Natureza humana

Publicado em: 02/10/2017

Fotógrafo finlandês Arno Rafael Minkkinen expõe série de autorretratos em paisagens naturais e urbanas

 

A fotografia, assim como os processos visuais, se estabelece a partir da capacidade mimética do ser humano. E é a partir desta habilidade que podemos produzir uma mediação entre dois mundos: o existente, interpretado simbolicamente, e um mundo elaborado em processos particulares de apreensão.

 

É no momento em que recorremos ao gesto mimético – como criação de identidade e sentimento de pertencimento ao grupo social – que participamos como cocriadores do próprio símbolo cultural. Neste processo de estar e participar do mundo, perpetuando a memória cultural, coletiva e individual, o fotógrafo finlandês Arno Rafael Minkkinen apresenta a exposição Corpo em evidência, em São Paulo.

A mostra, com a curadoria de João Kulcsár – um dos principais estudiosos da fotografia contemporânea –, traz 50 imagens que “transcendem a ideia do corpo como reflexão imaginária diante de uma experimental simbiose com a natureza e suas possibilidades inúmeras de relacionar o corpo humano ao seu estado elástico, metafísico, nostálgico”, diz o curador. Também estão expostas imagens gigantescas na área externa do prédio, com destaque para um tríptico realizado em três países: Finlândia, Estados Unidos e Japão, que forma uma única imagem repleta de significados para o autor. Esses países carregam, entre outros símbolos, a memória afetiva do pai e do filho de Minkkinen.

 

A simbiose, apresentada no texto de abertura da exposição, também está presente na relação entre o curador e o artista. A ideia inicial partiu dos estudos que João Kulcsár realiza sobre o fotógrafo há mais de uma década e apresenta aos estudantes de fotografia. Concretizou-se numa visita ao artista, em Nova Iorque. A partir deste encontro, o mergulho na obra e no método de construção visual do fotógrafo culminou num vídeo em que Arno apresenta seu processo criativo e na mostra fotográfica.

 

O fotógrafo planeja, desenha e executa cada imagem com a precisão que os 45 anos de carreira lhe trouxeram e não utiliza assistente no processo de captura ou na manipulação das imagens por entender que “o que acontece dentro da sua mente pode acontecer numa câmera”. Sobre esse processo, Kulcsár revela que Arno constrói imagens mentais a todo tempo e presenciou a execução de algumas delas, tanto em Nova Iorque quanto na visita do fotógrafo ao Brasil.

 

Outra característica marcante no trabalho solitário de Arno Minkkinen na construção de seus autorretratos fundidos à natureza é a preocupação em não envolver outras pessoas aos riscos eminentes às suas “performances”, já que em grande parte delas o fotógrafo apresenta o corpo nu em situações extremas: suspenso em precipícios, enterrado em florestas geladas ou montanhas, submerso em rios e lagos ou associado aos riscos urbanos das cidades.

 

Os gregos Platão e Aristóteles já anunciavam o significado antropológico da mimese para o surgimento da arte, assim como a preservação e transformação das sociedades. Sobre esses aspectos tão inusitados e marcantes na construção das suas mimeses fotográficas, o fotógrafo salienta: “fazer arte é correr riscos”.

 

Onde: Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana)
Quando: Até 18/12
Quanto: Gratuita
Info: www.sescsp.org.br

 

Bob Sousa é fotógrafo de teatro, crítico de arte da APCA e mestre em artes pela Unesp. Também é colunista no site da Revista Cult.