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Epitáfios e Escritos Alterosos

Publicado em: 08/06/2022

Chá e cadernos. 100.93
Mauri Paroni

Cabeças heterogêneas, de gerações diferentes, de formações diferentes de muitos cantos do País – e não só. Horas e horas de diálogos, sugestões, exercícios, exposições de ideias, críticas, trabalhos, descobertas, inquietações, angústias criativas, alegria. Repensamento sobre como e para onde dirigir a criatividade. Enfrentamento do inevitável “bloqueio criativo”. Horas de arte. Grupos e indivíduos elaboram, criam, estabelecem dinâmicas, modificam, projetam, lembram e sonham. O tempo insuficiente, tenta-se a pontualidade do término, entusiasmado e cansado. Certamente se sai diferente de como se entra numa experiencia dessa.

Abaixo, alguns trechos de criações individuais diante e em resposta dialógica ao trabalho coletivo. Uma ponta de iceberg do trabalho que continua dentro de cada participante. Na matéria, acenos à forma de epitáfio, um artifício pedagógico sugerido na condução do curso de extensão cultural “Construtividade Narrativa: Uma Abordagem Prática”; a redação da palavra foi funcional e livre, necessariamente em primeira pessoa. Além disso, houve quem trabalhasse com outros suportes que não a palavra escrita, exposta, assinada. Música, desenho, planos de vida artística. Existências. Gente de povo originário que não pode ascender a antepassados e manifesta o respeitoso silencio possível do resumo de biografias finitas e inscritas na pedra.

Tomo a liberdade de agrupar todos os nomes dos epitáfios abaixo que acompanham o único texto assinado por um dos maiores, senão o maior ator italiano, Antonio de curtis, o Totö. dos filmes populares a Pasolini. Em seu dialeto napolitano, aqui apresento a versão reduzida em prosa:

Fio de prumo
De Curtis -Totò

Todos os anos, no dia 2 de novembro, há o costume nos finados de ir ao o cemitério.
É um ato de fé.

Todos os anos, pontualmente, neste dia
nesta triste ocasião, Eu também vou lá, e com flores eu enfeito
o lóculo de mármore do tio Vicenzo.

Este ano, aconteceu comigo, depois de realizar a triste homenagem.
Madonna! penso nisso, e que medo!(…)

O fato é o seguinte, escute-me:
O tempo de fechamento estava se aproximando e eu saia, lançando uma olhada em uma ou outra lapide – “Aqui dorme em paz o nobre Marquês senhor de Rovigo e Belluno herói de mil façanhas falecido em 11 de maio de 31” – havia um brasão sob uma cruz de lâmpadas; havia três maços de rosas e uma coroa de luto: (…) A tumba estava muito bem arranjada. Do lado, numa sepultura minúscula, abandonada, sem sequer uma flor ou cruz, lia se “Esposito Gennaro – coletor de lixo” – um defunto sem lâmpada! Assim é a vida! … quem teve tanto e quem não teve nada! Esse pobre homem continua mendigo no outro mundo.

Enquanto eu fantasiava com tal pensamento, veio a noite e acabei preso ali, morrendo de medo.(…) – de repente, o que eu notei pela frente? Duas sombras se aproximam do meu lado… Acredite, foi estranho… Estou atordoado, dormindo, ou é fantasia? fantasia nada era o Marquês, de cartola, bastão e casaca; e o outro, fedorento e com a mão escondida, certamente é Gennaro, o coletor de lixo; mas estão mortos ou dormem?

Poderia ter sido mais ou menos uma sugestão quando o Marquês se levantou e silenciosamente disse ao cadáver de Don Gennaro:

– Jovem! gostaria de saber, vil carniça, como ousou, para minha vergonha, inumar-se do lado de um brasonado! casta é casta e deve ser respeitada, mas você perdeu o sentido e a medida; um cadáver desses deve, sim, se enterrado; mas no lixo! não posso suportar tal proximidade malcheirosa, procure uma vala entre seus pares, entre seu povinho”.

– Sr. Marquês, a culpa não é minha, senão de minha esposa, o que eu poderia fazer se eu já estava morto? Se estivesse vivo, eu o faria feliz, eu pegaria esta minha caixinha destes quatro ossos agora mesmo, e obedientemente me mudaria para outra sepultura.

– E o que espera antes que a minha ira alcance seu excesso? Se eu não fosse um homem de título, já teria dado lugar à violência! olha que se perder minha paz de espírito, esqueço que estou morto e tomo as devidas atitudes!

– Mas o senhor pensa que é Deus? não vê que somos iguais?… está morto como eu; um é como o outro.

– Seu porco imundo!…Como se atreve a se comparar a mim, nascido ilustre, nobre, perfeito, invejado por príncipes!
– Poe em seu cérebro… Está louco na sua fantasia… a morte, sabe o que é?… é um nível, um fio de prumo. Um rei, um grande homem, um cão que perdeu tudo… a vida e o nome: não percebe? Escute, aceite me aqui, o que lhe importa? Esses enganos servem apenas aos vivos: Estou falando sério… nós agora pertencemos à morte!

