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Falso Saber

Publicado em: 09/12/2021

Chá e Cadernos 100.71
Mauri Paroni

Entre as palavras que mais ouvi e pensei nestes meses de reclusão pandêmica – sou daqueles que têm apreço à vida e à liberdade; quero dizer, à luta pela liberdade, em coerência à memoria de minha juventude antifascista até hoje, aos sessenta. Em pesadelos, ouvi “fascismo”, “nazismo”, da boca de seus líderes, que detesto escrever os nomes, próprio pela própria luta que tanto prezo.

Fui procurar expressões sobre as duas palavras acima, para terminar o nosso ano tentando recordar criticamente alguns sentidos por elas assumidos em tempos que estão temerariamente nos acercando, aliadas a vírus e mutações – resistir-lhes é dever de quem trabalha com arte, acordado e de orelha alerta, diante de tais vibrações infernais.


As franco-atiradoras soviéticas da Segunda Guerra Mundial revelaram-se uma grande vantagem estratégica militar para o Exército Vermelho. Significam uma terrível realidade narrada aqui.

“Temos uma geração de homens saudáveis – e nós, os Nacional Socialistas, não criaremos nenhum treinamento para mulheres granadeiras [*] ou qualquer corpo [feminino] de franco-atiradores”; Ninguém menos que Adolf Hitler declarou isso, em 1936. Era “do bem”. Hoje, olavistas seguem-no ao dizer que os partidos nazista alemão e o fascista italiano eram “socialistas”. É chulo, mas importante, perceber que s turma “do bem” utiliza a informação “correta”, associada, sob analogismos, a alguma prática ou linguagem autoritária; conclui a falácia com a destruição do sentido originário daquela linguagem. Confunde, através de um maniqueísmo falsamente valorativo e emocional.

Essa é a regra de ouro das fake news, uma pedra miliar que impõe ditaduras – e o real evangelho das igrejas que ameaçam a sociedade através de seus projetos de teocracias contemporâneas. Da linguagem comum à glossolalia. Sempre com o poder ilegítimo e o livrinho “da verdade” na mão direita. Pior que as consequentes espadas e pistolas, consegue eleger muitos chefes de estado.

***
As mulheres na Alemanha nazista foram expostas à lavagem cerebral das doutrinas exasperadamente repetidas do Partido Nazista (NSDAP) e excluídas da vida política pratica; “é necessário deixar para os homens o que lhes pertence”, declarou Joseph Goebbels após as eleições de 1933, protegido pela constituição democrática de Weimar, que eles destruíram naquela mesma semana. “As mulheres não podem ser admitidas como líderes partidárias”; havia várias mulheres membros do partido, mas para reprodução da ideia que tinham do que chamavam de “homem” – qualquer coincidência com a vida política de hoje… As políticas nazistas em relação às mulheres foram um aspecto de seus esforços para destruir a ordem democrática hipócrita da caótica República de Weimar. Do ponto de vista deles, o regime de Weimar, que eles viam como “ coisa de judeu”, era efeminado e tolerante com a homossexualidade. Era a antítese da masculinidade germânica, paradoxalmente garantida pela constituição. Eleito Hitler, confinou-se a mulher ao papel de esposa e mãe, excluída, linguística e pragmaticamente, de qualquer responsabilidade política.

Durante um discurso no Congresso Nacional Socialista da Mulher, Hitler declarou, a respeito dos direitos da mulher: “Na realidade, a concessão dos chamados direitos iguais às mulheres, como exigido pelo marxismo, não confere direitos iguais, mas constitui uma privação de direitos, pois atrai as mulheres para uma esfera na qual elas só podem ser inferiores. Isto coloca as mulheres em situações em que elas não podem fortalecer sua posição em relação aos homens e à sociedade, mas apenas enfraquecê-las.”. Na doutrina nazista relativa às mulheres, havia a noção de maternidade e procriação para aquelas em idade fértil, na chamada BDM, Liga das Meninas Alemãs (Bund Deutscher Mädel), para meninas de 14 a 18 anos, o equivalente feminino da Juventude Hitlerista.


A estúpida crença numa raça “superior”.

