Monólogo da Caveira IX

Publicado em: 04/10/2021

Chá e Cadernos 100.63
Mauri Paroni

Crônia e o Candombe: uma Alegoria

Duas rotundas pretas, postas paralelamente em alturas diferentes em 35 centímetros. Permitem a passagem de uma pessoa, de uma cadeira de rodas ou de um patinete. Tudo disposto em modo de esconder um corpo do crânio (de Crânia), em “diálogo” com o artista monologante, que entra e acende uma vela em respeito a Crânia.

Monologante:

Tenho grande prazer em monologar contigo, Crânia.

Pausa. Coloca um tango canyengue no toca cds. Desliza entre as rotundas, em dança na direção de Crânia. Faz-se seguir por ela, laçando-a.

Gaúchos laçavam indígenas para povoar o vazio das planícies. Expulsaram, alistaram em guerras, expuseram à febre amarela sem qualquer treinamento ou vacina, até o extermínio: era a corrida em direção ao interior. Laçavam gente.

Pausa. Caminha sobre rodas entre as rotundas de modo quase hipnótico. Desfila as palavras no mesmo ritmo: menos como uma canção, mais como uma oração.

Este-jeito-de-ladinho-é-o-canyengue-de-que-te-falei.

Pausa.

Se-dançava.

Pausa. Música. Cáceres. (*)

Se-dançava-na-água-e-na-terra.

Pausa. Música.

Se-dançava-homem-homem-mulher-mulher.

Pausa. Música.

Com-essa-música. Apagaram-a-gente-mas-isso-ficou.

Pausa. Música.

Nunca-parou. Nunca-para. Esse-passo-marcado-de-pé-colado-no-chão, sensual, angolano-sedutor, alma-de-nossa-gente-que-ficou-na-gente-deles.

Pausa. Música.

Não-tem-tango-sem-banto.

Pausa. Música.

Não-tem-canyengue-sem-breque.

Pausa. Música.

Tem-breque-quando-não-tem-quebra-pra-ir-adiante.

Pausa. Música.

Tem-palavra-de-sangue-bom.

Pausa.

Soldado morre.

Pausa.

Canyengue não morre.

 

 


Música .

Não-tem-canyengue-sem-oração-aos-deuses, canyengue-é-aquela-turma-do-candombe-que-se-ajudava-pra-não-morrer-na-fome-pra-não-se-matar-pra-não-matar-ou-guerrear-como-bucha-de-canhão-quase-fisicamente-exterminados-na-modalidade-experimental-de-tráfico-mais-genocídio, de-cancelamento-da-língua-profunda-dos-avos-que-só-de-ouvir-já-foi-ter-falado, de-depois-de-uso-desumano, de-plagio, de-pré-fascismo, de-inferno-real.

Pausa.

Não tem canyengue sem esperança.

Sai de trás da rotunda. Revela o mecanismo de rodas. Revela os passos de sua dança. Enxuga o suor. A Crânia:

Permita-me dançar este clássico. Assim compomos a alegoria.

Pausa.

Canyengue não morre.

Música. Dançam. Acendem uma vela a Crônia.

Puxa outra dançarina clássica de milonga. Dança enquanto ele continua, com a voz progressivamente mais baixa, até virar uma oração, no exato momento em que terminam e congelam o movimento ajoelhados entre si.

Sumiram-com-os-escravizados-de-San-Telmo; sumiram-com-os-que-dançavam-no-mesmo-genero; mentiram-que-a-gente-tenha-jamais-existido-mas-dançam-passo-marcado-bantu-de-ladinho-candombe. A-gente-dança-no-corpo-deles. Não-morremos. Soldado-morre-por-nós.

Pano.

(*) A letra do candombe tango:

Toca tango toca tango!
Os negros falam com o tambor.
Jogue tango, jogue tango!
Mandinga está chegando, viva Xangó!

Em Retiro, eles os marcaram
para levá-los a Potosí
e logo ali foram marcados
com sua mancha carmesim.

A Córdoba e Tucumán
todos eles foram para sofrer,
para o norte, foram levados
Para as minas para morrer.

Em Buenos Aires eles ficaram
De ganho ou para mendigar,
ou no comércio de emigrantes
muitos ficaram sem dormir.

Quando a Revolução chegou
foram enviados para a guerra,
muitos deles retornaram
sem um braço e sem razão.

O homem negro batia o couro
para esquecer suas mágoas
ou rir da sua sorte,
candombeando sem problemas.

O homem negro teve sua glória
quando Juan Manuel chegou,
mas não durou muito tempo
porque tudo foi com ele.

Borocotó, borocotó, borocotó, borocotó, chas, chas.
Jogue tango, jogue tango!

 

Toca tango
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[ESTRIBILLO]
¡Toca tango, toca tango!
Dicen los negros con el tambor.
¡Toca tango, toca tango!
Viene Mandinga, ¡viva Xangó!

En Retiro los marcaban
pa’ llevarlos al Potosí
y allí mismo iban quedando
con su mancha carmesí.

Por Córdoba y Tucumán
iban todos a sufrir,
hacia el norte los llevaban
a las minas a morir.

ESTRIBILLO

En Buenos Aires se quedaban
pa’ el servicio o a pedir,
o en oficios de emigrantes
iban muchos sin dormir.

Cuando fue la Revolución
a la guerra los mandaron,
muchos de ellos regresaron
sin un brazo y sin razón.

ESTRIBILLO

El negro tocaba el cuero
pa’ olvidarse de sus penas
o reírse de su suerte,
candombeando sin problemas.

El negro tuvo su gloria
cuando vino Juan Manuel,
pero le duró muy p
oco
porque todo se fue con él.

ESTRIBILLO

Borocotó, borocotó, borocotó, chas, chas.
¡Toca tango, toca tango!

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