Dois artigos: A nau dos Loucos e Stultifera Navis 

Publicado em: 28/05/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.44

No calor dos fatos e dos tempos em que vivemos, não consigo parar de intuir que as relações históricas estivessem rodando em falso até o surgimento desta atual pandemia. Parte minoritária de cidadãos controla mercados de futuros – projeções de custos de oferta e demanda e títulos (!!!) -, lastro de economias de países onde há fome e ausência de futuro; que corroem o meio ambiente, concentram renda, massacram, escravizam e dissolvem culturas de milênios, isolam periferias e as desprezam como ruinas.

Não me parecia possível que tal lógica pudesse ficar em pé por muito tempo. Sempre houve quedas de impérios lentamente corroídos até o dia em que as percepções de tais referencias mudassem completamente. Este é o nosso presente. Para o futuro: Quem arriscar previsões, errará no acaso. Ocorre na arte também, por ser parte da vida humana. Gosto de fabular a partir da relatividade de qualquer valor da “verdade’ enquanto “real”, operada por Dom Quixote diante de um Sancho Pança pragmático e perplexo. Moinhos não eram inimigos ou cavaleiros. Quixote morreu; a morte, sabemos, não pode ser fingida. Ou é ou não é; quando é, o sujeito que morre não será mais. Depois de Quixote, a verdade “miou”, a Igreja se desesperou e Deus começou a morrer alegoricamente.

Gostaria de escrever teses e mais teses, mas estas já estariam inacessíveis a quem está nas bordas da periferia do chamado mundo central, importante, descolado. Este artigo, mesmo ele, já tem a sua inacessibilidade, mas é preciso pensar com os instrumentos que se tem. Um desses instrumentos: temos a sorte de um grande intelectual nosso como Jacó Ginzburg dedicar atenção a um renascentista como foi Leone de’ Sommi. Este ditou o surgimento de instrumentos estéticos eficientes num momento de imensas transformações de relações sociais; ditou também a aparição do que acredito ter sido o primeiro profissional de teatro como o entendemos hoje, senão o primeiro diretor como que encenou discorrendo sobre as ações concretas dos atores, muito além da simples declamação que automaticamente fazia do ator um representador vazio.

Leone de’ Sommi Portaleone (c. 1525 – c. 1590) viveu na cidade de Mântua, no apogeu do seu florescimento cultural renascentista, sob o domínio da Gonzaga. Judeus ali viviam na pobreza.
Era de uma família médicos e cientistas famosos. Foi dramaturgo, encenador, ator, o primeiro da sua família a trabalhar no teatro.

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Para um ator elisabetano, bastava dizer “agora estou só” para o publico vê-lo só’, no monologo depois da passagem dos atores, em Hamlet – provavelmente, estavam no palco todos os atores da cena precedente, amontoados num canto. O público imaginava a cena pelas palavras. Leone, estando ao tratado escreveu sobre movimentos cênicos e disposições de iluminação, fazia muito mais. Segundo Ariane Helou, “Décadas antes do Shakespeare de “Todo o mundo é um palco / E todos os homens e mulheres meramente atores”, o dramaturgo observou: “todo o mundo junto não é nada mais que um palco ou um teatro onde há um espetáculo contínuo de nossas ações”. [“tutto il mondo insieme altro non è che una scena od un teatro ove si fa continuo spettacolo delle nostre azioni”]. Com esta afirmação, Leone de’ Sommi apresenta um estudo sobre a arte e a ciência do trabalho artístico: Quattro dialoghi in materia di rappresentazioni sceniche [“Quatro Diálogos sobre Atuação Teatral”]. Os Dialoghi constituiem o primeiro manual sobre a direção teatral no Ocidente. É um ponto de partida para a compreensão do drama como um espelho da natureza humana e da sociedade. Para ele, a forma dramática é modelada no corpo humano e seus gestos e vocalizações. Enquanto a visão teatral do mundo de Leone parece abraçar a unidade cívica, ela também reflete as ansiedades de um período de marginalização agressiva das comunidades judaicas italianas devido à ascensão dos guetos. Os Dialoghi desenvolvem um contra-argumento à narrativa humanista (cristã) dominante sobre as origens do teatro e descentralizam o modelo aristotélico, citando as escrituras hebraicas como a mais alta autoridade antiga do drama. Além disso, as prescrições de Sommi para o uso da voz e do corpo dos atores em espetáculos dramatizam as relações da carga política e social dos artistas e artesãos judeus de Mântua com a corte de Gonzaga. Através de sua teoria dramática, Leone de’ Sommi representa um desafio aos limites estruturais e ideológicos do gueto.”
Ele foi central na passagem de um texto escrito à carne, afrontando a Igreja com alta cultura, criando a figura do artista performático de profissão que conhecemos hoje – ainda. Mas tudo está mudando de lugar. Estamos na hegemonia da internet, não tem volta, como, no século XX, as três dimensões, a tridimensionalidade dos objetos e corpos derrotaram a bidimensionalidade da cena pintada, da iluminação e… do ator, corpo e da carne “à antiga”. Não mais sigo a elucubrar, embora assim o deseje; mas sigo a aconselhar a leitura de seu ensaio.

