{ENTRE} – Coletivo Negro

Publicado em: 04/08/2020

[…] Mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma
muralha com nossos corpos de sonho e margaridas. Homem comum.
Ferreira Gullar

 

Em seu ensaio “O autor como produtor”, o filósofo alemão Walter Benjamin afirma que a fotografia não seria capaz de apresentar cortiços ou montes de lixo sem exaltá-los. Em outras palavras, a função da fotografia seria transformar a própria miséria em objeto de fruição.

Essa foi a grata sensação que tive ao fotografar o espetáculo “{ENTRE}”, do Coletivo Negro (SP), em 2014, que fez parte do projeto Celebrização do Homem Comum. Aliada ao “poder” de estetização das imagens capturadas pela câmera, a potência sensível da encenação consegue cumprir seu objetivo: tornar poético o comum.

A obra, com direção de Raphael Garcia, foi escrita por Jé Oliveira, a partir das provocações dramatúrgicas de Grace Passô, e trouxe à tona a vida cotidiana do homem comum em suas relações sociais. As cenas apresentadas em linguagem documental – numa referência ao filme “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho (2002) – revelavam as histórias de quatro personagens apresentadas pela atriz Thais Dias e pelos atores Flavio Rodrigues, Jefferson Matias e Jé Oliveira. Os músicos Cássio Martins e Fernando Alabê, também no espaço da encenação, executavam a trilha sonora do espetáculo ao vivo.

Em um conjunto habitacional da periferia, são apresentadas quatro histórias: de uma mulher grávida e abandonada pelo companheiro, de um
pai que deseja retornar ao seio familiar, de um filho que busca encontrar sua identidade e de um médico que retorna ao local de nascimento para se reencontrar com seu passado.

A obra é marcada por rituais de passagem em que temas como gravidez, busca da identificação/identidade e retorno às origens podem alterar nossos caminhos. Uma porta, usada de vários modos, caracteriza-se como símbolo potente, que constrói e desconstrói a cenografia, e funciona como esse elo de transposição das nossas escolhas, sejam elas conscientes ou não.

Em meio a estes e outros ritos de passagem, a fotografia dialoga com a poética da obra, uma vez que é ela que cumpre o papel da confirmação dessas celebrações: certo traço de sua existência.

A fotografia, segundo Philippe Dubois, certifica, ratifica, autentica, atesta ontologicamente a existência do que foi fotografado, pois ela é a impressão física de um referente único. Ela aponta nosso olhar e nossa atenção para aquilo que realmente aconteceu. Para a existência de um momento vivido.

A cena das fotos das famílias de integrantes do grupo teatral, apresentadas no telão, formado pelas portas, consagra a celebração do homem, um ser coletivo que carrega em si o seu tempo e a sua história.

“O retrato de um momento se torna um registro histórico, afetivo e efetivo dos nossos empenhos. Legado imagético das dores, sonhos e potências humanas. A sensibilidade do Bob revela e transborda essa urgência de se manter vivas e vivos”. Jé Oliveira


 

 

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