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Holodomor. Grosso Modo

Publicado em: 02/03/2022

Chá e Cadernos 100.79
Mauri Paroni

 

Em meio à infame pletora de mentiras internáuticas, quem for transgressivo na arte haverá de se deparar com análises, dados, raciocínios concretos e abstratos, opiniões, fatos e, principalmente, intuições, que são grossas, quase lugares comuns, o “grosso modo”, como chamo. Chamaria também o grosso modo de alguma coisa óbvia, evidente, que urge ser avaliada criticamente com grande velocidade.

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– Não se faz uma omelete sem quebrar ovos.
– Não se limpa um lugar sem sujar as mãos.
– Aos puros, tudo é puro.
– Aos Impuros, tudo é impuro.

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Que posições na arte tomar quando governar se confunde com causar a morte de pobres e fracos?

Dado o momento em que estamos, lembro chamou-se “Holodomor” uma grande carestia agrícola ocorrida em 1932/33, quando a agricultura produtora de grãos das repúblicas socialistas soviéticas volveram da administração e propriedade privada para a estatal. Sem tocar no aspecto ideológico, mas somente factual: as áreas dessa guerra econômica eram a Ucrânia, o Cáucaso, o Rio Volga, o Cazaquistão e parte dos Urais e da Sibéria.

As informações foram apagadas da historiografia não só pelo regime de Stalin, mas também pelos sucessores até a perestroika e a glasnost, as reformas políticas e econômicas lançadas por Mikhail Gorbachev que puseram fim à União Soviética. Essa fome provavelmente matou muito mais de 4 milhões de pessoas. Um artista, não por acaso um poeta, o ucraniano Ivan Drac, foi quem gritou publicamente esse genocídio durante o destaque mundial do acidente nuclear de Chernobyl. São poucos os estados que reconhecem oficialmente o genocídio.

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Narra-se a atual invasão em curso enquanto modo de defender-se de uma ameaça futura. É uma legítima política de estado; mas um há um imenso conflito de interesses; não pode justificar a morte de fragilizados movida pelos dois lados, ambos liderados de uma classe política contra outra que também quer ser mantida no poder. Narcisistas, Sociopáticos neoliberais, Sociopáticos autocratas de estado, homofóbicos, reacionários, enfim juntos. Trump, família Bozo, Bannon, Maduro, Nixon, para citar alguns similares. Repetição da história, olavismo de sinal invertido. Acostar algo legítimo com algo ilegítimo e promover a justificação do ilegítimo pelo senso comum.

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Clarice Lispector, escritora brasileira natural da Ucrânia
Foto: Acervo Pessoal/Rocco/Divulgação

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Grosso modo, em sala de ensaio, na calçada, na padaria, nos bares, nos jantares, em tudo quanto é lugar, vê-se pessoas de cabeça inclinada em reverência a um objeto de tela. Que aparentemente as liga a outras pessoas. Só que… não liga, faz o contrário: opera por parcas imagens, por realidades fátuas, por ideias consistentes acostadas a idéias fajutas.

Grosso modo: Há que se ver, sim, o que é evidente, o que é intuitivo, e isso o artista o pode fazer com a legitimidade de sua luta, de sua história, de sua existência.

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Um ótimo exemplo disso: Hamlet. Não seria uma tragédia contra o destino, mas tratava-se do humano numa dialética humana: O Príncipe Hamlet chegou a investir pessoalmente contra a Rainha, sua mãe; era um drama eminentemente existencial representado diante do master of the revels, o representante do poder político da Coroa. Ou seja: uma espada no pescoço do autor – muitas vezes usada.

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Outros tempos: para quebrar a tentação de sugerir na teoria e deixar a ação ao léu, com o risco de errar, perambulo no whats app para aumentar a qualidade da informação, exatamente de onde temo esteja a maior fonte de erro. Publico, pois, diretamente, duas intervenções recebidas enquanto pensava este artigo.

