Monólogo Pausado

Publicado em: 25/10/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.65

 

Um ator abre um bilhete. Lê:

“Sou um homem ridículo. Agora me chamam de louco. Se eu fosse mesmo um louco para eles, se já não fosse apenas o ridículo de sempre, isso seria uma promoção. Mas agora já nem me zango, agora todos me são queridos, até quando riem de mim – aí é que são ainda mais queridos. Eu também riria, – não de mim mesmo, riria por essa coisa ridícula que é amá-los; mas não rio! Como rir se quando olho para eles fico triste? E muito triste! Triste porque eles não conhecem a verdade, e eu a conheço. Conheço a verdade! Ah, como é duro conhecer sozinho a verdade! Mas isso eles não vão entender. Não, nunca vão entender. “

Pausa.

Amargo viúvo. A de cujus ainda está viva.

Pausa.

Amarga. Assim é a vida. Amarga, mais que o teatro. Como ovo cozido, pão preto e carne crua.

Pausa.

É como descrever o lado mais amargo de uma vida.

Pausa.

É como a morte repentina de um amigo.

Pausa.

Mostarda e carne crua.

Pausa.

Não melhora. È.

Pausa.

É como perder a descendência sem te la educado… o mores… tempus non jocundum.

Pausa.

Ciranda não brinca. É vida de teatro pobre, anterior à logica industrial.

Pausa.

Evitei prole – pela vida errante a que se destina os da paixão.

Pausa.

“Por Hécuba! O que é Hecuba para ele, ou ele para Hécuba, para chorar por ela? O que ele faria se tivesse o motivo e a deixa para a paixão que eu tenho? Afogaria o palco de lágrimas.”

Pausa.

Mas nada aprendeu quem ainda gosta decentemente do outro, do diverso de si.

Pausa.

Cultivou, por mais de uma vez, a prole de imbecis enfiadores de protuberâncias sedentas do que chamam de prazer, de consumo toxico feito para criar bucha de soldados traficantes.

Pausa.

Calculada e inconscientemente vou para o semiesquecimento.

Pausa.

Empurrado pela idade disfuncional.

Pausa.

Velhice.

Pausa.

Quem mandou não sumir com o próprio corpo numa represa?

Pausa.

Feita para o dia em que não mais precisarem do que fiz conhecer.

Pausa.

Feita para afogar alguma fineza estética. Alguma coisa melhor que a frescura parisiense de sorriso irresistível, daquelas que encantam pela responsabilidade de não ser um vira-lata do faz e some.

Pausa.

Feita para ceifar a vida que se cansa do prazer fátuo.

Pausa.

Feita, enfim, para abrigo do distraído na vigência do ato de gerar a vida.

Pausa.

Coisa humana e infeliz para este errabundo.

Pausa.

Enviado à senilidade por não ter se suicidado, por não se ter morrido em canceres, cardiopatias, escleroses nervosas de sistemas centrais.

Pausa.

Ente simbólico. Real. Imaginário.

Pausa.

Limbo útil desconsiderado como saber.

Pausa.

Jamais acadêmico – a ser deslembrado um dia depois de morto.

Pausa.

Viúvo solitário da não esposa. Sujeito sensível ao trágico que recusa o drama e o consumo.

Pausa.

Que sofre sem pranto.

Silêncio.

Gente dessa súcia não deveria sobreviver.

Pausa.

Acreditei que fosse importante não morrer. Lutei desesperadamente para sobreviver ao a um corpo que queria morrer; morto, eu até seria conveniente. Hoje, não mais: virei um cara que fica, sem ser nada, nem viúvo, nem artista, nem nada.

Pausa.

Um problema.

Pausa.

Um nada de nada.

Pausa.

Eu me arrependo de não ter morrido.

Pausa.

Assim, continuo escrevendo para o além do abismo. Tipo figura triste de roqueiro que não morreu jovem.

Pausa.

Crânia morreu sem jamais ter existido. Surgiu uma lagrima, solitária.

Pausa.

Sofro horrivelmente.

Pausa.

Sofrimento pior que o do câncer.

Pausa.

Sofro horrivelmente. Teatro é assim. Sofro horrivelmente.


(*) Fiódor Dostoiévski em O Sonho de Um Homem Ridículo – tradução de Francisco de Araújo.

(**) For Hecuba! What’s Hecuba to him, or he to Hecuba, That he should weep for her? What would he do, Had he the motive and the cue for passion That I have? He would drown the stage with tears…”
(tradução de Mauri Paroni)