“Galo Índio”

Publicado em: 23/09/2019

Cena do espetáculo ‘Galo ídio’. Foto: Renato Bolelli Rebouças/Divulgação.

* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro
zzzzlot@gmail.com

 

1- Em 2012, a SP Escola de Teatro ofereceu um curso de Extensão Cultural, cujo título – “Psicanálise e dramaturgia: As experiências pessoais e históricas na raiz das produções no campo das artes” – é bem explicativo.

A investigação se inspirava na indagação: em que medida, na dramaturgia, a obra carrega traços da história pessoal do autor?

2- Mesmo quando o dramaturgo não pretende (e mesmo que não tenha consciência disso), seu produto carrega traços de sua história de vida, numa espécie de “expiação”. Ou não?

(“Expiar a culpa” é expressão do arcabouço religioso… Guardaria essa expiação algum parentesco com o discurso psicanalítico?)

Alguns dos nossos grandes escritores, entretanto, criam como que munidos de luvas cirúrgicas. Nenhum vírus pessoal polui seus produtos. “Escrevo sem deixar vestígios”, diria alguém. Digitais indetectáveis!

Porém, seria possível criar sem que, neste gesto, estivéssemos sendo pressionados por enigmas pessoais que pedem nomeação? Procedendo a reparações, talvez? Estaríamos, no campo das artes, saldando dívidas antigas, que a história de vida nos fez contrair? Mesmo que não deixemos nossa marca contaminar o produto, as motivações que o animaram não estarão ali, alojadas nalgum lugar?

3- “Isso, um dia, será música”, teria dito Stockhousen, em 2001, diante da queda das Torres Gêmeas…

Seriam as obras sublimes derivações de uma catástrofe histórica pessoal e/ou coletiva? Tentativas de dar figurabilidade ao traumático, àquilo que nos trasborda?…

Com Ferreira Gullar, “Uma parte de mim é só vertigem; outra parte, linguagem”.

4- Sete anos se passaram, desde aquela pesquisa do curso de 2012, aqui na Escola.

No último dia 06 de setembro, assisti ao espetáculo “Galo índio”, na Casa de Cultura do Butantã.

Pois! O monólogo de Rodolfo Amorim recupera o desenvolvimento daquela investigação do passado. Senão, vejamos.

Tudo indica que Rodolfo Amorim, depois de longa pesquisa, salda uma dívida pessoal. Ele passa em revista a própria história, conectando fatos, lembranças, afetos, desejos, descobertas… Numa aventura que, desde o início, nos captura. O trabalho de elaboração minuciosa a que o texto foi submetido o depurou, de maneira que o espectador se identifica com o personagem/narrador, mesmo que não tendo trilhado os mesmos percalços do autor.

Assistimos a esse teatro-depoimento, teatro-confessional, como se Rodolfo Amorim deitasse num divã de análise e se desdobrasse em dois -, de modo a ser, ele mesmo, seu próprio analista.

No palco, duas linguagens duplicadas dialogam e fazem atrito – num “choque de línguas”, do qual o monólogo extrai a sua potência.

São, de um lado, as interrogações da criança, “teorias sexuais infantis”, tentando compreender o mundo; e, de outro, as retificações que, posteriormente no tempo, o dicionário adulto promove.

5- A peça transcorre numa notável intimidade que o ator estabelece com o espectador: conta a sua vida cochichando ao pé do ouvido da plateia.

Na realização bem sucedida, vê-se a mão do diretor, Antonio Januzelli (Janô), que está no projeto com Rodolfo Amorim desde 2015.

O largo tempo de investigação parece ter favorecido que os talentos dos dois artistas se alinhassem. Na sintonia direção/atuação, Amorim é desafiado por um trágico quebra-cabeça; e o monta e o completa in loco, na nossa frente, num jogo simples e potente, como um Chef que preparasse a refeição na mesa do cliente.

6- O mérito de todo dramaturgo reside em sua coragem para interrogar. Um texto de qualidade transporta indagações que o parasitam – mas que não se deixam ver. Na ficção, o poder de infectar deriva das perguntas invisíveis contidas na obra. Pestilência! (lembremos que tanto Freud, quanto Artaud nos falam da “peste”).

Recolhendo vestígios de vozes familiares, espalhados no tempo, fazendo-os caber numa equação, Amorim decifra seus enigmas.

“Galo Índio” é habitado: veículo de interrogações ocultas. Campo minado, tecido de pequenas confissões. Nessa experiência, compreende-se, por exemplo, como foi que Amorim tornou-se ator (e dramaturgo). Mas, muito mais que isso, a própria plateia é interrogada.

A cada passo do monólogo, em cada um dos espectadores, as dívidas e pendências, oriundas de tragédias pessoais, são ativadas. Somos levados a indagar em silêncio. Em nosso cenário familiar, quais foram as personagens que nos marcaram, determinando ou contribuindo para que nos tornássemos o que somos hoje?

Esse bom texto, “expia” nossas culpas, por assim dizer. Funciona, então, como uma bíblia, ou como uma reza que, a cada leitura, liberta.

7- “Onde a realidade falha, a fantasia corrige”, afirma Freud.  Na impossibilidade de conhecê-lo, operação maior, Amorim esboça o rosto de um pai.

“Para quem quer se soltar, inventa um cais”, diz a música.

Aí está nossa liberdade possível, nuclear no campo das artes: a de inventar (e acreditar) – quando não se tem outra saída. Esta é a “expiação” (a “cura” analítica).

Evidentemente, embora apaziguadora de inquietações, a trégua é provisória. O nome atenua a dimensão selvagem dos acontecimentos (a linguagem atenua a vertigem!). Mas lança o sujeito adiante. Pronto para novos voos.

8- Observação- Na pesquisa de 2012, mencionada acima, tínhamos o propósito flagrar alguns dos dispositivos presentes nas operações da criatividade – contudo, mantivemos sempre a ideia de que é mais fértil que a ciência de Freud aprenda com o Teatro (do que vice-versa). A Psicanálise é despida da pretensão de chegar a “explicações”. Pois o produto do campo estético é maior do que aquele que o criou!

Para concluir, com Romain Rolland, criar é matar a morte…

9- Felizmente, o monólogo reestreia em outubro, em nova temporada!

 

“Galo Índio” cumpre temporada de 4 a 26 de outubro, na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

Ficha técnica
Atuação e texto: Rodolfo Amorim | Direção: Antônio  Januzelli (Janô) |Direção de Arte: Renato Bolelli Rebouças | Iluminação: Beto de Faria

 




 

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