Estelionato, Aparência, Alegoria II: O diabo no corpo

Publicado em: 19/07/2021

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Mauri Paroni

Uma geografia temporal importante para quem ousa dedicar-se à obra de arte em nossos dias: as presenças do Demônio e do domínio temporal se confundem no teatro. Ajuda a delinear os limites o fato de que a Igreja ocidental condenava qualquer mundanismo ao Inferno. Mas mesmo as suas próprias dramaturgias subverteram essa estória. Na guerra entre narrações, os .eclesiásticos oficiais pareciam secundados por pintores também oficiais. Só pareciam.

Na sociedade industrial, a libertação do medo atávico da noite e de suas bestas foi também da leitura silente e sua proibição na idade média. A Proibição que causou tal dialética de liberdade foi também responsável pelo ressurgimento das narrações noturnas sob tochas. Ocorreu em qualquer cultura oral, ameríndia, negra, médio oriental ou extremo que seja. Ocorreu também no pensamento íntimo e silente de quem as via e ouvia. Esses “também” foram e são os artistas. Perseguidos, ressurgem.

O vilão era o mal e a morte; mas era, ao mesmo tempo, o incentivo a pensar “contra”.

O “corpo” de “Satanás” e mais de centenas de nomes surge em 553 d.C. no Ocidente Cristão, oficializado pelo Conselho Ecumênico. Até então, o Maligno era preferivelmente representado através de cobras, bodes e dragões, símbolos pagãos. Paulo, contemporâneo de Jesus, grego, rico e culto; Cirilo, o santo que arrancou a pele de Hipácia, cientista, mulher e livre; Agostinho, o santo da fé e da bondade intrínseca; todos eles jogaram pra valer contra o paganismo. O poder jovem eclesiastico usou armas físicas: Fogueiras, espadas, cruzadas. Tudo o que era pagāo vivia, abertamente, o “ser um diabo”. Nem se nomeie Exu, que pragmáticos e religiosos associaram ao diabo.

Na Renascença, a māo-de-obra escravizada voltou a correr solta na América para os que não tinham alma – negros e amerindios – e o diabo se tornou-se invisível. Ter fé em obras, roubar o tempo a Deus na cobrança de juros era coisa de judeus. Sodomia, homossexualidade, prazer físico, foi tudo banido e remetido ao Inferno. Santo Tomás de Aquino fez as promessas de salvação da alma pelas novas ordens de pensamento e costumes que se espalharam via colonialismo.

É difícil ter visão do diabo nas pinturas e representações da Renascença. Até que alguém – hoje – a notasse num afresco de Giotto (1267-1337), obra fundamental da pintura ocidental: a Vida de São Francisco, atribuída a Giotto, na Basílica Superior de Assis. A imagem de Satanás foi percebida escondida entre as nuvens no painel que retrata a morte do Santo. Para todos os grandes artistas da Renascença, o diabo se torna invisível, mas sempre presente.

Comparando: chulas condenações são quase a totalidade dos cultos televisivos  impostos madrugada afora. O alvo da moda ali é o Exu associado ao diabo, perseguido na própria ideia de comunicação e liberdade que representa. Opera-se a remoção de imagens como estas:

Orixá Exu tem sua imagem desmistificada como ser do mal e assustador

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O diabo virou gente grande. A ponto de Joseph Ratzinger, o ainda papa emérito, vivo, em recolhimento demissionário no palácio de Castelgandolfo, escrever:

“O diabo (…) sua absência de fisionomia, sua anonimosidade. Quando se pergunta se o diabo é uma pessoa, deve-se responder corretamente que ele é a não-pessoa, a desintegração, a dissolução de ser uma pessoa, e, portanto, sua peculiaridade é o fato de que ele se apresenta sem um rosto, o fato de que sua incognoscibilidade é sua verdadeira e própria força.”

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Sempre admirei a presença da ausência, em obras escritas, dos afetos, dos românticos como o Stendhal da cristalização das paixões; ou da revolta pelo sentimento do banzo, consequente das origens africanas saqueadas aos pretos. Abaixo, encontra-se integralmente copiado um artigo de Wikipedia, por tratar se de uma importante digressão informativa para a compreensão das ideias contidas neste aqui.