A mulher-modelo nazista não tinha uma carreira, mas a responsabilidade de criar seus filhos – para a guerra iminente – e cuidar do lar, na sociedade desejada por Adolf Hitler (Volksgemeinschaft) – racialmente pura e fisicamente robusta. Mas já havia o precedente, nada vem ao acaso, que sempre ocorre quando há o silencio de artistas: tudo foi legitimado pela antiga mentalidade dominante do imperador Imperador Guilherme II: “Criança, Cozinha, Igreja” – KKK – Kinder, Küche, Kirche. Lento movimento que desatou o descontrole do garantismo pequeno burguês que possibilitou a ditadura. Em 1934, outro líder, Hermann Goering, esbravejava dos púlpitos: “Pegue uma panela […], uma vassoura e case-se com um homem”, porque “justo é tudo o que serve ao nosso povo”.

Essa esposa modelar era compatível com a reprodução, o único papel no qual ela poderia prosperar. Magda Goebbels, esposa daquele a quem um alvinho com complexo de vira-lata desejou clonar, declarou: “As alemãs deverão manter-se fora de três profissões: militares, como no resto do mundo, governamentais e judiciárias. Se uma mulher alemã tem que escolher entre o casamento e a carreira, será encorajada a se casar, porque é a melhor coisa para uma mulher”. Ouvimos coisas iguais de dementes, do parlamento à família – quem não tem contato com imbecis do gênero? São olavões, alvinhos, ministros, e assim por diante, até as malcheirosas cloacas do mundo das fake news e redes fanatizadas mundiais.

Não são coincidências. Alvinhos e olavões são um único pensamento raso, também inspirado por Steve Bannon, que reproduz declarações e linguagens concertadas nas redes. Como células metastáticas da mesma atitude que essa gente acusa, em erro crasso, numa invenção lamacenta, de “comunismo”, “globalização”- este, deveria ser destruído numa suposta “guerra cultural”. Nem sabem o que são aqueles termos. Polarizam, ofendem, abaixam a linguagem e destroem, na quase totalidade das vezes, qualquer possibilidade de diálogo. Planejam retornar a um passado áulico – que nunca existiu. Não há nem como comparar com o que se conhece da história. Este é o momento para lutar, se o fizermos com a consciência que essa gente é diferente da que se conhece do passado.

***

Concluo com uma seleção de frases que dizem muito da luta contra o fascismo histórico.

Miguel de Unamuno (1831-1933), filosofo espanhol e reitor da universidade de Salamanca, a mais antiga de Espanha, advertiu que ”O que os fascistas odeiam acima de tudo é a inteligência.” Disse ainda, diante dos fascistas de Francisco Franco, em provocação ao “Viva la muerte” do falangista Jose Milan-Astray – e, por isso, foi perseguido e preso: “Vencereis porque tereis força bruta mais do que suficiente, mas não convencereis”. Para convencer, deveis persuadir, e, para convencer, precisais de algo que vos falta: razão e direito de luta.” – “Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta, pero no convenceréis. Para convencer hay que persuadir, y para persuadir necesitaríais algo que vos falta: razón y derecho en la lucha.”

O escritor, professor e político radical siciliano Leonardo Sciascia (1921-1989) , pessoa de senso de justiça pessimista, que via a realidade nem sempre objetivamente observável, numa mistura inextricável de verdade e falsidade, declarou: “Quando uma aliança é estabelecida entre imbecis e espertos, tome-se cuidado para que o fascismo não esteja às portas.

A proposito de Presidentes: Sandro Pertini, resistente e ex-presidente da República Italiana: “O fascismo não é uma opinião: é um crime.”

Da jornalista, militante e escritora Oriana Fallaci (1929-2006):
Além da opressão e do derramamento de sangue, da vulgaridade e do mau gosto, a principal característica de uma ditadura fascista é a ignorância, o desprezo pela cultura, o analfabetismo.

Do escritor Italo Calvino (1923-1985):

Os fascistas usam a miséria para perpetuar a miséria, e o homem contra o homem.

Do antifascista e político socialista Giacomo Matteotti, assassinado pelos fascistas:

“Mussolini pessoalmente, e com grande energia, criou uma forma de governo apoiada na espada, na violência e na perversão política. O vigor de suas opiniões, o poder de seus desarraigados seguidores, suprimiram a democracia na Itália.”

“Eu fiz meu discurso. Agora cabe a vocês preparar o discurso fúnebre para mim”.
(Declaração dirigida a seus camaradas após acusar Mussolini de manipular as eleições pelos fascistas)

Enviando crianças a uma Guerra perdida.

Fotos da net, de publico domínio.

Demais fontes: escritores citados, Wikipédia e John Malfenti – ex-estudante de Sexologia na Universidade de Padovalun