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O Pastrami e o Rosbife

Publicado em: 18/07/2022


Chá e Cadernos, 100.97
Mauri Paroni

É temerário misturar contextos contemporâneos a obras históricas-chave de contextos passados. Não é o que faremos aqui, mas acentuaremos o paralelismo de discursos e acontecimentos que se remetem mutuamente. Poucas tramas compostas no passado trazem tantas semelhanças com linguagens políticas contemporâneas como “O Mercador de Veneza”. Tentemos abordar a complexidade presente dos caminhos das suas personagens e sínteses. Entendo personagens como sínteses de significados que se constroem, destroem e se ressignificam diante de um público de determinado ambiente teatral.

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A qualidade de qualquer obra de arte se mede pela representatividade da síntese do universo em que se encontra seu criador. Shylock, por exemplo, representa o que o pensador Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutividade Técnica”, ressalta: “Seria possível apresentar a história da arte por meio do conflito entre duas polaridades na própria obra de arte, e ver assim a história de seu percurso nos deslocamentos alternados do peso de um polo da obra de arte para o outro. Esses dois polos são seu valor de culto e seu valor de exposição. {*)


Walter Benjamin (1892-1940)

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Por uma forte razão pessoal, muito pensei sobre “sangue” paralelamente à releitura e reflexão sobre O Mercador de Veneza: Shylock e o sangue de Antonio a não ser derramado – o mercado; e o cristão que usava a metáfora e o espaço simbólico do “pão e vinho” enquanto sacrifício religioso. Na loucura da história, Roma usou justamente a acusação de realizarem sacrifícios humanos como fakenews para justificar as perseguições aos cristãos. Estes acabariam por dominar a urbe. E depois perseguiriam gauleses druidas, bretões, ameríndios, africanos, asiáticos, oceânicos. E por aí vai. Astecas. Judeus, de novo.

É uma peça fundamental para a compreensão de onde quisermos localizar-nos no mundo. Ocidental e não. Antes da exposição mais tradicional da sua trama, trilhei alguns percursos não convencionais entre critica e afirmação, antirracismo, antissemitismo, capitalismo e socialismo; entre inimigos de Shylock e direito contratual; no monologo do sangue, seu legalismo e a sua ameaça aos negócios da república se ela não fornecesse segurança jurídica; na ilegalidade da vingança como composição dos delitos de apropriação indébita; no anticlímax ou na farsa teatralizada do juiz sem autoridade pela “verdade”, no sexismo pelo clímax e a sua resolução via uma mulher obrigada a um travestimento masculino para operar e advogar pela vida; na introdução das culturas da alteridade, das etnias e suas condições sociais; no combate ao preconceito e à intolerância, ao poder econômico e temporal da religião; na cultura de paz. Haveria de haver um deus uno ou um deus único? Ou nenhum deus?

A linguagem da peça reflete um momento de vazio de poder desaguado na letra da lei típica de estados nascentes. Entronizar criadores de versões mais importantes que reais foi o primeiro passo. Que cidadãos comuns passassem a assassinar quem pense diferente foi outro passo imediato. Exemplo desse fenômeno são as exigências internas ao monólogo de Shylock:

[…] “Ele me desgraçou, fez-me perder meio milhão, riu-se das minhas perdas, fez troça dos meus lucros, zombou da minha nação, destroçou as minhas barganhas, esfriou-me os amigos, aqueceu-me os inimigos. Por qual motivo? Porque sou judeu. Será que um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afetos, paixões? Não é alimentado com a mesma comida, ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e gelado pelo mesmo Inverno e Verão, como um cristão? Se nos cortarem, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? E se nos fizerem mal, não nos vingamos?” […]


Cena do filme O Mercador de Veneza, com Al Pacino. Foto de divulgação ©
Foto de divulgação

https://www.britishcouncil.org.br/atividades/shakespeare-lives/escolas/dicas/mercador-veneza
https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/o-mercador-de-veneza

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Para nos situarmos sobre o texto em que habita Shylock: é uma peça de teatro de William Shakespeare escrita, entre 1596 e 1598. A trama parte de outro autor, coisa muito usada na época. Algumas personagens permaneceram inalteradas: a herdeira rica Portia, o judeu Shylock e o nobre Bassânio.