De’ Sommi escreveu a maioria das suas peças a serviço dos duques Gonzaga. Dirigiu muitas das peças que a comunidade judaica era obrigada a apresentar para a auto derrisão na corte ducal em celebrações do Carnaval. Posteriormente, um incêndio na Biblioteca Nazionale di Torino queimou dezesseis volumes de manuscritos da sua obra. As únicas obras que sobrevivem até hoje são uma comédia hebraica, os Quatro Diálogos, uma pastoral em italiano e um poema em defesa das mulheres intitulado Escudo das Mulheres, em hebraico e italiano.

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Estamos vivendo uma passagem análoga.

Isso dito, o artigo poderia terminar aqui, mas vamos contemplar o delírio que segue:

Stultifera Navis (artigo sem pé nem cabeça, complementar ao anterior )

Chá e Cadernos 100.45
Mauri Paroni

Voltemos à religião em chave de roteiro surrealista.

Escravizados perguntam-se, vogando com os ouvidos tampados por ordem de um certo Ulisses, o capitão, o único que os pode ouvir. Alega ouvir uma certa Circe. Estão em águas mediterrâneas do norte da África:
– Chega! Mais ordem nesta galera! Já estamos acorrentados a uma ordem do nosso dono… melhor dito: ordem precisa de produção, desde a seleção de um texto cantado, representado. iluminado, situado, executado num palco sem internet, a sós.

– É o que fazemos nos quatro Diálogos sobre Representação Cénica (“Quattro dialoghi in materia di rappresentazioni sceniche”)?

– Atuamos conversa entre Veridico, um alfaiate/jogador/diretor que atua como voz do autor, e dois senhores, Santino e Massimiano, que fazem várias perguntas a ele sobre a teoria e a prática do teatro.

– Mudar de ideologia é fácil, comparado a mudar de mentalidade. Falo de maneira rustica, mas é assim mesmo, basta ler e se aprofundar mais no do sociólogo Max weber e, para desespero dos olavistas, de Antonio Gramsci.

Cale-se! Isso não está escrito no script!

– Toma lá este diálogo de gente que não se ouve. Como Ulisses, que não tapou os seus ouvidos para evitar a morte com o canto de Circe. Urro, desesperado, a surdos marujos para virarem a galera para a ilha da feiticeira que canta.

Os escravizados e cultos remadores vogam e declaram:

– A projeção teológica das religiões, no sentido de estudo das crenças, foi fundamental para imaginar o futuro que construímos da cultura, no presente.

– Chega de Grécia: um judeu no centro do renascimento antropocentrista inventou o profissional do teatro como o conhecemos (ainda) hoje. Para imaginarmos o futuro.

– No tempo de Jesus Cristo, na narração bíblica escrita, este dirigia-lhes a palavra diretamente, em publico, o que irritava o status quo. Para utilizar uma ironia pesadamente machista, seria como falar de Marx a um cachorro sentado à mesa de um restaurante de luxo.

– Ou lembrar, a proposito da recentíssima morte do maior arquiteto brasileiro, de uma obra no ES, o nome já diz, espírito santo.

Cale-se!

– No Estado do Espírito Santo.

Cale-se!

– Na unidade federativa do Espírito Santo…

Cale-se!

