O espelho do vidente

Publicado em: 03/12/2019

Chá e cadernos 100.18

Mauri Paroni

O teatro elisabetano foi um momento histórico vastíssimo responsável por aspectos essenciais do que hoje vivemos como gratuitos; foi , entretanto, uma conquista cultural perene produzida pelo esforço de gente de capacidade politica, artística e organizacional extraordinárias; há tanto a aprender com o que é narrado, que fica difícil selecionar o que nos oferece.

Proponho a breve leitura deste monologo de um assassino político arrependido que o caracteriza como um reles miliciano – leitura que ganha sentido emocional vertiginoso se for seguida pelas reflexões individuais do leitor.

De

A TRAGÉDIA DO ATEU (1611) – The Atheist’s Tragedy, or The Honest Man’s Revenge

Cyril Tourneur (1575-1626) – militar, diplomata e dramaturgo elisabetano

Breve sinopse: D ‘Amville, o ateu do título, crê na natureza como única força suprema. O homem seria um ser que pode se imortalizar só através dos filhos. Quer ser rico a qualquer custo. Para isso, assassina o próprio irmão e faz declarar morto o sobrinho, roubando-lhe a herança. Esta cena inaugura a catástrofe do protagonista, que vaga, confuso, num cemitério, assustado pela visão de um crânio.

Ato IV, cena iii

D’Amville

Por que me encara assim? Você não é a alma de quem eu assassinei. O que tanto sou para você atormentar-me a consciência sem piedade?… certamente, você era a cabeça de um ostentadíssimo usurário… O arco celeste lá em cima fechou as janelas e as portas deste grande quarto do mundo e puxou as cortinas das nuvens vedando as luzes … enquanto eu, sobre este leito da Terra, junto com aquela prostituta, a ação delituosa, pecávamos juntos. Jazemos no escuro até que não se completasse secretamente o fato. Mas agora, que começo a sentir o odioso horror da culpa e, como um viciado esvaziado de sua própria sanha, desejo sepultar o meu rosto sob os cílios, agora, que gostaria furtivamente de fugir da vergonha, ela comparece frente à minha face em seus alegres olhos corruptos para pretender de mim o suborno. Oh, veja! Aquele lá é o fantasma do velho Monferrers, num longo lençol branco a escalar uma alta montanha para lamentar-se aos Céus. Monferrers! Que meu medo morra de câncer! Ele já não é mais que uma reles nuvem branca. Serei eu um covarde de nascença? Mente quem o afirma. Mesmo assim, o aspecto de um verme sem sangue poderia ter agora a coragem de fazer-me o sangue virar água. O barulhinho de uma folha de álamo me faria, como a sombra daquela folha, jazer em calafrios. Eu poderia agora cometer outro delito para beber o fresco e quente sangue do assassinado, compensando a falta e a fraqueza do meu, que ficou tão frio e fraco… As montanhas me esmagam; o fantasma do velho Monferrers me persegue… oh, estivesse o meu corpo envolvido naquela nuvem quando o relâmpago lhe abre uma passagem, pudesse eu desaparecer no nada, no ar!

Tradução e adaptação de Mauri Paroni

Elenco encena peça “Hamlet”, de Shakespeare, no tradicional Globe Theatre, de Londres, em 23 de abril de 2014

https://br.noticias.yahoo.com/pe%C3%A7as-shakespeare-ganham-vers%C3%A3o-digital-191807407.html

 

 

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