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Craques e Afetos

Publicado em: 18/05/2022

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Mauri Paroni

Este artigo publicado em 2019 fala de como Camus encontrou o sol no mundo do futebol, desmente uma fama ele atribuída: citação aproximativamente a ele atribuída: “tudo o que eu sei com toda certeza sobre moralidade e obrigações que devo ao futebol” e que afirma ter o teatro e o futebol como uma de suas universidades. (Pelo que pesquisei, suas palavras foram estas, numa entrevista de quando intelectuais franceses desprezavam a maioria dos esportes: “(…) só conheci o esporte coletivo na minha juventude, aquele poderoso sentimento de esperança e solidariedade que acompanha os longos dias de treinamento até o dia do jogo da vitória ou da derrota. Realmente, a pouca moralidade que conheço, aprendi nos campos de futebol e nos palcos do teatro, que continuarão sendo minhas verdadeiras universidades.” – Em Por que eu faço teatro? [ http://www.astrolabe44.fr/pages/coups-de-coeur/albert-camus-pourquoi-je-fais-du-theatre.html ] [ Pour moi je n’ai connu que le sport d’équipe au temps de ma jeunesse, cette sensation puissante d’espoir et de solidarité qui accompagnent les longues journées d’entraînement jusqu’au jour du match victorieux ou perdu. Vraiment, le peu de morale que je sais, je l’ai appris sur les terrains de football et les scènes de théâtre qui resteront mes vraies universités.]

Foi de muita gente, apesar da louca e estúpida escola que a mídia de massa fez desse esporte tão carnalmente teatral.


Albert Camus (de boné) quando goleiro do Racing Universitaire d’Alger em sua juventude

Permito-me a ousadia e honra de fazer coro afetivo e intelectual a ele. Sou um torcedor, o futebol para mim hoje é um espetáculo que assisto e participo – como vi comédias de De Filippo, Dias Gomes, Brook, Kyogen, filmes, rituais africanos e … Corinthians, essa torcida que tem um time. Adoro a ideia de um público que tem um teatro, mais que a de um teatro que tem um público.

A isso acrescento o afeto que aprendi a sentir profundamente pela história de uma equipe sofrida, como poesia, prosa, amor e experiencia dramática. Ruim de bola, insisti em ser um volante encardido e mal postado; depois, juiz expulso por erros e injustiças; enfim, aprendi a ser um torcedor, a jogar das arquibancadas. Nestas, afinidades eletivas e momentos estão entre as melhores recordações: meu pai, mato-grossense que invocava o “Santo Sepulcro “ pelo time de seu infinito coração. Não desdenhava fumar um charuto bahiano para trancar o adversário dando-lhe um nó na embalagem, com interjeições a São Jorge, o que me acalmava. Num domingo super frio, mantas, respeitosamente levou-nos em família alargada, a um dos mais emocionantes embates “lá e aqui” da história do futebol paulistano. Tão celebre que disponível integralmente aqui [ https://www.youtube.com/watch?v=ErdS6PvLwMI ]. Sob um autoritário ano de 1971, o derby de craques e raçudos: Rivellino, Ademir da Ghia, Leão, Zé Maria. Baldocchi, Leivinha, Ado. Luis Pereira, um surpreendente Adãozinho… Esnobismo plebeu, campeonatos são mero detalhe para certo tipo de sofredor: arquibancada, em grego antigo, dizia-se Theatron = de onde se vê. O jogo mesmo veio da china, mas a arquibancada e o drama vieram do mediterrâneo afro europeu.


Craques verdadeiros eram os torcedores de olhar sempre sereno com quem honradamente um dia fui à arquibancada: minha avó Margarida e sua querida irmã Luzia, e três de meus primos: o Leco, um dia presidente do São Paulo, que via com zelo iluminado qualquer partida jogada (apreciei com ele um gol genial do craque Falcão contra o meu próprio time – Margarida e Luzia diziam fosse justo que “esses meninos” vivessem coisas além da lógica do estômago – magas sofisticadas na cozinha); o Hilton Ribeiro, fotógrafo refinado de retratos da nobreza das pessoas humdoildes (inesquecível ter com ele subido numa motocicleta, vento no rosto, para não perder nem um minuto de jogo); o Zeca Bergamini, irreverente praticante de candomblé em segredo (na arquibancada onde muitas vezes o encontrei, feliz, em meio a pais-de-santo). Aprendi muito com a dificuldade de um dia ter sido um corinthiano dos tempos de sofrimento.

