Entrevistas a Giorgio Strehler e a Ferruccio Soleri

Publicado em: 21/05/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos, 100.43

No ano de 1986, uma luta surda se desenrolava na educação teatral da cidade de Milão. Cidade industrial convertida em serviço, de forte tradição operaria, rica, hegemônica no teatro lírico. Fundou o primeiro teatro estável italiano, o Piccolo Teatro di Milano. Um teatro estável italiano não tende a ser uma companhia “de repertório” longe da realidade política de uma cidade. No Piccolo da época de sua fundação, a idéia de Paolo Grassi (1919-1981) era prover um serviço cultural ao cidadão. Isso incluía, além dos espetáculos de arte, a escola, a pedagogia e os instrumentos produtivos e artesanais para tanto.

Sempre houve escolas importantes – pagas – na cidade. Duas eram publicas, grátis. A primeira teve como primeiro diretor Ruggero Jacobbi (1920-1981), recém retornado do Brasil (do TBC). A outra era a ligada diretamente à poética de Strehler: dicção, voz, interpretação, dança, mímica, esgrima. Eram as chamadas “disciplinas” que um ator deveria dominar perfeitamente para fazer parte do ideal do que deveria ser um artista: racional /brechtiano (o seu diretor, o triestino Giorgio Strehler (1921-1997) era uma espécie de embaixador da companhia de Brecht, o Berliner Ensemble, para a Itália). O outro lado era a escola hoje chamada Paolo Grassi, também fundada por Strehler. Mesmo ligada àquele teatro e a seu fundador, era independente do Piccolo, e tendia ao que chamavam de “menos racional”; mais ligada à pesquisa, ao simbolismo, ao “irracional”, à ideia de Peter Brook/ Grotowski – diferente do que se pensa como “Grotowski” no Brasil. Era sujeita a erros intensos, mas criava espetáculos extraordinários.

Mesmo respeitando-se, havia muita rivalidade e diferença estética. Havia muita politicagem também. A nascente União Europeia carregava Strehler no colo, numa devoção que o inundava com muito dinheiro. A outra escola era muito discriminada pelas subvenções, ainda que as houvesse. Para não fenecer, seu novo diretor, o crítico do Corriere della Sera, Renato Palazzi, chamou os mais importantes artistas da época para ensinar – e fazer barulho. Eu era estudante de direção dessa escola. Portanto, um sujeito de quem desconfiar. A entrevista com Strehler foi difícil de se conseguir. O convívio com Strehler era quase impossível para qualquer um; ainda mais para um estudante. Sempre comentamos isso com Gianni Ratto (1916 – 2005), o primeiro cenógrafo (do Arlequim) do Piccolo. Foi com muita insistência que um Strehler quase inatingível concedeu-me uma entrevista escrita; já Ferruccio Soleri (1929 – ) (vídeo aqui) foi muito acessível e recebeu-me em seu apartamento.


Gianni Ratto. Marcello Moretti: o primeiro Arlecchino de Strehler. 

 

Eram Dois artistas infinitos. Strehler, o gênio de luz e gramatica teatral. Soleri dava um triplo mortal invertido aos 58 anos de idade. Fazia o papel no lugar de Marcello Moretti (1910-1961), protagonista da primeira versão no imediato pós II Guerra. Interpretou o papel-título por mais cinquenta anos.

Abaixo estão as duas entrevistas, gentilmente cedidas pela Folha. Quando vi a edição em 1986, fiquei surpreso que puseram uma enorme foto de Soleri como sendo Strehler. Coisa do passado nas edições em papel, a foto foi, provavelmente, uma das razões dos cortes no tamanho das entrevistas. Eram bem maiores. Mesmo assim foi edição foi generosa, dado o espaço exíguo em que fiz perguntas talvez muito especificas, menos palatáveis para o momento em que o jornal passava na época. Bati e rebati na tecla da sobrevivência do teatro. Era um período de refluxo, embora menos severo que o atual. Acredito que tenha informado o público de maneira menos didática, mas que conserva a atualidade singular dos entrevistados. Como jovem (na época) artista, sentia isso no ar. Hoje, é o tema dos temas.

