Molière ou uma Cacilda Becker. Mas não voemos tão alto; estamos em 2009 no Eva Hertz, longe do século XVII parisiense. Hoje a morte toma o lugar da metáfora, usamos o simulacro do sexo para falar do ser humano. A Barbie do filme de Kubrick e o cadáver da intérprete de Colombina assassinada são só o bonequinho do Superman que põe um ponto final na gramática, na lógica e na trama. Melhor, nas tramas.

O espetáculo, teimoso, continuará, “la commedia sarà mai finita”: o público sempre continua, até (e ainda) agora, a viver como personagem. Aplaude a si mesmo, corneado alegremente pelo teatro. (…) ]

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Ἱστορίαι (Historiai, do grego antigo historie, testemunho, no sentido daquele que vê) é o testemunho fotográfico consciente de um espetáculo, a única possibilidade de visão real de um palco. Para ficarmos restritos à veia itálica destas especulações, Lenise Pinheiro tem olhos que fotografam a maioria do que vai aos palcos paulistanos e até iluminam alguns deles. Olhos que pouco frequentam estreias. Pacientemente, entalham o objeto até achar um detalhe que reflete o todo. Einsenstein se admirava com as crianças japonesas, que desenham uma árvore através do corte de um detalhe dela. Seu livro “Fotografia de Palco” testemunha o teatro paulistano de nossos dias como o “Ad Urbe Condita” (Desde a Fundação da Cidade) de Tito Lívio testemunha a História de Roma. Coisa Antiga, com A Maiúsculo.

(**) O filme não é o máximo, mas a íntegra está no YouTube, vale a pena assisti-lo. Tem Juan Pons, Teresa Stratas e grande elenco.

(***) O Verismo desenvolveu-se em Milão a partir de 1875, em torno de Giovanni Verga e Luigi Capuana. Influenciado pelo positivismo e pelo naturalismo francês, deles se diferencia pela exposição do a partir de próprio ponto-de-vista sobre o que se escreve.

– Para saber mais , aqui:

https://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=23&titulo=Cronopios
https://www.academia.edu/33395503/PORTAL_CRON%C3%93PIOS_LITERATURA_TECNOLOGIA_E_INTERNET
https://www.germinaliteratura.com.br/2015/pcruzadas_pipol_ago15.htm
https://claudiowiller.wordpress.com/2015/04/16/pipol-cronopios-xxx-abril-de-2015/

https://www.youtube.com/watch?v=qu2R5OGtvKs
Uma correspondente homenagem a Contardo, dramaturgo e psicanalista, já presidente do conselho da ADAAP, será feita em artigo futuro.
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Recitar! Mentre preso dal delirio
non so più quel che dico e quel che faccio!
Eppure… è d’uopo… sforzati!
Bah, sei tu forse un uom?
Tu sei Pagliaccio!
Vesti la giubba e la faccia infarina.
La gente paga e rider vuole qua.
E se Arelcchin t’invola Colombina
Ridi, Pagliaccio e ognun applaudirà!
Tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto;
in una smorfia il singhiozzo e ‘l dolor…
Ridi, Pagliaccio, sul tuo amore infranto,
Ridi del duol che t’avvelena il cor!

Pagliacci, Vesti la giubba