Monólogos da caveira III

Publicado em: 23/08/2021


Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.57

A Sargenta e a Caveira

De um celular, brota um lamento de uma arara indubitavelmente incomodada. Num cenário de tipo beckettiano, uma corpulenta cartomante ajeita colar, turbante e penhoar branco. Acomoda-se sob um guarda-chuva preto. Dispõe uma mesinha improvisada sobre a falsa areia, feita de lençol branco. Alinha as suas cartas para a leitura da sorte.

A Sargenta:
Prestem bem atenção: este é um monologo composto de citações contextualizadas entre si, em elos semelhantes a uma corrente. Ergo, após (sic) dramático e irônico – Assim dizem. Os efeitos dramáticos são evidentes e indisfarçáveis – Nada dizem; eu sou corpulento – Assim dizem. Gorda, no vulgo.

Pausa.

Gordæ.

Pausa.

Corpulentæ.

Pausa.

Esse corretor…

Sou a Sargenta.

Pausa.

Sargentæ.

Pausa.

Sargentæ Querosenæ. Taco fogo nas almas. Assim dizem.

A caveira, voz ventríloqua da Sargenta:

Taca fogo nos corpos. Assim dizem.

Pausa.

A Sargenta:

Tem esta caveiræ também, que me segue onde quer que eu vá.

Pausa.

Leio cartas.

Pausa.

Abre a primeira carta.

Afetos do Deserto.

As peles além e aquém de quatro [décadas]
A mão batuca a caricia, volta a acariciar de quatro
Por bom tempo, de leve, sem descanso, em pausa
De jeito a quatro noites de lembrança no ardor da pele seca pela outra, molhada – sem enxugar pelo frescor excitado:
O deserto chega, afinal, lento.
Viva, nele estão as lendas secas e as quentes tramas.

Toca o celular. Troca o seu turbante por uma boina preta fascista com uma águia. Estilo Duce. Tem os olhos tampados.

Aqui é República Fascista de Salò, província de Brescia. Lago. Sim, sou uma sargenta. Dizem. Fascista.

Pausa.

Fascistæ. Nada dizem.

Pausa.

Ah, sim, o amor. Certo.

Vira outra carta.

Toca o celular com sirena e bombas, metralhadas.

Vira outra carta.

Sim, outra história da sargentæ. Não , não tenho, infelizmente, as da Abissínia.

Esse corretor. De novo.

Sim, está bem, Salò, à beira do lago. O traidor se rendeu. Desertores. Depois cuido deles.

Pausa. Olha o celular.

O tradutor não se rendeu. Pausa. Bate continência e botas. Música fascista.

Para o controle da ordem pública. Guarda nacional republicana. Cerimônia de fundação. Unidades da primeiríssima. Unidades da milícia fascista da polícia colonial e os piores PMs de última.

Pausa. Olha o celular. Corrige.

Carabineiros. Dizimados por deportações para a Alemanha essa nova milícia está destinada a alcançar tarefas são especificadas em um relatório alemão em serviços de segurança para utilizá-los em confrontos armados com resistentes de várias regiões. Na costa do lago de Garda, perto do comando alemão em Salò, fundou-se a República fascista. Ali, SS guardam a residência de Mussolini. Médicos alemães monitoram sua saúde e os celulares estão sob controle as comunicações por rádio são proibidas.

Pausa.

Toca uma sirena. Metralhadoras. Longo silêncio. A Sargentæ apoia a testa na fronte da Caveira.

Esse corretor… Olha… O doutor disse que sou acometida – Assim dizem – acometido – Nada dizem – acometidæ de um sério distúrbio: Um vírus corretor invadiu-me o cérebro enquanto teclava.

Pausa. Espera, em vão a correção.

Distúrbio de el sargentíssimo? Sargentissimæ? – Assim dizem – Um vírus corretor? – Nada dizem.

Pausa.

Continuo a cartomantæ. Assim dizem.

O corretor corrige, finalmente.

Sargentæ. Cartomantaæ. Assim dizem.

Ela repõe o seu turbante e recobra a voz. Depõe o crânio no chão. Vira uma carta. Pausa. Recoloca um chapéu fascista.

As sem-vergonhices – assim dizem – já existiam nas colônias abaixo do equador. Mas quando chegaram aqueles que falavam outra língua, que comiam pão e bebiam vinho, chegou a vergonha. Chamada de bestialidade, de crime nefando, ditaram a ordem e a política.

Pausa.

Diante de um espelho, começa a maquiar-se. Corrige-se seguindo o corretor na tela do celular, como sempre. Mudando a voz, passa a textos oficiais.