Naquela que era a principal cidade comercial do Mediterrâneo, Bassânio corteja a mão de Portia; empresta 3.000 ducados de seu amigo íntimo – e quase declaradamente amante – Antônio. Este diz não poder emprestar esta soma porque investiu muito dinheiro no comércio marítimo, mas decide consegui-los com Shylock, um usurário desprezado pelos cristãos. Este despreza Antônio emprestar dinheiro sem cobrar juros, baixando assim a taxa na cidade. Mas Shylock concede o empréstimo desde que Antonio, em caso de inadimplência, pague-o com uma libra – cerca de 450 gramas – de sua própria carne. Antonio assina o acordo, convencido de que será capaz de saldar a dívida já que três de seus navios lhe trarão de volta nove vezes mais do que já havia investido. Bassânio consegue a mão de Portia. Nasce também outro casal, o formado por Graciano, amigo de Bassânio, e Nerissa, serva de Portia. Jessica, filha de Shylock, foge de casa para casar-se com um cristão judeu, Lorenzo, um amigo de Bassânio e Antonio. A jovem fugiu levando 2.000 ducados e o anel que Shylock havia dado à sua falecida esposa. Os três navios que Antonio esperava se perdem no mar, o que significa que ele não pode mais pagar sua dívida com o usurário. Shylock invoca o Doge e o tribunal sobre seus direitos – ameaça acabar com a segurança jurídica dos negócios feitos na República, coisa fundamental para a cidade. Portia e Nerissa, fornecem a seus respectivos maridos um anel simbolizando seu amor, pedindo-lhes em troca de uma promessa: desses anéis eles nunca devem se separar enquanto o amor os amarrar a suas esposas. Portia disfarça-se de advogado para ajudar Antônio no julgamento; Nerissa, vira escrevente. Portia/Baldassarre (o nome do advogado) convida Shylock a aceitar os 6.000 ducados que lhe foram oferecidos por Bassânio, que se tornou rico depois de se casar com Portia. Shylock não aceita e pede a libra de carne de Antonio. Mesmo considerando a desumanidade, o Doge é encarregado de fazer cumprir a lei e é forçado a permitir que o financiador extirpe a carne de Antônio para não criar um precedente prejudicial para o Estado. No entanto: Portia alega que é somente carne, e nenhuma gota de sangue deve ser derramada, sob pena de morte e de confisco de todos os bens em favor de Antonio e do Estado. O Doge lhe concede a vida e Antonio renuncia à sua parte, na condição de que, uma vez morto Shylock, tudo seja legado a Jéssica, sua filha. Finalmente está estipulado que Shylock deve converter-se ao cristianismo, o castigo mais terrível para ele. Dadas essas condições, Shylock decide desistir e não cobrar sua dívida. As verdadeiras identidades e respectivos anéis são restabelecidas. Tudo acaba com a notícia de que os três navios de Antonio chegaram ao porto.

Pastrami parece e nele se inspira, mas não é rosbife.


(*) menção feita num diálogo sobre bibliotecas e espaços da arte com meu colega diretor Pedro Urizzi

Fontes

https://www.dpreview.com/articles/4804601936/faded-dream-blogger-looks-back-at-the-failure-of-the-silicon-film-project

https://digartdigmedia.wordpress.com/tag/reprodutibilidade-tecnica-da-obra-de-arte/

https://www.britishcouncil.org.br/atividades/shakespeare-lives/escolas/dicas/mercador-veneza
https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/o-mercador-de-veneza

https://www.sololibri.net/il-mercante-di-venezia-trama-riassunto-analisi-personaggi.html