Monólogos da caveira V

Publicado em: 08/09/2021

Let My People Go

Chá e Cadernos 100.59
Mauri Paroni

O material originário aqui publicado é composto de dois poemas europeus, um brasileiro e três africanos. Deve ser visto como pretexto. Este, mais que um texto, foi pensado para a cena, qualquer que seja o meio expressivo. É dramaturgismo como o aprendi e prático; não seria possível tê-lo escrito-traduzido-adaptado-pensado-imaginado encenação sem ter trabalhado, virtual ou presencialmente, num palco. Isso tem muito a ver com a práxis da SP: quem não trabalhou dessa forma não pode compartilhar a relativa capacidade estética nele desenvolvida. Quem colabora na SP trabalha ou trabalhou em cena; isso não ocorre na academia – portanto, o resultado, ainda que simples, é cenicamente funcional, seja empregado um suporte virtual ou presencial – ambos são legítimos.

Ao abrir-se o pano, uma velha atriz acaba de desfazer-se da maquiagem ao espelho. Acende sobre si uma projeção do quadro romântico de Delacroix “A Barca de Dante”. Coloca, baixinho, em seu velho cd player, o negro spiritual Let My People Go (https://www.youtube.com/watch?v=SP5EfwBWgg0 ). Acende uma vela diante de um crânio apoiado em sua estante. Retira, de seus papéis e cadernos de camarim, um poema atrás do outro e os estuda; não os declama ou interpreta. Diz. Poesia se diz. Emprega, para isso, a vela – sempre próxima, além da pouca luz de seu camarim, sem aquela do espelho, que ela apaga. A atmosfera intimista que cria no ambiente, ela condivide diretamente com o público. Cancela qualquer filtro além do suporte empregado.

A velha atriz:

Música ajuda.

Pausa.

Uma barca para atravessar o tempo ruim.

Pausa.

O andar do pêndulo.

Tell all pharaohs… To Let my people go

Pausa. Toma outra folha e lê.

Desce,
Moisés
Até lá embaixo, na terra do Egito
Diga a todos os faraós para deixarem meu povo passar!
Quando Israel estava na terra do Egito… Deixem meu povo ir! Opressão que não dava pra aguentar… Deixem meu povo ir!
Então, veio o deus Seth: desce, Moisés,
Até lá embaixo na terra do Egito
Diz pros faraós para deixarem meu povo passar!
Então Moisés foi para a terra do Egito… Deixem meu povo passar! Ele fez todos os faraós ouvirem… Deixem meu povo passar!
Sim, disse o Senhor, vai até lá embaixo, Moisés
Lá embaixo, na terra do Egito
Diz pra todos os faraós deixarem meu povo passar!
Assim falou o Senhor, e o valente Moisés disse: deixem meu povo passar!
Se não, eu vou bater em seus primogênitos até a morte. Deixem meu povo ir!
Deus, o Senhor disse para descer, Moisés
Até lá embaixo na terra do Egito
Diga pra todos os faraós para deixarem meu povo passar!
Diga pros faraós… É pra deixar meu povo passar!

[Letra da canção que vem do cd player]:

Go down
Moses
Way down in Egypt land
Tell all pharaohs to Let my people go!
When Israel was in Egypt land… Let my people go! Oppressed so hard they could not stand… Let my people go!
So the God seth: go down, Moses
Way down in Egypt land
Tell all pharaohs to Let my people go!
So Moses went to Egypt land… Let my people go! He made all pharaohs understand… Let my people go!
Yes the lord said go down, Moses
Way down in Egypt land
Tell all pharaohs to Let my people go!
Thus spoke the lord, bold Moses said: let my people go!
If not i’ll smite your firstborns dead. Let my people go!
God-the lord said go down, Moses
Way down in Egypt land
Tell all pharaohs to Let my people go! )

Pausa. Toma outra folha e lê.

Canto II
O voi che siete in piccioletta barca,
desiderosi d’ascoltar, seguiti
dietro al mio legno che cantando varca,
tornate a riveder li vostri liti:
non vi mettete in pelago, ché forse,
perdendo me, rimarreste smarriti.

Canto II
Ó você, na barca pequenina,
Desejoso de ouvir, siga
o meu bote, que, em canto, singra,
Volte a rever a sua lide:
Não se atire n’água, pois talvez
Perdendo-me, você continuaria perdido.

[Dante Alighieri, Purgatório – Tradução e paráfrase do autor]

Paráfrase
Ó vocês que, por desejo de saber,
Em pequeno barco
(de criatividade) seguem o meu, adiante
por sua canção, voltem para a costa:
não viajem por mar aberto,
Talvez percam o meu rastro e ficarão perdidos.

Pausa.

Tranquila, Beatriz. Minha costa segue comigo, minha fé é minha bussola.

Pausa. Toma outra folha e lê.

