Estelionato, Aparência, Alegoria II

Publicado em: 14/06/2021

Chá e Cadernos 100.47
Mauri Paroni

 

Há muitas formas de pitima por aí: o marketing aparência, alimentado e educado num liberalismo acrítico, gera infinitas delas. Se as procurarmos com sensibilidade – a qual nem precisa ser crítica, pois bastará o mais raso pragmatismo de senso comum, elas serão reconhecidas nos estelionatos do belo.

Immagine che contiene cielo, montagna, erba, esterni

Descrizione generata automaticamente
Essa vila da foto foi verdadeiramente bela, real e existente, antes do marketing promocional que o seu burgomestre ter sido obrigado a promovê-la pelo quotidiano liberal corrente. Uma operação “genial” do prefeito transformou a aparência do vilarejo numa falsa projeção de si mesma. Foi assim: por decreto, ele proibiu qualquer turista de fotografar e postar na rede qualquer imagem do lugar, evitando que a beleza da cidade fosse “apropriada indevidamente” sem expressa autorização municipal – como usualmente se fazia com filmagens cinematográficas. Imediatamente à publicação do decreto, multou alguns dos poucos turistas ocasionais. Feitas as devidas operações legislativas, executivas e judiciárias, tratou de divulgá-las em jornais, blogues e redes sociais. Em questão de horas, o vilarejo ficou conhecido no mundo mainstream dos smartphones. Uma imensa horda de selfie makers para lá singrou a fazer fotos, a roubar beleza, história e identidade locais. Por semanas a fio. [Cito esse exemplo para não cair no estelionato em si que significa qualquer Danoninho.] O truque ajeitou as contas bancarias dos cidadãos, que tentarão eternizar o burgomestre em seu cargo e dissolver a “anacrônica” democracia. Para quem se irrita com essa analogia, sugiro a leitura de qualquer texto radiofônico ou teatral do maior dramaturgo suíço, Friedrich Dürrenmatt (1921-1990).

Mas não vamos demonizar uma sociedade que defende a própria pureza aparente tanto quanto naturistas, sob o sol de uma praia de pecadores, sofrem a condenação ao ato obsceno da nudez purificada pelo consumo da aparência; tanto quanto a tatuagem veste a pele com mesma a pele decorada; ou um jogador de futebol agradece aos céus o gol marcado contra o adversário carente do que ele chama de fé, legitimando-se na exibição uma camiseta proibida por uma federação fajuta. São a burca ocidental.

Refletimo-nos, querendo ou não, em um qualquer papel de parede de hotel medíocre da burguesia de Capivari. Coisa da oligarquia atrasada que tem se servido da internet para o domínio de sua linguagem existencial agressiva e chula. Refletimo-nos em uma solaridade inexistente. Por exemplo, na escuridão – existente – das baladas. Felizmente, em tempos de auto escravização bancária, artistas dignos do nome têm bons motivos para criar e construir uma nova linguagem crítica de e para uma velha estória.

As fotos abaixo, caseiras, são um ensaio do que quero dizer.

Olha aí a pitima na indefinição dos reflexos: não vemos o estelionato do tempo. O sorriso [insta]gramatico, que sonhou ser viral na sedução, desapareceu no efeito cênico da balada. Irá reaparecer pouco iluminado na ausência assassina de máscaras respiratórias. Ausência letalmente viral.

Como deitar luz a tal tragédia? Por exercício, associo tudo a um breve trecho dos “Quattro dialoghi in materia di rappresentazioni sceniche” (*) – de 1568! -, sobre o que sempre imaginei ver – ou não ver – no mundo das baladas, de como se [in]comunica sons e imagens. Pelo volume e pela linguagem musical, tudo ali me parece um tuntch-tuntch dissociado de qualquer ritmização humana; nada se ouve, nada se vê: são sombras luminosas cegantes, são fantasmas. São personalidades operadas por um piloto automático inexpressivo, replicador, incentivador da punção da morte e da dissociação vital. Finalmente, a tudo arrebatar, junta-se a droga química. A inexpressividade se completa com um pavio ou uma arma de fogo a disparar a desgraça. Como o estrangeiro Mersault sob o Sol, criado pelo franco-argelino Albert Camus (1913-1960).

Nem precisamos chegar a esse ponto, nem este é o propósito deste texto. As fotos simuladas acima exemplificam o oposto do impressionante diário técnico de iluminação citado no artigo anterior. O trecho que segue tem a tradução de J. Guinsburg. Apenas mudei uma palavra: “recitazione”, que, em italiano corrente, quer dizer “atuação“.

[VERIDICO – Depressa, Marcletto, tu (…), pegai uma daquelas escadas e começai a acender as luzes. Sentemo-nos aqui, senhores.

SANTINO – Eu gostaria de ficar um pouco mais longe, para ver melhor que belo efeito produz aquela perspectiva.

VERIDICO – Está bem, irei logo até la. Ei, depressa! Oh lá, iluminai todas essas bocas!

MASSIMIANO – Na verdade, esta arte da pintura tem grande força, quando é bem realizada; porque, aqui onde estou, ela me engana tanto que, embora eu saiba que aquilo não passa de uma tela plana, me parece uma rua que corre por meia milha.

VERIDICO – Essa mesma força terá o comediante perfeito que, embora saibamos que atua uma ficção, se for diligente a atuá-la, nos dará a impressão de se tratar de um acontecimento dos mais verazes.

MASSIMANO – Assim é, na verdade.] (*)

***

Assim é… na verdade da ficção. Seria esta uma ficção sem verdade, uma elucubração descolada da realidade se não tivesse base nos refletores a fogo onde seus criadores verdadeiramente experimentaram. Cheguei a trabalhar naquele mesmo lugar onde, séculos atrás, trabalhou Leone de’ Sommi: foi em 1993, dentro do Palácio Ducal, numa montagem do Ubu Cornudo, de Alfred Jarry. Tudo o que afirmei acima tem, portanto, bases empíricas concretas: vi fisicamente aqueles refletores; não foi um estudo abstrato – ainda que este seja sempre fundamental; ai do teatro ou da arte depauperada intelectualmente; aqui, por intelectualmente, não se leia literário. Porque o núcleo de qualquer teatro é a oralidade. Mas isso estará mais adequado a um próximo artigo.

Patio interno do Palazzo Ducale, Mantua, palco de Ubu Cornuto, de Renato Gabrielli/Alfred Jarry, cenografia e luz de Gabriele Amadori e Gigi Mattiazzi. Direção de Mauri Paroni.

Complexo museológico do Palácio Ducal de Mântua. Fonte: Poli de Milão

(*) Início da página 109 do IV diálogo

Quatro Diálogos em Matéria de Representação Teatral

Leone de’ Sommi -judeu no Teatro da Renascença Italiano

Organização, tradução e notas de J. Guinsburg