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“[16:54, 01/03/2022] Francisco de Araújo(*): sei que ‘holodomor” é um vocábulo que reúne a palavra eslava/russa para fome: голод (gólod) e -mor, que é latino, para morte. Em russo se pronuncia: golodomor; em ucraniano holodomor, com H arrastado como o inglês.”

Corpo em Kharkiv, 1932
Alexander Wienerberger – Arquivo Diocesano de Viena (Diözesanarchiv Wien)/BA Innitzer

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“[18:38, 01/03/2022] Mario Chimanovitch (**):
[encaminhada]

“O PROFÉTICO SHOSTAKOVICH

Em 1962 Shostakovich concluiu sua 13a. Sinfonia que recebeu o nome de Babi-Yar, pois em seu primeiro movimento o poema homônimo de Ievguêni Ievtushenko refere-se à tragédia de Babi-Yar em um profundo lamento e ao mesmo tempo protesto contra o antissemitismo que permeou muitas décadas na União Soviética, tendo o seu ponto culminante na então recém descoberta de que o abandono de Babi-Yar às tropas nazistas foi por deliberação de Stálin, orientado pelo fato de lá ter havido uma expressiva comunidade judaica, que junto a russos e ucranianos foi massacrada em um dos mais sangrentos episódios da II Guerra Mundial.

No segundo movimento da sinfonia é entoado outro poema de Ievtushênko, “Humor”, que casou perfeitamente com a tradição de partes sarcásticas na música de Shostakovich, audível em tantas obras, cuidadosamente enxertadas e muitas vezes com profunda sutileza. Nesta obra e parte, nenhuma sutileza foi utilizada, sendo a música deste movimento quase circense.

Já nos momentos iniciais dedicados ao solista (Baixo ou barítono profundo), ouvimos:

“Tsars, reis, imperadores, soberanos do mundo inteiro, comandaram paradas, mas ao humor, não puderam”.

Seguem-se referências a Esopo, ao humorista árabe Hadj Nasr-ed-Din e tantas outras tentativas de comprar ou exterminar o humor, que mesmo quando subjugado à execução desembaraça-se de seu casaco e dá um “tchauzinho” com a mão. Na tradução e escrita de Lauro Machado Coelho em sua obra “Shostakovich: Vida, Música, Tempo”: “Não adianta jogar o humor em um calabouço, pois nem o diabo consegue manter ali quem é capaz de passar através das grades ou das muralhas, sem se importar com o mau-olhado dos outros”

“E por isso, viva o humor! Ele é um carinha corajoso”, termina o coro, em alto e bom som.

Quem não conhece a obra, é sempre tempo de admirar esse monumento da humanidade. Sugiro as gravações de Marris Jansons (regente de formação russa, a meu ver a melhor desta obra) e Bernard Haitink, também muito sensível no trato com a dramaticidade.

Em um tempo em que só o humor nos permite sobreviver à barbárie bolsonarista que nos assola, a Shostakovich parece ter profetizado o presente momento, onde um humorista ucraniano põe (pelo menos politicamente) um tirano russo de joelhos.

NELSON NISENBAUM” (***)

Šostakovič aos 13 anos num desenho do pintor Boris Kustodiev

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Grosso modo, neste nosso tempo, pela pandemia convivemos peripatéticos na internet, manifestam-se guerras de contornos complexos, mas precisos e reais. Centenas de milhares de mortos, silenciosos, pobres, escravizados, indefesos, asfixiados, sobretudo sem voz. Escolher e manifestar uma posição. Errar em experimentos tem, sim, sentido: com eles, aprende-se a viver sem “estarmos prontos”, temos essa irrepetível oportunidade.

Grosso modo, este nosso tempo urge e exige, agora, aqui, nesta semana, posição existencialmente manifesta.

Grosso modo, nos seja criticado para que possa afirmá-la na arte da transgressão que vira tradição formal e ética.

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(*)Tradutor do Russo
(**) Jornalista, correspondente internacional e escritor.
(***) Médico Clínico Geral