AS MURALHAS DA NOITE

A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.

Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.

[João Maimona – Angola]

Pausa. Toma outra folha e lê.

Escravidão. Horror. Cinismo.

“Das Sklavenschiff”

E denderendém e tataratá –
A estranha festança não tem fim.
No mastro do traquete, van Koek
De mãos postas, rezava assim:

“Meu Deus, conserva os meus negros,
Poupa-lhes a vida, sem mais!
Pecaram, Senhor, mas considera
Que afinal não passam de animais.

Poupa-lhes a vida, pensa no teu filho,
Que ele por todos nós sacrificou-se!
Pois, se não me sobrarem trezentas peças,
Meu rico negocinho acabou-se.”

[Heinrich Heine, 1854 – Tradução de Augusto Meyer]

O Navio Negreiro

(…)
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.
(…)

E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! …

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

[Castro Alves]

Escravidão. Horror. Cinismo.

National Museum of American History

Pausa. Toma outra folha e lê.

“O que me bate no coração e nos olhos, eu escrevo.”

[Geni Mariano Guimarães – São Manuel, interior de São Paulo.]

Infância Acesa

De manhã, café minguado,
fraquinho, morno, cansado,
saltava do velho bule.
eu me apossava da brochura,
pés na estrada, terra dura
ia pra escola estudar.

Meninos fortes, bonitos,
barrigas fartas, redondas,
cortinas alvas em pompas,
mentiam-me um mundo novo
e me iludiam com igualdade sonhada.
Uma carteira envernizada
sutilmente me acurralava
nos desejos de senhores,
minha caixa com seis lápis,

se escondia envergonhada
ante outras caixas compridas:
trinta e seis lápis em cores.

E a tarde, de volta, em casa,
vendo meu jantar no canto
do fogão movido a brasas:
e adivinhando meu pai
rachando a lenha pro fogo
pés descalços,
chapéu roto,
eu não sabia porque
vinha um doer tão profundo
que o meu peito se estreitava,
sentia um desejo louco
de pegar aquelas brasas
e botar fogo no mundo.

Pausa. Toma outra folha e lê.

A mamã

Mamã África
Geraste-me no teu ventre
nasci sob o tufão colonial
chuchei teu leite de cor
cresci
atrofiada mas cresci
juventude rápida
como a estrela que corre
quando morre o nganga.
Hoje sou mulher
não sei já se mulher se velhinha
mas é a ti que venho
África
Mamã África.
Tu que me geraste
não me mates
não praguejes um rebento teu,
senão
não tens futuro.
Não sejas matricida
Sou Angola, a tua Angola.
Não te juntes ao opressor
ao amigo do opressor
nem a teu filho bastardo.
Eles caçoam de ti.
Caíste na ratoeira
enganada
não distingues o verdadeiro do falso
no teu candidato e secular vigor
cegaste,
e agora és tu
África
Mamã África
que dás força ao irmão bastardo
para asfixiar-me
azagaiar-me pelas costas.
O opressor, o amigo do opressor
o teu filho bastardo
(também tu, Mamã África?)
divertir-se-ão
ao ouvir-me expirar.
Mas África
Mamã África
P’lo amor de coerência
Inda quero crer em ti.

[Deolinda Rodrigues – Angola]

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Pausa. Toma outra folha e lê.

Deixa passar meu povo.

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
– certos e constantes –
vindos nem eu sei donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar…
Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
spirituals negros de Harl.
“Let my people go”
– oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo –,
dizem.
[…]

[Noémia de Souza – Moçambique]

A velha atriz apaga a música, ajeita um travesseiro, boceja e apoia a cabeça para, tranquilamente, adormecer.
Apaga a vela.
Blecaute.

Pano.

Ilustrações

A barca de Dante
Eugène Delacroix, 1822, óleo sobre tela, Museu do Louvre, Paris, França

“Negres a fond de calle” (“Navio negreiro”) de Johann Moritz Rugendas. Imagem da tela e litografia de Johann Moritz Rugendas, de 1830

Navio negreiro – acervo do Museu Afro Brasil – São Paulo, Brasil
Fonte/Fotógrafo Rodrigo Tetsuo Argenton

Maquete do interior de um navio negreiro.
Kenneth Lu de São Francisco, CA – Modelo de navio exposto no Museu Nacional de História Americana (Smithsonian Institution). “Este modelo mostra um navio típico no início do século XVII, Para preservar seus lucros, capitães e marinheiros tentaram limitar a morte de escravizados por doenças, suicídios e lembranças. Na aritmética terrível do tráfico de escravos, os capitães geralmente escolhem entre duas opções: embalar o maior número possível de escravizados e esperar que a maioria sobrevivesse, ou colocar menos a bordo, melhorar as condições entre os conveses, e esperar perder menos por doenças. ”

Fonte Wikipédia