Meditação

Publicado em: 22/11/2021

Chá e Cadernos 100.69
Mauri Paroni

Início de dezembro de 1983. A ditadura militar estava desgastada, perto do fim. Por isso mesmo, os estragos eram evidentes, maiores, recessão, inflação no descontrole, um general-presidente perto de sair pela porta dos fundos. Estudar Direito na época era caminhar literalmente numa corda de incertezas insuportáveis para jovens. A maioria ali era de gente fadada a ser dirigente. Muitos com lugares reservados numa sociedade estruturada pela desigualdade – que não mudou quase nada. Na cerimonia da formatura da turma de Direito, nosso patrono era o progressista Fabio Konder Comparato, juristas eram majoritariamente defensores de liberdades democráticas, partidos e políticos de esquerda enfim podiam legalizar-se. Havia muita esperança e vontade de construção do que fosse democrático, do que pudesse assemelhar-se a uma cultura progressista. Era tudo muito mais complexo do que aqui descrevo, mas isso é do que se lembra quem estivesse naquela cerimonia daquela noite. A forma era pequeno-burguesa, estilo anos 80 século XX: Beca alugada, meninada semi alterada por bebida envelhecida de segunda, baseado melhorzinho, famílias de gente que superava a sua condição, famílias de gente que herdava pequeno poder. Futuro incipiente e muitas promessas. Ambições e orações. Mediocridades malufistas, Jânio Quadros rondando. Mas tinha Gilberto Gil, a lembrar que a maioria queria ir com fé.

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Sempre fui orientado pela teoria crítica do Direito, mas sabia que não Iria virar advogado, juiz, promotor, essas coisas que a maioria de meus colegas virou. Eu era e já vivia de teatro: estudava e recusava um futuro assumidamente burguês para isso. Criava textos iconoclastas, curtia o Surrealismo – até hoje -, dirigia monólogos de Antígona com gente fora da faculdade, dos bares, das ruas, da prostituição e trabalhava no recém-inaugurado Teatro Sergio Cardoso.

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Um destino, como tantos, infinitos, jogados nesta roda do tempo. É sempre uma questão de recolhê-lo, como lembrado pelo mito do eterno retorno, do filosofo performático que foi – e é, dentro de nós – Friedrich Nietzsche.

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Naquela noite, estava nervosíssimo. Não sabia direito quem era e o que queria. Faltava-me o chão. Estranhado em meio à toda aquela gente feliz, a minha real felicidade estava temerariamente apoiada em um longo bilhete escondido embaixo de minha beca. Era um discurso pelos que não iriam virar juristas. Eu não era orador da turma. Estava por praticar um ato fora da forma e da norma numa formatura de… profissionais da norma. Um ato de legitimidade muito discutível. Virei uns sete ou oito goles fartos do uísque ordinário, também escondido sob a roupa.

Tomei de surpresa a tribuna, na frente de toda a banca. Tinha medo de ser preso. Foi muito, mas muito, pior do que qualquer estreia difícil que tive depois, na vida. Aquilo durou uns cinco minutos. Aos sussurros, amplificados por caixas de som que não foram silenciadas, consegui declarar que a Faculdade de Direito do Largo São Francisco tinha formado mais artistas, mais esquerdistas malucos, mais políticos, mais delegados direitistas, do que juristas. (Silencio e desapontamento geral). Respirei fundo. Prossegui: “juristas democráticos rareiam – o que não é problema, pois artistas poderiam estar escondidos aqui”. (Desapontamento ruidoso). Mais pretensioso ainda, subi o tom e disse que “artistas dão voz a quem não pode estudar, a quem acaba censurado, a quem tem a voz silenciada”. (Vaias, aplausos e risadinhas). Continuei, teimoso. Disse que quem era do teatro podia fazer mais por aquela gente que burgueses colegas e mestres ali presentes. Que talvez virassem “gente de notório reacionarismo”. (“– o que isso tinha de ver com o Direito?”). Foi uma afronta de um cara-de-pau.

