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Gênio, pedagogo, humilde

Publicado em: 09/03/2022

Chá e Cadernos 100.80
Mauri Paroni

 

Foi de abril a julho de 1988; já se foram 36 anos desde que pude trabalhar diretamente com Heiner Müller. Eu o chamava de mestre, mas foi sobretudo um cúmplice, um amigo; hoje ainda mais, pela intensidade e atualidade de suas reflexões; [mais informações daquele encontro, a partir da página 29: https://issuu.com/spescoladeteatro/docs/name134bc4 ]. Com a certeza da arrogância pela qual peço vênia, digo que trilhávamos o mesmo percurso na direção, ainda que em idades, conhecimento e experiências de níveis qualitativos completamente diferentes; também porque o diretor da escola, Renato Palazzi, costumava confidenciar que ele aceitou participar como autor em work in progress da e na nossa formatura escolar por sentir a necessidade da experiência de dirigir. Era certo e natural de que viraria o diretor artístico do Berliner Ensemble, a companhia de Bertolt Brecht e Helen Em 1988, a DDR (Deutsche Demokratische Republik – República Democrática Alemã, a Alemanha socialista) estava perto do fim.

Ele queria aprender. Foi “ensinar” longe de sua cultura, mas por sua cultura. Longe das cartilhas. Da censura. Por isso estava tão perto dos atores, tão perto dos estudantes, tão perto de nós. Ao mesmo tempo, mantinha-se distante e reflexivamente crítico. Nada mais Brechtiano que isso. Impossível melhor estratégia pedagógica. Levava o jeitão dos “osts” (os do Leste, os do lado de lá), coisa ainda notada por quem abre bem os olhos e ouvidos naquelas paragens. No mínimo duas gerações deverão passar para a vida tornar-se “normal” ali.

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Já nas primeiras horas de ensaio, um prussiano Heiner cancelou friamente o diretor convidado, famoso , tipo “pós-moderno anos 80”, mediante uma acintosa manobra cínica que o fez retirar-se do trabalho murmurando imprecações indignadas.

Depois, cancelou-me como assistente e criou uma personagem que falava brasileiro e italiano – costurou textos de radialistas esportivos, improvisos, xingamentos (ao teatro, a Shakespeare e seus atores), a versos de Caliban, o selvagem servo de Próspero. Maquinou uma alegoria ao fim do Ocidente baseada em uma poesia niilista do ex expressionista conservador Gottfried Benn (1886-1956), juntou–a à Tempestade e a alguns importantes monólogos shakespearianos.

Chamou-me ao palco e disse para improvisar o mais escrotíssimo mordomo que conseguisse, para servir (mal) um decrepito Shakespeare, papel dado ao outro estudante de direção. Assim desconstruiu o arranjo montado pela direção artística, e bradou sorridente que tudo seria dirigido pelo autor, como ainda e sempre deveria ser o teatro. Houve certa perplexidade entre os atores, temerosos pelas supostamente exíguas habilidades atorais dos recém neo-ex-assistentes. Temeroso no início, constatei fosse bem mais divertido ser ator, sobretudo num papel importante sob a direção de Heiner. Foi-me ordenado a tomar muito whisky em cena.

A segunda indicação foi que eu deveria ajudar a tomar cuidado com a cenografia; a terceira foi para alertá-lo quando houvesse excesso dela no caminho. Lição aprendida – o álcool, a presença de objetos verdadeiros que viravam simulacros e a luz simplificada criavam um ambiente de alegoria finíssima, uma quase performance, absolutamente uma não-imitação teatral da realidade; era, também, uma narração simples.

Exigiu, dos atores, que criassem tradicionalíssimas prosódias das principais personagens shakespearianas. Associou-as ao teatro e à cultura eurocêntrica, chamou-as de decadentes e moribundas, pôs tais palavras na boca do mordomo bêbado, criou um dificílimo swing entre o italiano-brasileiro do selvagem Caliban-Shakespeare e o brasileiro mal falado e latifundiário, grosseiro, fanático, ignorante e assassino daquele Shakespeare senil e demente. O mordomo terminava por escravizar e prostituir artistas a golpes de ofensas, somas de dinheiro e consumo de álcool. Matava o teatro e a vida enquanto assistia a uma televisão. Por fim, explodia tudo depois de observar, colérico, um maquinista de prosódia dialetal milanesa interpretar um sofisticado lamento do desesperado Rei Lear diante de sua amada Cordélia, morta. Isso dizia muito de sua intuição distópica.

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A maneira com que operava as alegorias, o modo com que criava textos a partir das personalidades do elenco, a sem-cerimônia de sua precisão em desconstruir o palco, a gramática cenográfica e as luzes, a organização do espaço em ambientes, a sua simpatia pessoal, ironia, o seu jeito de ir além do Berliner, foram a maior lição teatral de minha vida: seus conceitos, mas principalmente as experiências deles nascidaa, ainda continuam ensinando; esse foi o seu gênio, bem além de qualquer trabalho teórico (legitimo, registre-se); entendo também porque jamais precisei intelectualizar uma estética tão importante e sofisticada. Bastou-me continuar a trabalhar no palco.

Coloco algumas imagens (fotos minhas e de Maurizio Buscarino) daquele período formativo mágico, um coquetel alegórico e algumas imagens do que foi feito ao mesmo tempo no ensemble, em 1988. No palco de Shakespeare Cocktail – 1988 – estavam Carlotta Mattiello, Cristina Terzoli, Cristina Sanmarchi, Elena Ghiaurov, Eleonora Rossi, Antonio Fabbri, Gaetano D’Amico, Massimliano Speziani, Paola Bigato, Renato Gabrielli, Sergio Romano. O poema concreto era autografo em sua caixa de charutos, como também o bilhete irônico e feliz que me enviou ao palco antes da estreia. Adorava escrever onde quer que fosse.

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A experiência existencial do teatro invade a nossa vida enquanto estivermos nesta existência.
Há poucos dias recebi, de um parente próximo de um dos iluminadores de Mūller (Hilmar Kopper), um programa da recente exposição do Berliner Ensemble sobre o seu trabalho da época – meses depois de quando nos encontramos na escola de Milão. Quer dizer: Heiner experimentou na escola antes de suas direções alemãs.

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Müller era um gênio; portanto, humilde, experimentador, transgressivo e convencional ao mesmo tempo. Realizou a sua primeira direção numa escola, apesar de ter trabalhado uma vida toda ao lado de ninguém menos que Bertolt Brecht.

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Frequentemente convidava-me para jantar num restaurante simples onde serviam fatias de ótima carne crua postas num incandescente prato de porcelana], temperadas com sal, azeite e pimenta-do-reino. Apelidou a iguaria de “Robespierre” (sic) pelo sangue que aflorava das escalopes. Dizia amar aquela refeição “histórica e revolucionária” (sic), enquanto falava das dificuldades das quais se orgulhava, pois todo poeta dramático seria politicamente importante somente se acabasse “censurado ou perseguido”. (sic). Esse convívio marcou o que fiz e faço até hoje. Mestres são para toda a vida, se se tem a ventura de reconhecê-los em nosso íntimo mais profundo.