Extinção Romana

Publicado em: 26/03/2021


Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.35

Roma reinou sobre o mundo ocidental conhecido em seu tempo por conseguir fazer um povo de muitas pessoas diferentes através no processo chamado Romanização. Pessoas. Seres humanos, como eu, você , leitor, e bárbaros um pouco mais calmos que os da aldeia gaulesa de Asterix e Obelix. A maioria silenciosa. Pessoas que não se sentiam parte da entidade chamada Roma, com todas as suas regras e dinâmicas imperialista.

Isso funcionava quando os “romanos”, com o passar dos anos, às vezes séculos, conseguiam assimilar os diversos povos, leis, idiomas, religião, etnias, origens, enfim, civilizações, depois de as dominaram militarmente. [tento lembrar-me de uma aula de Diovanni Brizzi, da Universidade de Bolonha.] Os romanos atacavam militarmente uma civilização, uma área, um território, gentes de culturas desenvolvidas com características diferentes. A dominação posterior ocorria por assimilação. Antes de mais nada, através de um instrumento cujas bases eram a coercitividade e a língua latinas: o Direito.

Os invasores romanos impunham a sua lei harmonizando-a com a lei existente que encontravam. Essa era a própria essência do mundo romano: o Direito. Era uma diferença formidável ante o que havia. Ainda hoje o é – imaginemos na época. Desde o início, num processo histórico de mecanismos sofisticados de assimilação de classes dirigentes, em qualquer lugar do mundo antigo, as elites romanas entravam em contato e cooptavam as classes dominantes locais.

Isso muito interessa a nós, que devemos usar uma língua neolatina num palco, na net ou num filme; mais abrangentemente, o Latim foi fundamental para o desenvolvimento e influência das artes performáticas. No bem e no mal, conforme o lugar que escolhermos na dialética da progressão da cultura. Até no Inglês, hoje dominante.

Do Etrusco ao norte da África, a língua do comércio e do direito era o Latim e suas variantes, que suavizava um tipo de resistência mais incisiva. Cooptava a cultura autóctone intima, pessoal, familiar, comercial, política. Social. Falamos – ainda, no Português – a língua do Direito como a utilizavam os romanos. Era base do tratamento seguinte à guerra de conquista e escravização, a Pax Romana. Começava com a concessão da cidadania assim que fossem instituídas folclórica por terror, no jargão das arquibancadas do futebol de hoje. Não era um modo igual para todos. Naturalmente, um contato com Etruscos (EtruscAs, por precisão a quem realmente mandava naquelas famílias da hoje Toscana: a folclórica “mamma” atual ) era diferente do contato com o mundo hispânico, por exemplo.

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Os romanos promoviam a integração da classe dominante, como foi a clássica transformação do mundo germânico em um mundo romano. Um dos poucos casos onde não funcionou daquele jeito foi no Leste, com os Hebreus. O padrão foi o mesmo utilizado nas guerras hispânicas: Roma se fechou, em quase um século de imperialismo, na conquista deles de forma bastante brutal.

Houve também guerras internas entre generais.

Houve uma notória guerra social, a guerra civil das revoltas dos escravizados de Spartacus. Acabaram massacrados um a um por serem ameaça letal para a base do motor econômico do Império.

Resguardado o poder da classe dos patrícios sobre plebeus e de todos todos sobre escravizados, Roma reabriu-se completamente, não apenas concedendo cidadanias. Criou até cônsules estrangeiros, como Sêneca, o pai, e outros membros gradualmente absorvidos da intelligentsia ibérica. Criaram uma cultura muito parecida com o que hoje chamamos de globalização.

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Nada de igualdades democráticas, mas o Direito foi a chave disso. Havia, da Ásia a todos os outros rincões, ordenações jurídicas diferentes, mas uma só cidadania: a Romana. O cidadão podia ser cidadão de seu país, com sua cultura, com seu idioma, com suas tradições, que ninguém o incomodaria. Havia uma cultura com uma língua só dele, uma religião que ninguém tocava. Era apenas uma espécie de cidadania de um Estado em um nível mais alto onde se havia de respeitar certas regras máximas.

Não se podia praticar um comportamento social e político em contradição com a política de Roma. Certas coisas não se havia que transigir. Por exemplo: Quem não reverenciasse a divinização do imperador ou quem fizesse sacrifícios humanos, era enviado a explicar-se aos leões do circo ou posto na cruz.

O Estado Romano promovia a cooperação mas, historicamente, tendia a controlar suas províncias, a qualquer momento, com “avaliações” da possível resistência dos governantes locais. Eram um mar de tropas militares, irrisórias em comparação com o território que detinham.

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Além do Português, e do Espanhol, houve uma língua neolatina que se formou no Norte da África, da região magrebina até a Tunísia (Cartago). Muitos termos do português vieram dali. As invasões dos vândalos e árabes acabaram dizimando-a. Vestígios dela há nas línguas e formas performáticas populares da Sardenha e Sicília – para não citar os dialetos da Andaluzia, Sul da Espanha. Percebe-se pela música, mas sobretudo pelos extraordinários transes linguísticos e existenciais que ocorrem nas apresentações/rituais dos “mamutones” e “suadores” dos sardos. Camponeses, pastores e populares vestem-se com a pele de bode, sinos pesadíssimos, caminham por quilômetros, cantam, são laçados, vão à exaustão e, creiam-me, impressionam até o temor. Presenciei alguns. Parecem riots que – algo muito forte me diz – estavam no fluxo vital de um antigo ditirambo pré-trágico.

Esses latim vulgar africano, extinto pelos árabes, acabou, naquelas regiões, sendo substituído pelos dialetos dos novos ocupantes espanhóis, catalães e portugueses. Um espeço excelente para a criação de “ancestralidade” contemporânea.

 

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