Aqui o homossexualismo vive sob a vigilância ideológica, o sexo pode ser feito somente para a procriação da espécie, o resto Deus condena, quem tem o azar de nascer mulher agradeça que não nasceu no Afeganistão e que a família não tem que pagar o prejuízo, o dote. Paga só a maquiagem (em voz corretora). Esse corretor…

A voz da caveiræ: sou a visitadora, cada vez mais fanática. À fogueira toda sodomia, mental ou corpórea.

A sargentæ vira outra carta.

A voz da caveiræ:
[nas naus de viagem que vão deste Reino muitos meninos que os soldados logo levam para suas casas quando ali chegam as ditas naus, e que alguns usam mal deles.]

Pausa.

Pecado nefando.

A voz da caveiræ continua.

[Os Tupinambás, não contentes em andarem tão encarniçados na luxúria naturalmente cometida, são muito afeiçoados ao pecado nefando (…). E o que se serve de macho se tem por valente e conta esta bestialidade por proeza. E nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem como mulheres públicas.]

[Na Guiné, o “vício do bugre”, além de praticado e socialmente aceite, era até divinizado.]

Toca um sino, um tambor e le um bando:

[(…) degredados condenados por sodomia tiveram aqui a vida poupada para colonizar, (ou seja): criar família e gerar o maior número de filhos possível, lutar “virilmente” pelo território, com a autoridade aos capitães passem à morte, sem necessidade de autorização prévia da Metrópole, os culpados de crimes graves: traição e aliança com os índios, heresia, falsificação de moeda e pecado nefando. (…) Aos demais sem condenação, os “machos” brancos, alívio não arranjem com índios ou escravos, reduzindo a sua autoridade e fomentando a ousadia nos oprimidos para se rebelarem – o Tribunal do Santo Ofício reprime, “o abominável ato nefando” ou o “nefando pecado”.] – Nada dizem.

O passivo é mais culpado ainda… Entre mulheres, os crimes são menos graves. – Assim dizem.

[Milhares de pessoas foram denunciadas, presas ou queimadas; centenas foram condenadas a desfilar publicamente em autos de fé e a seguir torturadas ou exiladas. Os arquivos da Inquisição de Lisboa trazem muita informação sobre a maioria das perseguição por sodomia: pobres e jovens, prostituídos para sobreviver.]

Olha para a caveira.
Nada de novo. Assim dizem.
Vira outra carta.
Aahhhhhh! Grilhões! Buñuel!
[A partir de uma colaboração entre Marx e eu. (…) Da primeira frase do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels: “Um fantasma está circulando pela Europa”. De minha parte, vejo a liberdade como um fantasma que tentamos capturar e… abraçamos uma forma enevoada que nos deixa apenas com um pouco de umidade em nossas mãos. (…) Em meu filme [O fantasma da liberdade], o título surgiu irracionalmente (…) e ainda assim acho que nenhum título seja mais apropriado (…) ao espírito do filme.] (*)

Vira outra carta. Segura raivosamente a caveiræ. Fala entre os dentes, bem perto dela.

Ahhhhh ! de novo ! O Goya, o Três de Maio, a revolta, o Napoleão que dizia nos libertar da servidão, fuzilando a gente. Sem lutar, seriamos fuzilados. Lutamos e fomos fuzilados. – Nada dizem.
Pausa.
Pelotão de fuzilamento, os gritos desesperados das crianças, o grito do último homem baleado, aos pés do qual já se encontram outros corpos. Tudo no quadro.
Pausa. Vira outra carta
Estas cartas embaralhadas são cenas encadeadas. Um capitão viola uma estátua, gesto que é respondido pelo marido, também morto, que ouviu remover a mortalha da esposa intacta; outro gesto respondido pelos lençóis arrancados, pelo sobrinho, do corpo de sua tia, que é a mulher morta com quem o capitão quis fazer amor, que convida um policial, pelo celular a profanar-lhe o próprio caixão.

Pausa.

Junte-se convívio familiar em que o momento de sociabilidade ocorre pelo ato de defecar em comum, à mesa, enquanto o almoço real é comido avidamente, em solidão, em um quartinho reservado.

Pausa.

Entermeado de um franco atirador assassino sem motivo, e uma criança ignorada pelos pais e pelo Estado.
Pausa. Grita
.
[“¡Vivan las cadenas!” “Viva os grilhões »
“Uma única história que passa por diferentes personagens que se revezam. (…), os episódios estão (…) conectados, eles se chocam menos: fluem (mais) naturalmente. (…) imitam o acaso, (Tudo) foi escrito em estado de consciência; não é um sonho ou um fluxo delirante de imagens.] (*)

Pausa. Vira outra carta.