[ Banzo

Banzo (do quimbundo “mbanza’, “aldeia”) era como se chamava o sentimento de melancolia em relação à terra natal e de aversão à privação da liberdade praticada contra a população negra no Brasil na época da escravidão. Foi também uma prática comum de resistência aos maus tratos e ao trabalho forçado. Pode-se falar que banzo é um sinônimo de depressão.

O primeiro registro escrito do uso da palavra banzo foi feito pelo trabalho intitulado “Memória a respeito dos escravos e tráfico da escravatura entre a Costa d’África e o Brazil” apresentado pelo advogado Luis Antonio de Oliveira Mendes à Real Academia das Ciências de Lisboa em 1793.

“Das doenças crônicas… uma, e das principais moléstias crônicas, que sofrem os escravos, a qual pelo decurso do tempo os leva à sepultura, vem a ser o banzo. O banzo é um ressentimento entranhado por qualquer princípio, como por exemplo: a saudade dos seus, e da sua pátria; o amor devido a alguém; à ingratidão, e aleivosia, que outro lhe fizera; a cogitação profunda sobre a perda da liberdade; a meditação continuada da aspereza com que os tratam; o mesmo mau trato, que suportam; e tudo aquilo que pode melancolizar. É uma paixão da alma, a que se entregam, que só é extinta com a morte: por isso disse que os pretos africanos eram extremosos, fiéis, resolutos, constantíssimos, e susceptíveis no último extremo do amor e do ódio (…). Este mesmo banzo por vezes observei no Brasil, que matara a muitos escravos; porém sempre por efeitos do ressentimento do rigor, com que os tratavam os seus senhores.[1]”

Dessa maneira banzo é uma palavra usada para categorizar a morte voluntária entre os escravos. “O desgosto pela vida e o desejo de morrer são atribuídos pelos narradores a reações nostálgicas decorrentes da perda da liberdade e dos vínculos com a terra e grupo social de origem, e ainda aos castigos excessivos impostos pelos senhores”.[2]

Segundo o historiador Renato Pinto Venâncio, da Universidade Federal de Ouro Preto, o suicídio entre escravos era duas ou três vezes mais elevado do que entre homens livres e pode-se ser atribuído ao banzo. Apesar disso, o registro de suicídios pode encobrir assassinatos realizados pelos senhores de escravos.

A prática do banzo, além de levar ao suicídio, através da greve de fome, também é relacionada à pratica do aborto, das fugas individuais e coletivas (que podem ser relacionadas à formação de quilombos) e à geofagia (suicídio por ingestão de terra).[3]
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«Better to reign in Hell, than serve in Heaven. »
“Melhor reinar no Inferno do que servir no Paraiso”.
(John Milton, Paraiso Perdido, Livro I)

No barroco, europeu ou mineiro, o diabo se humaniza no anjo caído cantado pelo inglês John Milton (1608-1674) em O Paraíso Perdido. Lúcifer, um ser arrogante que desafia seu criador tirânico para libertar o paraíso, foi derrotado e lançado à terra. William Blake (1757-1827), escreveu que Milton “estava do lado do diabo sem saber”.

William Blake, A Tentação e Queda de Eva, 1808

William Blake não pode passar batido aqui:

«The Imagination is not a State: it is the Human Existence itself»

“A Imaginação não é um Estado: é a própria Existência Humana”.

(Em Milton – A Poem in 2 Books)

Esse extraordinário artista utilizava pintura e  verso ao mesmo tempo.  Místico, inglês com jeitão tropicalista, transcende os limites impostos pelos cinco sentidos:

«If the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite.»

“Se as portas da percepção fossem purificadas, cada coisa apareceria ao homem como ela é, infinita”.

(William Blake, The Marriage of Heaven and Hell – O matrimònio do Paraiso com o Inferno)

Incisāo do proprio Blake para The Marriage of Heaven and Hell (Library of Congress).

Em muitos de seus quadros-poemas, ele expressou um conceito de humanidade universal baseado no respeito à diversidade: “Todos são iguais (através de suas infinitas diferenças)”.