***

Aqui jaz quem foi o que já não é, logo, a partir de hoje, você também não será mais.

Veio ao mundo para perturbar. Não queria sair, mas, já que saí, quero que você morra. Até breve.

Durma hoje – e toda vez que se lembrar de minha tumba – com os pés bem cobertos.

***

Este epitáfio não foi escrito em língua originaria, mas ali está a presença da ausência de milhões, cuja excelência e síntese da redação fala por si:

Se tudo que lhe foi possível ser,
de tudo que lhe definiram, este é seu melhor estado.

***

Aqui jaz Arfeniel, um químico que largou sua carreira pra estudar artes, quase se formou como ator, quase virou dublador, quase se casou, quase virou dramaturgo, quase viveu a vida que tanto sonhou, de suas obras deixa uma garota de coração partido e uma gatinha, nunca verá os filmes de seu irmão,
mas sempre terá bom humor, até o final acreditava que Life is a laugth and death is the joke, it is true, sua vida toda se resume nessa frase de Monthy Python, uma comédia de fracassos e quase acertos.

***

viveu à procura da lágrima que a encontrou duas vezes pelo mesmo olhar
dormiu todas as noites com os pés no futuro, sem saber que o futuro de qualquer vida é a morte viveu inventando vidas
soltando histórias alhures
sussurrando a outrem
enganando a si mesma

***

Não entendi nada
Foi curiosa na vida
Menos gente, menos
O bem, o mal
Ou não
Tudo muito estranho
Desculpem-me pelo silêncio (inspirado em Dorothy Parker)

***

Tibério Máximo. Entre 10 dezembro de 1965 e 11 dezembro de 2022 habitou esse mundo, levando uma vidinha absolutamente sem graça. Conhecido por sua impaciência, ansiedade, pessimismo, preguiça, irritabilidade, ressentimento, agressividade, gulodice, sonolência, fingimento e egoísmo, não foi necessariamente uma pessoa má, mas esteve longe de ser digno de admiração. Misantropo, não criou vínculos duradouros, nem deixou descendentes. Pouco contribuiu com a sociedade, nada de bom fez pela humanidade. Foi-se num dia chuvoso. Dele ninguém sentiu falta.
***
“Pelos prados e campinas verdejantes, eu vou
É o Senhor que me leva a descansar.”
Aqui jaz Angelina Nunes Duque da Silva, provocadora, atriz, roteirista e dramaturga de São Paulo, Capital. Teve duas filhas, três netos e 5 bisnetos. Foi católica por obrigação, mas gostava mesmo é do batuque do terreiro. Foi defensora da vacinação e adotou a campanha “Ele não”, nas eleições presidenciais de 2018. Aceitou a morte como um abraço há muito aguardado, e agora caminha por prados e campinas verdejantes.
***
Adoraria ser lembrada. Não importa como. De preferência, somente as coisas boas! Quero ser reconhecida pelo meu trabalho e como a mulher que fui: que cometeu falhas, enganos. Mas não teve vergonha ou receio de pedir desculpas…de voltar atrás e se contradizer. De consertar ou reverter os meus enganos. De se reconstruir e desconstruir tanto na arte, como na vida. Quero acima de tudo, ser lembrada como uma provocadora, acolhedora de tudo e todes. Desejo que meus textos e minha arte como um todo, seja adubo e alimento para os próximos artistas provocadores.

***

Não há nome. Datas. Um registro sequer. Quem jaz próximo a mim? Que segredos carrega, culpas, dilemas, contradições? Por que não quis se revelar? Essas perguntas me atormentam desde que aqui me eternizaram. Achava que fosse eu o misantropo, mas, ironia do destino, ao lado há um vizinho, vizinha ou vizinhe que nunca se apresentou, nem vai se apresentar. Diante de nós passam milhares, todos os anos de nossa morte, muitos me leem, têm asco de mim, ou pena, mas nada podem sentir pelo ocupante da tumba silenciosa.
***

Engasgou-se com os versos,
e deleitou-se com o veneno brutal
da poesia,
súbita,
foi como um efeito de luz,
findável, fugaz
a existência da finitude efêmera
agora em fragmentos,
dentro da eternidade
que morou dentro dela
***