Ahhhhh! de novo! de novo! Caveiræ !

[O acaso governa todas as coisas; a necessidade, que está longe de ter a mesma pureza, só vem mais tarde.] (*)

Grita.

“¡Vivan las ca’enas! – “Viva as correntes!”.

Pausa.

Voz ventríloqua da caveiræ :

Esse aí, que quer promover os valores da liberdade, propina só o fantasma dela – Nada diz.

A Sargentæ :
Diante de tanta indecência, fica em silencio, você. Não tem vergonha?

Olha o celular. Olha para a caveira. Solicita, em improviso, os ingressos do público. Recolhe-os.

Marido. Esposa. Amante. Prole. Parentes. Família. Rede social. Amizades. Afetos.
O fogo que purifica.

Incinera os ingressos, um a um.

Teorema. – Assim dizem.

Olha para a caveira.

Sempre em silencio, você. Obediente covardia. Não tem vergonha?

Olha para a caveira.

Pausa.

[Basta que um homem acorrentado feche seus olhos para mandar em pedaços o mundo.] (**)

Indecência. Sempre em silencio, você. Violência. Não tem vergonha?

Tira outra carta.

Milhares de questionários; biblioteca imensa e única sobre erotismo e homossexualidade, medicina, psicologia etnologia, aconselhamento sexual a 20.000 pessoas, 1.800 consultas anuais; pobres tratados de graça. Educação sexual, contracepção, tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, emancipação da mulher, direitos civis e aceitação social de homossexuais e transexuais – Nada dizem.

Pausa. Para provocar a caveiræ.

Não foi sonho. O Institut für Sexualwissenschaft. foi um instituto de pesquisa, no Tiergarten de Berlim, dirigido pelo médico judeu Magnus Hirschfeld. Foi real. Foi pesadelo, no final de 1933. Promoveu-se uma limpeza de gays, lésbicas e bissexuais; a juventude nazista da Deutsche Studentenschaft organizou um ataque contra o Instituto. Foram saqueados 20.000 volumes, 5.000 fotos e uma longa lista de nomes e endereços de pessoas que passaram pelo Instituto de várias maneiras. Para queimar, prisões foram feitas com a lista de endereços apreendidos do Institut; presos foram para campos de concentração onde morreram em consequência das condições de vida impossíveis – Nada dizem.

Pausa.

Vira outra carta.

Heinrich Heine! (***)
[Onde quer que você queime livros, acaba queimando homens também];

Pausa.

Afinal, estou aqui a virar cartas, a demonstrar que todos esses acontecimentos estão ligados.

Pausa.

Ligados pelo acaso, que tudo governa.

Pausa.

Saber que nos liberta do fantasma da liberdade.

Pausa.

Este é um monologo chique. É pós dramático. Assim dizem. Todas feitas de citações.

Não entende? Não entende?

Olha para a caveiræ.

Sempre em silêncio, você. Não diz nada? Não tem vergonha?

Encosta a fronte na fronte da caveira. Num pranto profundo, contido, quase sem voz, queixa-se:

Não aguento mais tanta violência.

Uma arara tenta cortar a corrente que prende sua patinha a um poleiro.

Pano.

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Ilustraçoes da internet e filmes de Buñuel.

Citações e Referências:

(*) Luis Buñuel – Entretiens avec Buñuel de 75-79 [archive]

(**) Octavio Paz.

(***) Heinrich Heine. (1797-1856), poeta alemão .

http://conversandoalegrementesobrehistoria.blogspot.com/2015/09/a-homossexualidade-em-portugal.html
Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Diversidade_sexual_em_Portugal; Luiz Mott, “Relações Raciais entre Homossexuais no Brasil Colonial”, Revista de Antropologia, Univeridade de São Paulo, vol. 35, 1992, pp. 169-90; Processo da Inquisição de Lisboa n.º 352, Arquivo Nacional da Torre do Tombo; Amílcar Torrão Filho, “Tríbades galantes, fanchonos militantes: homossexuais que fizeram história”, Edições GLS, São Paulo, 2000; glbtq, a enciclopédia on-line; Luiz Mott, A Inquisição e a repressão à Homossexualidade no mundo luso-brasileiro Seminário em 21-02-2005 do Centro de Estudos Sociais da Universidade Federal da Bahia, acedido em 21-04-2008.