Ferruccio Soleri. 55 anos de Arlequim. Foto: Il Post di Milano

 

ILUSTRADA – FOLHA DE S.PAULO 3 de julho do 1989
GIORGIO STREHLER ACHA QUE TEATRO NĀO DEVE PROCRAR CONCORRÊNCIA COM A TV

MAURICIO PARONI DE CASTRO
Especial para a Folha, de Milão

(ARLECCHINO SERVITORE DI DUE PADRONI) Arlequim, Servidor de Dois Amos, Peça de Carlo Goldoni, na montagem do Piccolo Teatro de Milão. Direção: Giorgio Strehler. Com Ferruccio Soleri (Arlequim), Ettore Conti, Giancarlo Dettori. No Teatro Municipal de São Paulo (Praça. Ramos de Azevedo, s/n, telefone 2228690, zona central) (…) [preços]

O mais importante teatro estável italiano, Piccolo Teatro di Milano, estará em São Paulo a partir de domingo para apresentar “Arlequim Servidor de Dois Amos”, comedia escrita em 1745 pelo veneziano Carlo Goldoni. Fundado pelo diretor Giorgio Strehler, 68, e pelo organizador teatral Paolo Grassi (1919-1981), o Piccolo Teatro é responsável por uma revolução tão profunda no teatro italiano que ressoou em toda a Europa e chegou ao Brasil, onde serviu de modelo para o Teatro Brasileiro de Comedia. Em entrevista exclusiva à Folha, Giorgio Strehler falou a respeito da responsabilidade da política sobre o teatro de arte e sua sobrevivência.

Folha – Você criou o “Piccolo Teatro” de Milão. Diferentemente de tantos outros teatros estáveis que se seguiram, o “Piccolo” possui uma ideologia que transparece em todos os seus espetáculos. Qual é essa ideia?

Strehler – Quando fundamos o Piccolo Teatro, Paolo Grassi e eu, queríamos lançar as bases de um teatro solidamente ligado à realidade local e nacional, um teatro de arte. capaz de crescer junto com a realidade da vida italiana, numa relação dialética propositiva. Um teatro público no mais amplo sentido dessa palavra, desejado e sustentado pela cidade, e nesta inserido como parte integrante de uma gama de serviços prestados aos cidadãos. Ora, quatro decênios depois, os meus princípios permaneceram imutáveis no espírito, no impulso, mesmo se a necessidade de dever continuamente reafirmá-los junto ao poder político algumas vezes pôs a dura prova a nossa confiança nas pessoas que são chamadas a garantir a possibilidade de um real, eficaz trabalho teatral.

Folha – Atualmente, a maioria dos jovens pensa sob Influência da tecno-comunicaçāo. Que influências você acha que isso tenha sobre o teatro de arte? Como fazê-lo sobreviver?

Strehler – O teatro de arte deve entender que a sua sobrevivência está ligada ao palco, à profissão do ator e dos homens de teatro em geral, que é uma profissão artesanal, apesar de todas as inovações tecnológicas de que agora se serve. Não é procurando uma concorrência boba com a televisão, ou macaqueando-a ainda por cima, que o teatro de arte salvará a própria essência e a própria vitalidade.

Folha – Como você acha que será o teatro daqui a cem anos?

Strehler – O teatro é um produto da vida cultural de uma sociedade. Dependerá da natureza, dos interesses e das aspirações dos homens e das mulheres que viverão daqui a cem anos. Eu penso que existirá.

Folha – O que você acha das vanguardas teatrais?

Strehler – Todo homem de teatro digno desse nome procura sempre ir adiante, superar a si
mesmo, ser a pr6pria vanguarda. Porém, parece que abusaram muito desse termo nos últimos anos. usaram-no como uma etiqueta empregada despropositadamente para experimentos duvidosos do poito de vista cultural e artístico. Certamente existem aqueles que, com o seu trabalho e com as suas pesquisas, abrem novas estradas.

Folha – Qual o segredo da longevidade deste seu “Arlequim”?

Strehler – Seria oportuno perguntá-lo aos espectadores que no mundo todo continuam a divertir-se e a pedir-nos “Arlequim Servidor de Dois Amos”. Goldoni escreveu essa comédia com mão feliz, e nela a comicidade é simples, pura. Certamente é um espetáculo de grandes atores. Principalmente Ferruccio Soleri. E, “nascido” em 1947, pertence à história do Piccolo e à minha história pessoal como nenhum outro espetáculo. O nosso Arlequim é ao mesmo tempo ficção e realidade. A ficção é a história do servidor de dois patrões, com todo o passado e a tradição da comédia à italiana, de máscaras. E a realidade é aquela de uma companhia de atores que atuam uma comedia d Goldoni há mais de 40 anos. Tudo acontece à vista, criando diversos níveis de narração. A história de Arlequim, a história pessoal dos homens e das mulheres que a interpretam é a história de uma companhia de teatro. E tudo é dito na língua do teatro mais simples c mais universal, que, portanto, consegue chegar aos homens a às mulheres de todas as latitudes e de todas as idades.

