Insights

Publicado em: 09/04/2021

Chá e Cadernos 100.37
Mauri Paroni

Destes quatro insights(*) dois homenageiam quem não está fisicamente conosco desde a semana passada.

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Severino (foto: Instagram)

Avistava-me diariamente com o pipoqueiro Severino João de Lima quando trabalhava numa improvável função de nome “orientador artístico”. Aos dezenove anos, furei um arranjo para o preenchimento das vagas do teatro; havia atingido cem por cento da avaliação na prova escrita, o que eliminou de cara a necessidade de mais pontos numa entrevista espúria que faria a diferença entre os concorrentes. Tiveram que me engolir com pipocas. Produtores de passagem por ali resolveram exigir auxílio versus licença-calçada de Severino que, pernambucano arretado, não aceitou a chantagem. Corri em seu apoio. Inviabilizar o seu carrinho foi um absurdo perpetrado por quem ao teatro nutria ódio.

A perseguição à pipoca ceifou a temporada do Corus Line com uma espécie de maldição. Quem é do teatro sabe que pipoqueiros só alegram a porta de espetáculos em que há sucesso de publico; Cambistas também, mas estes carregam a questão ética de traficarem em favor de poderosos. Ainda que empregasse e pagasse bem muita gente, qualquer peça era indigesta para os bacanas em tempos de Presidente Figueiredo. Mesmo um musical da Broadway. Para rearranjar a frequência, numa atitude social, eu cedia os convites a eles destinados em envelopes com o slogan “um hino de amor ao teatro” a um bom número populares Baixo Augusta.

O perfume doce e a pipoca salgada estrearam triunfantes. Numa daquelas noites, o saguão do Sergio Cardoso fartou-se discretamente de policiais e militares; a esposa do então presidente da república veio assistir ao Corus Line. Fez-se acompanhar por um séquito de outras esposas armadas de Chanel número cinco. Nuvens perfumadas batalharam com bravura, em meio a um desejo geral de degustação de pipocas. Dona Dulce Figueiredo foi até a calçada para apanhar o saquinho delas oferecido por Severino. Nobre, ele recusou habilmente o pagamento da diligência esboçado por um sargento de elite. Combatia pela boa política.

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Contardo Calligaris (foto: Foto: Rodrigo Cancela. CC BY)

Amigo e psiquiatra, Contardo Calligaris incentivava-me para escrever o que hoje chamo de insight (*) – a ele enviei muitos. Não os analisava – amigos, lugares e viagens importantes nos eram comuns; Nunca marcamos qualquer apontamento, exceto um aniversario virtual – o primeiro a que fui – no ano passado. Espelho sincero, a importância de sua presença pode se intuir neste insight:

Era 1980. Queria abandonar-me a uma existência surrealista de teatro. Vício, o cheiro de palco me fazia silenciosamente voar sobre a vida. Sentia opressão em estudar para a universidade; mesmo com alegria, sentia opressão. Dezenove anos. Outono da ditadura militar. Ganhava um dinheirinho trabalhando no teatro, administrando salas de ensaio nas quais queria, no fundo, ensaiar. Lia e relia um Hamlet que jazia na minha cabeça. Lia quando morriam as tardes, enquanto juntava livros até formar uma biblioteca disponível aos frequentadores de ensaios. Não eram artistas quaisquer; eram Cleyde Yaconnis, Emilio Di Biasi, Raul Cortez, Sonia Guedes, Renato Consorte, Sergio Mamberti, Umberto Magnani, Joao José Pompeu, Zé Renato, Ester Goes, Renato Borghi e outra gente intocável. Tinha medo de falar o que pensava. Não sabia nem por onde começar. Angústia. Numa noitinha, amigos de infância passaram ali e me arrastaram para uma casa de massagem na Liberdade. Agarrei uns dois livros. Lá, pedi um gin puro e ofereci o pouco dinheiro que tinha no bolso perguntando a uma das meninas, ofegante: “você gostaria ler isto em voz alta comigo?”

Foi a primeira vez que dirigi uma atriz na vida. Tinha o texto aberto na cena conflituosa de Hamlet com a mãe, Gertrudes. Ela sorriu, tomou o livro nas mãos, não conseguiu ler aquilo, eu muito menos; naquele barzinho de bordel com cheiro de sauna e pinho sol, havia, sim, uma Gertrudes confusa, diante de um grupo de orientais curiosos com o que presenciavam. Rapidamente, mudei o copião. Abri umas páginas de Electra. A menina se parecia – assim quis crer – com Electra. Não sei por que continuava com aquilo. Estava aterrorizado. Um cliente idoso bradou, contrariado, que ali era “lugar decente” e não de “macho que desrespeita mãe ou de fêmea que desrespeita pai”.

Fechei a mão de Electra com o dinheiro. Era teatro, acho; nada de sexo, acho. Uma vida tinha começado a existir para o teatro e para as pessoas. Acho.

Voltei àquele lugar. Muito tempo se passou depois. Décadas, mortes. Não, não tenho vontade de morrer. Toda vez que avisto a morte a rondar, conto-lhe uma estória, disfarçando imensa vontade de sair correndo. Acho que o Contardo iria entender, mas de que adiantaria alguém entender isso?
Dá pra entender, Doutor?

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O tempora o mores. Roma antiga. Os bacanas possuíam casas – domus – apetrechadas com o triclinium, onde comiam frugalmente de manhã, tratando de negócios, e empanturravam-se de noite, consolidando os negócios matinais; estes eram fronteados pelo impluvium, que recolhia a água da chuva. Domus mais chiques mesmo tinham saunas e natatios – piscinas.

As pessoas do povão depilavam-se antes de banharem-se nas termas públicas, onde a nudez era comum. Na primeira Idade Média isso continuou, apesar da menor frequência resultante do desmonte econômico, político e social do Império. Roma não cristianizou-se de um dia para o outro. Uma primitiva cristandade ainda não corrompida pelos bispos tolerava a nudez como ato de pureza. As termas passaram também a organizar refeições. Outras interações sociais começaram a gerar conflitos com as interpretações das escrituras feitas pelos evangelizadores, erigidas aos poderes religiosos e seculares. Mais cientificamente falando: o advento das doenças, fatalmente transmitidas pela água morna, subnutrição e falta de higiene, aumentou exponencialmente o número de mortes. Pior: foi saudado como castigo. Levou mil anos para que acontecesse (séculos IV – XIV). Hoje, essas coisas acontecem em prazo bem menor. Jacuzzis, mansões, Olavões, pastores e presidentes psicopatas iluminam o nosso do tempo.

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Haruki Murakami coloca pessoas – em Kafka na Praia – fugindo da loucura de suas existências em paralelismos vertiginosos que agora todos vivemos: “Quando a tempestade acabar, você provavelmente não saberá como conseguiu atravessá-la e sair dela vivo. Na verdade, você não vai nem mesmo vai ter certeza que ela realmente acabou. Mas num ponto não há dúvida: você, fora daquele vento, não será a mesma pessoa que entrou.”

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(*) Os insights são confissões de divã feitas por Kreuko, personagem escrita para o filme Mundo Invisível (de Wim Wenders, Atom Egoyan e outros), episódio de Beto Brant e Cisco Vasquez, e de Apemanto, personagem de Timão de Atenas, de William Shakespeare, com Élcio Nogueira Seixas e Renato Borghi.

 

 

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