O fiasco de um chato: Um misto de populismo com convicção irrefletida. Estava feliz e envergonhado pela minha arrogância despudorada. Não havia sequer participado da votação para sido eleito orador (que foi Alberto Amaral Junior). Horrorizado por perceber o quão presunçoso havia sido ao falar em nome de gente silenciada, desci da tribuna. Houvesse um abismo nas imediações, teria me atirado. Queria condenar-me à morte, como o juiz penitente de “ A Queda”, de Camus.

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Mesmo tendo sido mais pessoa que personagem, orei publicamente como ator. Quem é do teatro sabe que um dia morre, internamente, a parte que não se é, para que nasça o outro de si, aquele alguém “do teatro”. Bom ou ruim, não importa. Mas “do teatro”. Naquele ato religioso, aprendi, solitário, desesperado, a orar com e no teatro. A Meditar. Assim fizeram – sempre farão – muitos. Qual sacerdotes egípcios cantam o defunto diante do corpo inerte a mumificar-se, qual orixás falam dentro da mente, qual embriagadíssimos Téspis afrontam e mentem publicamente a tiranos como Sólon. Foi como roubar um beijo ao amor por anos reprimido.

Desde que faço teatro – desde aquela noite – costumo meditar rapidamente, em pensamento e respeito a uma dívida contraída no e pelo palco. Jamais deixei de fazê-la, formal ou instintivamente. Dura pouco: de segundos muito concentrados e sofridos a alguns minutos mais relaxados e gozosos. Mas sempre toma meu corpo. É uma atividade performática, pois hoje a cadeira o limita.

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Em décadas de vida de teatro, anotei algumas palavras. São um meio limitado, mas o único de que disponho para compartilhar.

I. Humanoide sou, acidentalmente, da capacidade do fogo controlado, herdada de outro irmão que o fez há mais de trinta mil anos anos.
II. Há uns quarenta mil anos, o gelo glacial começou a derreter. Humanos atravessaram Gibraltar ou o Bósforo e foram bater na Europa e no Oriente, acho que na Mongólia. De lá, ou atravessaram pelo Alasca, ou vieram pelas naus até a América.
III. Com essa gente, vieram os fantasmas.
IV. Com os fantasmas, vieram os palcos e os picadeiros.
V. Não sei como ou porque fui atirado aqui; choro e rio por isso.
VI. Quero fugir dessa confusão. Não consigo por ordem porque gosto muito daqui.
VII. Ainda não sou um fantasma, mas sinto como se fosse um. Então, agradeço ao fantasma que sou.
VIII. Ó fantasma:
– Que se possa diminuir o poder de quem professa a mentira repetitiva sobre um passado de ouro que jamais existiu.
– Que se professe uma crítica ao mando; à obediência; à dominação técnica da riqueza pelo privilégio.
– Que o meu pathos tenha um ethos decente.
– Humilde e mentiroso, “eu” de corpo decadente, de fome de saber de um amor inesquecível, pelo vicio de mudar uma existência pela memória de uma presença que está longe, responda dentro de mim sobre o que aconteceu. Não tenho mais sinais daquele presente a que recusei este outro futuro presente.
– Não me puna por um segundo de amor não enfrentado como tal.
– Forneça-me o crivo de criação de valor e da progressão da igualdade social, discurso por discurso: o do outro, o da musicalidade, o do movimento, o da ação de pensamento.
– Que se acabe, portanto, aquele jeito falso do ator enquanto “o cara que lê”.
– Pela felicidade de quem me rodeia.
IX – “Encontrei o mar meditando sobre uma gota de orvalho.” (*)

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Esta é a dívida contraída de ti, neste lugar que fica sagrado com a presença deste eu pagador.
Lugar que beijo.

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Estudo lítico e teatro: trinta mil anos de humanidade nas mãos, nas mentes e na Pedra de Rosetta. Pedra na mão, em paz, estudo e oração.


(Fotos net e MP)

(*)Kahlil Gibran, Máximas Espirituais, Incipit].