Folha – Que ideia faz do Brasil?

Strehler – Não é a primeira vez que Arlequim se apresenta ao público brasileiro. Na última vez. em 1954, o recebimento que nos reservaram as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro foi caloroso, sinceramente participante. O público brasileiro é sensível a um teatro de tradição como Arlequim”‘ que afunda suas raízes no passado mais genuinamente popular, na vontade de viver, de amar, de estar juntos. Logo saberemos se também neste ano conseguiremos divertir o público de São Paulo.

 

DIRETOR DESENVOLVEU UMA POÉTICA FUNCIONAL
Especial para a Folha, de Milão

A proficuidade das direções de Giorgio Strehler é comparável a um vulcão: jorrou uma infinidade de personagens heterogêneos. A consequente avalanche de relações entre esses personagens derramou no palco todos os seus aspectos sociais, privados, históricos. Strehler desenvolveu obsessivamente uma poética de extrema funcionalidade formal para não ser soterrado por tudo isso. “Arlequim Servidor de Dois Amos” e uma das primeiras erupções desse vulcão. Suas explosões iluminam todos os aspectos humanos existentes num texto bloqueado pela sedimentação de dois séculos de uma fortuna crítica repleta de estereótipos.
Com um agravante: o texto de Goldoni “embalsamou” definitivamente a “Commedia Dell’Arte”, de onde provém todos os seus personagens.

A direção de Strehler opera as máscaras com um bisturi preciso de cirurgia plástica. Extirpa os clichês de Arlequim e dá limpidez à sua ingenuidade e malicia. Transforma essa duplicidade numa estratégia natural do servo para resistir ao fardo que e servir não um, mas dois patrões os patrões, por sua vez, agem com uma linearidade matemática. Numa atualidade marcada pela necessidade de duplicar-se em face do bombardeio de exigências, o público continua se reconhecendo, mesmo passados 4l anos de espetáculo. (MPC)

PARA SOLERI, PERSONAGEM É REVANCHE
Especial para a Folha, de Milão

Ferruccio Soleri, 58, que interpretará Arlequim em São Pau!o, é um ator que enfrentou (e venceu) todas as dificuldades que um homem do teatro pode enfrentar. Mas sobretudo mantém uma agilidade incomum em atores de sua idade, fruto de sua inteligência cênica e de sua grande vontade de defender uma tradição com modernidade, sobre o que falou à Folha.

Folha – Você faz parte de uma geração que velo imediatamente depois daquela dos fundadores dos teatros estáveis do pós Guerra. Bon parte deles foi para o Brasil.

Soleri – A Italia vivia as grandes dificuldades da reconstrução . Ouvia-se muito falar do Brasil. Na Itália, as oportunidades eram poucas. Vivíamos de teatro de Boulevard. Poucas companhias estavam nascendo, e eram muitos os jovens que queriam engajar-se nelas.

Folha – O teatro de arte sobreviveu e cresceu muito. Mas multa gente diz que o teatro está morrendo. O que você pensa?

Soleri – Em parte, isso é fruto de uma deseducação. Por exemplo, não existe mais o teleteatro; E isso é muito ruim. Mas não creio que o teatro morra, e nem o cinema. O homem é um ser social, existe a necessidade de teatro. Veja os concertos de rock. Eles estão cheios de jovens.

Folha – Mas são concertos de rock.

Soleri – Os jovens têm hoje acesso a informações que nós nem sonhamos quando tínhamos a mesma idade. Hoje, o nível do alcance de informações de um garoto é o de um adulto daquela época. Não se ama mais confronto. Digere-se tudo, o comportamento é ditado pelos mass-midia.

Folha – Você está há 26 anos no papel. Como você mantém vivo o personagem?

Soleri – Eu reinvento as falas (em meu interior) todos os dias. O meu Arlequim historicizou-se cada vez mais, até tornar-se a imagem de um homem em luta entre dois mundos, dois patrões. É a revanche psicológica dos oprimidos e dos homens obrigados a salvar-se diante de forças em geral incompreensíveis.