– Aqui jaz um homem, ou o que restou dele. Não era melhor do que ninguém como tantas vezes pensou, cálice de Porto à mão, em sua varanda gourmet. Homem que viveu em profunda aridez, o ar deixou de penetrar seus pulmões num dia de chuva.
– Nesse campo santo, descansam os ossos de um patife. Nessa terra de mortos, não sou exceção.
-Tentaram me ressuscitar depois de uma parada cardíaca. Senti um choque e um sopapo, um som seco como o de um murro no estômago. Morri logo a seguir, de hemorragia interna.
– Morri bem escanhoado, passando o aparelho de barbear no rosto. Nunca deixei a barba por fazer. Disso me orgulho na vida. E só disso.
– No meu enterro, abraçaram meu caixão fechado. Eu já não estava ali. Também não estou aqui. Estou em algum lugar vagando nas lembranças de alguém, sou sinapses nas mentes de quem me conheceu.
– Se o céu estiver nublado, amanhã o sol pode brilhar. Se tudo for claridade, nuvens arregadas por certo trarão dias sombrios. São certezas da vida, assim como a minha ausência desse mundo antes das seis da tarde de 19 de abril de 1965 e depois de cinco e quinze da manhã de 3 de maio de 2020. Um dia eu não existi, agora não existo mais. O que houve no breve intervalo de minha vida foi uma mal narrada comédia de erros.
– Se você me conheceu, estou aí, em algum lugar da sua consciência. Se não me conheceu, posso lhe dizer que, ao me olhar no espelho, eu tinha medo de mim, de tão feio. Posso me candidatar a ser uma assombração no seu próximo pesadelo, se assim você quiser. Imagine aí um homem baixinho, gordinho, de olhos esbugalhados e sorriso de poucos dentes, cujos dias se resumiam a comer, se masturbar, assistir televisão e dormir. Eu era assim. Foram 56 tediosos anos, agora tenho direito a um descanso. Tenha um bom dia, um bom resto de vida e uma boa morte.
– Homem de pouca sorte, sobrevivi à covid depois de vinte e três dias internado, morri ao voltar para casa, atingido com um pedaço de azulejo que se despregou de um prédio em manutenção. Agora, o azar já não me persegue.
– Olhe ao redor, o meu desaparecimento do mundo não significa absolutamente nada. Tudo continua a mesma bosta.
– Quando a gente se depara com a possibilidade do fim, não há como não pensar para onde vamos depois da morte. Porém, não há muito o que pensar. Este é o lugar. Aqui não há nada de especial: cimento, tijolo, areia, ossos, vermes, bactérias. É tudo o que há depois da morte.
– Disseram que eu ia me recuperar. Povo mentiroso.
– Espero que reguem minhas plantas. Elas não têm culpa do que me aconteceu. Merecem viver. Diferente de mim.
– Não fui a Paris, não conheci o Louvre, morri sem ver a Monalisa. E sem ver sentido algum na vida.
– Aqui se encontram os restos mortais de um certo José. Morreu podre de rico, e suas vísceras putrefatas federam tanto quanto as dos Josés sem um vintém.
– Adorava um churrasquinho, uma cachacinha, um cigarrinho e um carrinho cheirando a novo. Morreu depois de comer 1 quilo de picanha, tomar 1 litro de cachaça e derramar um copo no assento da Hilux nova ao acender o último cigarro.
– Estou tranquilo, não vou mais chorar, a morte me fez imune à angústia, às dores e às lágrimas.
– Fui uma criança obediente. Deveria ter desobedecido à minha mãe, quando criança, e pulado da ponte. Teria evitado todo esse infortúnio.
– Dizem que eu era mentiroso, por certo chegaram aos seus ouvidos mentiras a meu respeito. Não é verdade que eu saía de casa à meia-noite e me embrenhava na mata para me encontrar com um homem de chifre e cascos de bode.
– Só de uma coisa me arrependo: não ter dado aquela trepada.
– Estávamos a uns cinco quilômetros da margem quando desliguei o motor e disse que ali era um bom local para mergulhar.
– O percurso até meu destino foi por uma vereda na mata fechada, e os últimos quilômetros foram morro acima. Foi um presente caminhar sob a copa das árvores, protegido do sol escaldante e ter o ataque cardíaco olhando a paisagem lá de cima.
-Fui feliz na infância, correndo, pescando, caçando, subindo em árvores atrás de frutas maduras, inventando mil e uma traquinagens. Levei a vida adulta também na brincadeira, bebendo, trepando, cheirando, me jogando em qualquer aventura. Morri me divertindo. Adorei!

***
A Sra. Ben Queen
“Gastei minha vida em notas jogadas fora, agora quero que qualquer que passe por aqui toque uma música que só poderá ser tocada dentro deste local. Não tente burlar, posso voltar sem querer, deixei uma guitarra para a missão.”
Por favor, não leve a Guitarra Fender Classic 1972 para casa sujeito à multa.
NESSE JAZIGO MORA O JAZZ!

***
Devia ter amado
Devia ter comido
Devia ter sofrido
***

Gentis contrbuiçoes de anônimos, Angelina Nunes, Arara Xestal, Artheeniel,Cristina Camarg, Cupertino Freitas, Luthy, Mauricio Ribeiro, Melissa, oMabz.