– …o Cais das Artes nunca foi inaugurado. Por quê? Ali, a Cultura não vale nada, um teatro e um museu, só serve para gastar dinheiro da prefeitura. O Cais atrapalha a vista dos prédios bacanas da Baia de Vitória… alguém deve ter mandado parar a obra.

O remador que protesta é metralhado.

– Carma pesado.

– De quem é o filho de deus? De Cristo? de deus? Do útero? O útero E’ da mulher, então dela se tem certeza.

O remador ressuscita.

-Não. Veio do “Espírito” ? “Santo”? Mesmo?

– Então… A escrita. A anotação. Vinha desde o Egito antigo, da briga do calendário lunar de 28 dias , com o solar de 30 dias. Dois mil anos depois, surgiu a anotação do canto gregoriano, depois das notas, da canção. A Sociedade patriarcal continuou no “amor” de santo agostinho, em que nada houvesse além de Deus. Criava-se o pródigo primogênito portador do nome do Pai, o patrão da fábrica familiar, pré-industrial, artesanal; Das corporações de ofício. Do macho força-física-da-lavoura; Da Mulher-casa-cozinha-reprodução-da-espécie; Da herança por nome, e, por cada família, uma mulher ia pra freira, outro ia para Padre, o último para cuidar do Pai, dos velhos. O saber quotidiano se passava oralmente através das gerações – as mulheres eram, absolutamente, alijadas do estudo, mesmo aquela da Igreja. Num tempo certo, veio a sociedade industrial, a linha Ford, a divisão do trabalho. Havia a anotação do conhecimento. Na música, no canto gregoriano, na transmissão oral/musical, como no teatro de palco, o ouvido, o ritmo. Um “texto escrito”. Ainda que profano, que alguém poderia reproduzir SEM tê-lo ouvido antes. Quase demoníaco, silente. Então, rubricas escritas, Ibsen, realismos, alfabetização do público, menor imaginação, maior decodificação intelectual, de significados e significantes, direção teatral de “leitura de mesa”.

– Cale-se!

– De Sommi usava a oralidade para passar a anotação de palco sem o “texto”, provavelmente.
Criou o “’profissional”. A dialética autor x ator de palco. Commedia dell’Arte. Riot de verdade.

Cale-se!

O remador é metralhado novamente.

– Quem fala?

Os outros remadores entoam canto gregoriano.

– Guido d’Arezzo (*). Batizo as notas musicais: ut, ré, mi, fá, sol, lá e como o hino a São João Batista: Ut queant laxis/Resonare fibris/Mira gestorum/Famuli tuorum Solve polluti/Labii reatum/Sancte Ioannes (“Para que teus grandes servos, possam ressoar claramente a maravilha dos teus feitos, limpe nossos lábios impuros, ó São João.”).

– Quem é?

– Não interessa! Pros antigos egípcios, um deus ou um humano que faleceu e se tornou um ser divino, encarnavam em objetos que representavam a forma.

Cale-se!

– Aqui é Hathor, a deusa do amor e da fertilidade. “(…) Voa do céu para entrar no (…) [seu templo] na Terra, voa em direção ao seu corpo, se une à sua forma.”

Cale-se!

– Aqui é Osíris. “Venho como aquele espírito projetado na parede”.

– Estatuas e múmias eram a grande chave da tragédia, que começou no Egito. Norte da África.

Alguém ouve rap em alto volume. Também é metralhado, junto a seu aparelho de som. Silêncio.

– Nada de forçação. É fato. É onde estamos.

– Estamos doidos?

– Termina o delírio.

– É onde estamos.

 

(*) Guido d’Arezzo (992 — 1050) monge italiano e regente do coro da Catedral de Arezzo (Toscana). Foi o criador da notação moderna. A nota Ut passou a ser chamada de dó, para facilitar o canto com a terminação da sílaba em vogal, por Giuseppe Doni, que escolheu a primeira sílaba do seu sobrenome e a nota si (por serem as iniciais em latim de São João: Sancte Ioannes), também com a terminação de uma vogal.

Referências e citações

Leone de Sommi: um Judeu no Teatro da Renascença Italiana, Jacó Ginzburg, Editora Perspectiva, São Paulo, 1989
Leia BBC
Aulas de meu curso de extensão
Raul Ruiz – As Três Coroas do Marinheiro