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Para  desgraça da Igreja no Ocidente, na mesma época toma pé o cálculo  infinitesimal, desenvolvido na índia desde já’ na antiguidade. A religião perde  o monopólio da ideia de morte pós existência – domínio do infinito, do tempo, do escorrer do  tempo. Do modo de  desenvolver a fé sem o instrumento da dúvida. Coisa aliás, inexistente no budismo  e no politeísmo limítrofe à  Europa .

A alegoria que evidencia esse  movimento de raciocínio é que o diabo se tornou romântico. Em 1800, a figura torna-se nitidamente humana em Goethe: Fausto, o que fez um pacto com jeito de ser persuasivo para as almas.

Na sensibilidade cultural da nossa realidade pós-industrial, afigura do diabo não mais tem fundamento. Em um mundo emancipado de crenças e superstições, reconhecer o diabo como um ser pessoal é anacrônico. Aparentemente. O medo subsiste na poética do teatro, do cinema do jogo de suspensão da desconfiança. Perversamente, vira arma manipulada pelo fake em locais onde há mistura cultural,  onde subsiste o misticismo urbano; em religiões de resultado, em loucuras coletivas e fundamentalistas, em medos que assassinam milhões.

Esse mesmo misticismo urbano, esse diabo, é visibilíssimo na arte e temática de Nélson Rodrigues, em todas as suas crônicas e na obra teatral, expressionistas na forma, éticas nas relações. Graças a uma arte alegórica.

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Fica a  indagação do que está por vir, do que ressurge com a popularização das tecnologias, do imediatismo da internet, do misticismo da “Era de Aquário”, da trava nas democracias e na ordem econômica.

Tem muito alimento para o diabo. Na esperança de que ele se empanturre de seu veneno e não sobre nada pra ninguém, a função de interrogar-se na a e com a arte via alegoria, talvez, o ato mais importante que um artista pode realizar hoje.

Há quem se ache hábil a reproduzir, mas não consegue, o pintor Andrea Mantegna (1431-1506). Dependendo do modo em que o se faz – demonstra o filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) – a aura da obra de arte se perde na sua reprodutibilidade. Uma das passagens pela qual isso ocorre é a negação da alegoria. Sem esta, a cópia perde a “alma”, ou o poder do raciocínio abstrato que enseja a apreciação crítica da realidade. Um Mantegna copiado assim traz tudo menos humanidade ou santidade, mas uma indecente manifestação de ser Goebbels contrário à “degeneração” da arte. Fake Lúcifer.

É fácil perceber qual droga um mau artista produz. Sua verdade não dura horas, se alegorizada como obra de arte. Vira uma reprodução rasa, um big brother, uma ditadura do não pensamento, uma ilustração desordenada e rumorosa do fluxo vital.

Tem muito alimento para o diabo. Na esperança de que ele se empanturre de seus alimentos venenosos, a função de interrogar-se na a e com a arte é, talvez, o ato mais importante que podemos realizar, hoje.


Mantegna Genialmente citado  por Pier Paolo Pasolini, Mamma Roma, 1962: Ettore no leito de contenção pouco antes de sua morte, na alegoria final do filme.

(*) do citado artigo de wikipedia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Banzo

Referências e outras fontes:
1. ↑ MENDES, Luiz Antonio de Oliveira. Memória a respeito dos escravos e tráfico da escravatura entre a Costa d’África e o Brazil, apresentada à Real Academia de Ciências de Lisboa, 1793. Porto, Publicações Escorpião, 1977. Pag. 61-62
2. ↑ Oda, A. M. G. R. (2007). O banzo e outros males: o páthos dos negros escravos na Memória de Oliveira Mendes. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 10(2), pag. 348
3. ↑ Haag, C. (2010). A saudade que mata. Pesquisa Fapesp, (172), pág. 86.

Joseph Ratzinger, Liquidazione del diavolo?, in Dogma e predicazione, Queriniana, Brescia, 2005 (Biblioteca di teologia contemporanea, 19), 196.
Matrimonio del Cielo e dell’Inferno (1790-93); Maurizio Costantino (a c.), Asterios, Trieste, 2013.