Monólogo da Caveira X

Publicado em: 18/10/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.64

Teatro não é simulacro!

O monologante acende uma vela para o crânio posto no centro do palco.

Cara Crânia, como sofre o público no teatro.? Ouvi que agora temos alerta de “gatilho”. Gatilho de sangue, de morte, e vai mais saber o que. Chegaremos a um gatilho de simulacro. Mas não compliquemos esta linguagem. Falemos mais simplesmente: Você um dia pertenceu a…

Olha uma etiqueta.

… Geraldāo. Ao corpo de Geraldāo.

Pausa.

Esse era o apelido dele no piscinão de formol do IML. Era meio destruído quando chegou ao necrotério. Disse o cara que te autopsiou e te emprestou para que eu te escrevesse estes monólogos.

Pausa.

Falando de tudo ao final desses monólogos, a ti intitulados.

Pausa.

Estamos justificados pela falta de lugar de fala, mas somos injustos. Theatron quer dizer “o lugar de onde se vê”

Pausa.

Então… o que devo fazer? Não mais escrever, perguntar, monologar?

Pausa.

Dialogar?

Pausa.

Que sofrimento em se reconhecer no lugar de quem está no palco; mas se sofre não pela situação da trama, da narração… mas por não possuirmos mais os meios mais simples: a palavra que corresponda ao real, ou o mínimo dinheiro para a sobrevivência, o tempo para pensar e repensar as desgraças que, no fundo, não seriam minhas não fosse a minha empatia, hoje desprezada. Todos querem ser “bons”, mas maus há.

Pausa.

Há, e no comando de tudo, uma hegemonia de criminosos genocidas, racistas, assassinos reais e deleters, covardes midiáticos eletrônicos, haters, neopentecostais, borderliners, farialimers, me toos, a imunda caterva olavista e os que nem cito dos “com quem está falando?”

Pausa.

Onde vou acabar? Que muro é esse entre o pó e o mal-estar do medo da peste? Porque acho que aqui sumiu muita coisa, muita cultura, muita gente – passaram uma borracha traçando muros.

Pausa.

Acho que você é um carrasco voluntário; um calmo, um que cumpria ordem. Você faz o que diz o chefe, quem decide o tempo de vida, meu tempo de vida.

Pausa.

Eu passei a vida resistindo a isso.

Pausa.

Estudei muito pelo amor do saber, não fiz meio telefonema procurando papel ou fama, um aparecer, uma carreira; fui artista que rodou o mundo pelo saber, seduzir pessoas para as conhecerem – as conhecendo, amei, sofri por não ver isso reconhecido.

Pausa.

Sofro agora por como se vive o que estudei, que amei, amo – a imperfeição e finitude do ser humano, a imperfeição desesperada.

Pausa.

Sou um desesperado.

Pausa.

Um pessimista.

Pausa.

Um insuportável narciso.

Pausa.

Não vou resistir a desistir.

Pausa .

Não me diz nada?

Pausa.

Para que deveria resistir?

Pausa.

E quem consegue resistir? E a que?

Pausa.

O alvo não mais é alvo. É simulacro.

Pausa.

Teatro não é simulacro.

Pausa.

Teatro não é simulacro!

Pausa.

Diga alguma coisa.

O monologante respira e toma um copo de água.

Longo silêncio.

Vou resistir. Não sei a que, mas vou.

Pausa.

Quero uma gramática de reconhecimento à identidade; que não seja uma política central; quero reconhecer este meu problema, este ato de sofrimento. Este aqui. Não quero repetir o que me trouxe aqui. Tem que reconhecer o que te digo. Crânia, esse mutismo não é coisa suportável. Conta o que tens.

Silêncio.

Esse silencio de Crânia é teatro.

Pausa.

O teatro é a trama de meu desespero de ter estudado o que construiu a academia de arte usando a grana do seguro sobre a carga perecível dos escravizados, contados como gado, pelos outro gado manipulado na ausência do teatro. O silêncio de Crânia transforma o grito real da morte do Geraldāo.

Pausa.

São a mesma caveira.

Pausa .

Posso ser um desesperado porque estudei e agora tento construir uma gramática no grito impossível.

Silêncio.

Lamento, mas vou continuar.

Pausa.

Político.

Pausa.

Passo a ser próximo ao banto mesmo sem sê-lo totalmente, assumo a diferença da identidade, não serei marginal para ser herói, não serei bom, como foi Hitler, que cumpriu o que prometeu, como Pol Pot, Idi Amin, Stalin et coetera (*). Trump. E outros mais.

Pausa.

Até me encontrar morto e ir ainda mais perto de ti, Crânia.

Pausa.

Uma última palavra, Crânia, dita por Primo Levi. (* *)Nos seus anos, usava-se “Homem” como Gênero Humano

Pausa.

Antes, prefiro lembrar que “É isto um homem?” descreve o projeto primário dos campos de extermínio: a devastação do gênero humano através da privação.”

Pausa.

Assim têm desmontado a gente.

Pausa.

Saca um bilhete, segura a caveira e lhe sussurra:

“Se compreender é impossível, conhecer é necessário. Porque o que aconteceu pode retornar, as consciências podem ser seduzidas e cegadas: até mesmo as nossas.”

Apaga a vela.

Pano.

(*)
Pol Pot (1925-1998) foi um revolucionário e ditador cambojano, líder da guerrilha Khmer Vermelho; Iosif Stalin foi um revolucionário e ditador da União Soviética após a morte de Lenin. Também foi Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética desde 1922 até sua morte em 1953; Idi Amin Dada foi um general e ditador de extrema direita, dado até ao canibalismo, Presidente de Uganda de 1971 a 1979.

(**)
Primo Levi (1919-1987) foi um escritor e químico italiano, autor de ensaios, romances, contos, memórias e poemas. Sobreviveu ao envio aos campos de concentração e extermínio nazistas na Segunda Guerra Mundial; suicidou-se em Turim em 1987.