Os retratos que nunca fiz

Publicado em: 02/10/2017

Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

(“Saudade”, de Clarice Lispector)

“O fotógrafo é um espelho com memória.” Esta frase, cunhada por Márcio Scavone, grande profissional da área e parceiro que já tive a sorte de retratar, costuma vir à tona quando me recordo de alguns retratos que não tive a felicidade de fazer, em que pese meu curto tempo de militância na cena teatral paulistana.

Um dos retratos que sempre tive o maior interesse em realizar foi o da atriz Cleyde Yáconis, irmã de Cacilda Becker e figura fundamental na história do teatro brasileiro, que estreou em 1950 no espetáculo “O anjo de pedra”, de Tennessee Williams, interpretando a sensual personagem de Rosa Gonzales. A montagem foi um dos grandes sucessos do repertório do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), e foi dirigida pelo italiano Luciano Salce tendo como assistente Sérgio Cardoso (outro gigante do teatro brasileiro). Curiosamente, a primeira aparição de Cleyde Yáconis aconteceu em substituição à atriz Nydia Lícia, que, de acordo com o crítico Alberto Guzik, no livro “TBC – crônica de um sonho”, estava impossibilitada de entrar em cena devido a uma indisposição.

Lembro-me que insisti muito na possiblidade de fazer esse registro quando da produção do livro “Retratos do teatro”, já acalentando a ideia de utilizá-lo como capa da publicação. Alguns parceiros, como Ruy Cortez e Rubens Ewald Filho, tentaram intermediar a realização da foto, mas a atriz já se encontrava muito cansada e recolhida em sua casa de campo. Desse episódio ficou a lembrança de uma breve conversa que tive com ela pelo telefone e que, pra mim, representa a memória de um retrato que nunca fiz.

Outras lembranças são as dos retratos dos diretores José Renato e Fauzi Arap. Com ambos flertei a possibilidade de um registro fotográfico. O malogro nos dois casos foi tristemente parecido.

O retrato ausente do Renato José Pécora, o Zé Renato, que também integrou o elenco do Teatro Brasileiro de Comédia – e que, anos depois, estimulado pelo seu professor Décio de Almeida Prado, criaria o Teatro de Arena – foi uma grande perda pra mim. No período em que o espetáculo “Doze homens e uma sentença” esteve em cartaz com a presença do Zé Renato no elenco, eu acabei adiando minha visita fotográfica entendendo que logo surgiria a oportunidade do registro. Já tinha fotografado a primeira leitura desse texto, em 2005, no extinto “Segundas intenções”, evento teatral promovido por Marcelo Várzea e Thereza Piffer. Numa manhã fria de outono do ano de 2011, no mesmo dia da morte de Osama Bin Laden, como sempre me recorda meu amigo e professor de teoria teatral Rodrigo Morais Leite, fui surpreendido com a notícia da morte do mestre. Nada a fazer.

Com o diretor Fauzi Arap, que participou da fase amadora do Teatro Oficina e integrou a primeira montagem profissional do grupo (“A vida impressa em dólar”, de 1961), as tratativas do registro foram intermediadas pela atriz Cláudia Mello, que integrava o elenco, ao lado de Denise Fraga, do espetáculo “Chorinho”, escrito e dirigido por Arap. A Claudia alertava: “eu sei que ele não gosta de fotos, mas eu vou tentando, Bob”. Assim seguimos por alguns meses até a notícia de seu falecimento, em dezembro de 2013.

Mas um dos momentos mais marcantes de minha breve carreira foi o retrato que nunca fiz do ator Paulo Autran.

No verão de 2006, a convite da minha querida Lavínia Pannunzio, fui assistir à pré-estreia do espetáculo “Esperando Godot”, dirigido por Gabriel Vilella, no subsolo do Sesc Belenzinho. Não tinha a intenção de fotografar naquele dia, visto que não existia nenhum acordo prévio com a produção, mas como fotógrafo curioso que sou estava com meu equipamento a tiracolo. Naquele dia se sentou ao meu lado um dos maiores nomes que o teatro brasileiro já escreveu em seus cartazes e letreiros.

O ator que, ao lado de Franco Zampari, Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Sérgio Cardoso, Tônia Carrero, Nydia Licia e tantos outros ajudou a construir a história do teatro brasileiro estava ao meu lado assistindo e se emocionando com um dos mais belos textos já escritos na história do teatro universal.

Ao final do espetáculo troquei umas poucas palavras com ele, mas achei impróprio um convite para um registro tão ligeiro – mesmo ciente de que se o fizesse, ele aceitaria com aquele sorriso inconfundível.

Passado mais de um ano daquele encontro e em meio a muitos desencontros, foi na edição das Satyrianas de 2007, evento criado pela Cia. de Teatro Os Satyros e que homenagearia o ator naquele ano, que soubemos da notícia de sua morte. Um dos meus mais ilustres retratados havia partido sem ao menos ouvir o convite que ensaiei fazer no subsolo do Sesc Belenzinho.

Essas são as lembranças dos melhores retratos que nunca fiz.