Diário da Cena: “Um Voo Por Cima do Humor Triste”

Publicado em: 22/11/2012

É de Matéi Visniec a frase acima. O dramaturgo romeno, de 56 anos, tem sua obra editada no Brasil, pela editora É Realizações. Desses autores que fazem toda a diferença na formação de um dramaturgo. Criou suas obras primeiras sob o impacto do regime totalitário na Romênia (tempos de Ceausescu), e alçou o espaço da repressão para o da liberdade criativa.

Antes de mais, é obrigação minha salientar que a É Realizações fez um feito!  Porque 1. inda é rara ainda a publicação no Brasil de peças nacionais e estrangeiras e porque 2. acessibiliza (cada um dos livros da coleção custa por volta de R$ 20) a obra de um autor de teatro fundamental.

Voltando a Visniec:
Sua dramaturgia  – falsamente simples – foi em boa parte desenvolvida na França, país no qual se exilou, em 1987. Continuou criando magistralmente (penso que autor que É autor, aconteça o que acontecer, continua sendo…).

Diz ele, numa das entrevistas, publicada ao final do texto “O Último Godot”: “Em uma sociedade democrática, o adversário é bem mais difícil de ser identificado e, ademais, é fácil equivocar-se quanto ao que é urgente… O adversário que se esconde sobslogans e práticas democráticas é bem mais pérfido, pois o efeito perverso da democracia é o de se fazer passar por uma forma de liberdade.”

Herdeiro do Teatro do Absurdo
Leitura mais do que obrigatória para quem escreve ou dirige ou atua ou trabalha com teatro. Para quem ama teatro. Ler suas peças, como “O Último Godot”, “Com os Bolsos Cheios de Pão”, “Três Noites com Madox”, “Um Trabalhinho para Velhos Palhaços” ou “A História dos Ursos Panda”, ativa a percepção do universo do absurdo (Visniec é considerado herdeiro de Eugene Ionesco e Samuel Beckett. Ele próprio sublinha a importância da obra beckettiana nos seus modelos de composição).

Mas é possível senti-lo para além das escolas e modelos estéticos de enquadramento.

Seu “humor triste”, como ele próprio enfatiza, ao falar de suas criações, fortifica as bases do pensamento contemporâneo, em oximoros que elevam a instâncias superiores de percepção o ato da criação, para muito além de estéticas restritivas do claro OU escuro, do cômico OU trágico, do lento OU veloz…

MS – 22 de novembro de 2012

Contatos: maricisalomao@spescoladeteatro.org.br