***

Albert Camus gostaria do Timão, tivessem os seus anfitriões brasileiros de 1949 abertura mental de levá-lo a um clube popular. Para ele, o que dava sentido à vida eram aquelas coisas que se amava “não com sua mente, não com a lógica, mas com suas entranhas, suas entranhas”.

Arte e Futebol servem para aprender – também – a sofrer com coragem. Enfim, condivido outro artista do espetáculo – são trechos do ensaio que o cineasta Pasolini escreveu sobre o futebol.

[ O gol fatal: Pasolini e o futebol-arte
Publicado em 20/06/2014 pela Boitempo Por Pier Paolo Pasolini

O gol fatal: Pasolini e o futebol-arte

Neste artigo, escrito pouco depois da final da Copa do Mundo de 1970 e publicado no Il Giorno, em 3/1/1971, Pier Paolo Pasolini desenvolve sua distinção entre “futebol de prosa”, praticado pelos europeus na época, e o “futebol de poesia”, característico de brasileiros e não-europeus em geral. Enquanto o primeiro seria voltado exclusivamente para os resultados e regido pela observância às regras do sistema, o segundo se basearia sobretudo na capacidade de invenção de cada jogador, resultando o gol de uma subversão prazerosa do código, e não do que chama ironicamente de “otimização dos podemas”.
(…)

O que é uma língua? “Um sistema de signos”, responde do modo hoje mais exato um semiólogo. Mas esse “sistema de signos” não é apenas, necessariamente, uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo e você, leitor, lendo).
Os “sistemas de signos” podem ser muitos(…)

Pintura, cinema e futebol
Outro sistema de signos não-verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes) etc. O jogo de futebol também é um “sistema de signos”, ou seja, é uma língua, ainda que não-verbal. Por que digo isso (que em seguida pretendo desenvolver esquematicamente)? Porque a “querelle” que contrapõe a linguagem dos literatos à dos jornalistas é falsa. E o problema é outro.
Vejamos. Toda língua (sistema de signos escritos-falados) possui um código geral. Tomemos o italiano: usando esse sistema de signos, eu e você, leitor, nos entendemos porque o italiano é um patrimônio nosso, comum, “uma moeda de troca”. Entretanto cada língua é articulada em várias sublínguas, e cada uma destas possui, por sua vez, um subcódigo: os italianos médicos se compreendem entre si -quando falam o jargão especializado- porque todos eles conhecem o subcódigo da língua médica; os italianos teólogos se compreendem entre si porque detêm o subcódigo do jargão teológico etc. etc.
A língua literária é também uma língua de jargão, com um subcódigo próprio (em poesia, por exemplo, em vez de dizer “speranza” é possível dizer “speme”, mas nós não estranhamos essa coisa engraçada porque se sabe que o subcódigo da língua literária italiana demanda e admite que, em poesia, sejam usados latinismos, arcaísmos, palavras truncadas etc. etc.).
(…)

O futebol é um sistema de signos, ou seja, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada.
“Podemas”
De fato as “palavras” da linguagem do futebol são formadas exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Ora, como se formam estas últimas? Formam-se por meio da chamada “dupla articulação”, isto é, por infinitas combinações dos “fonemas” -que, em italiano, são as 21 letras do alfabeto.
Os “fonemas” são, pois, as “unidades mínimas” da língua escrita-falada. Se quisermos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol, podemos dizer: “Um homem que usa os pés para chutar uma bola”. Aí está a unidade mínima, o “podema” (se quisermos continuar a brincadeira). As infinitas possibilidades de combinação dos “podemas” formam as “palavras futebolísticas”; e o conjunto das “palavras futebolísticas” constitui um discurso, regulado por normas sintáticas precisas.
Os “podemas” são 22 (mais ou menos como os fonemas): as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinação dos “podemas” (o que, em termos práticos, equivale às passagens da bola entre os jogadores); a sintaxe se exprime na “partida”, que é um verdadeiro discurso dramático.

Os cifradores desta linguagem são os jogadores; nós, nas arquibancadas, somos os decifradores: em comum, possuímos um código.
Quem não conhece o código do futebol não entende o “significado” das suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).
(…) ]

PPP, bom de bola