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Cartas Personalíssimas para Jovens [Poetas] – Preâmbulo dos Anos 80

Publicado em: 03/08/2022


Chá e Cadernos 100.99
Mauri Paroni

São memória e reflexão de alguns casos particulares vividos durante os anos 80 e eventualmente anos 90 do século passado. São tantas quanto conseguir me lembrar dos micro acontecimentos que se escondem atrás do teatro. Peço permissão para lhes chamar de jovens [Poetas]. Encaixam-se o mais possível nas artes do palco e do cinema. São cartas pessoais e sentidas, muitas vezes íntimas. São micropolítica deste idoso binário. Parecem ficção, mas são reais, são percepções antes de construções de pensamento. Jovens [Poetas] são terceira pessoa do plural, a quem escreve um “eu”, uma primeira pessoa do singular. Perdoem-me o individualismo – humanista por perceber que dependo do outro, vocês que me definem, jovens [Poetas] – homenagearemos a necessária alteridade do poeta Rilke.

Estas cartas vivem no espaço didático do chá e cadernos. Apesar de não me opor ao conceito de lugar de fala, evito a banalização dessa expressão tão importante num jargão academicista. De consumo. Emprego, pois, “lugar” como lugar mental não geográfico. Estas são cartas pessoais desta juventude de 61 anos para as suas, jovens [Poetas].

***

Escutem, jovens [Poetas]: funcionário no recém-inaugurado Sérgio Cardoso, e no Teatro Ruth Escobar em 80/84, queimava de vontade de aprender e acompanhar ensaios nas suas salas inferiores, que adaptava para produções teatrais em curso. Estas eram feitas por artistas que se endividaram; não se fornecia meio refletor, ou qualquer subvenção de qualquer instância pública… A administração sub-reptícia de Paulo Maluf via muito mal quem ensaiava ali; eram artistas do porte de Sérgio Mamberti, Cleyde Yaconis. Antonio Petrin, José Renato, Celso Frateschi, Sonia Guedes, Raul Cortez; eu lhes implorava assistir àqueles ensaios. Nada…”vai saber como foi que esse moleque veio parar na administração do teatro”; era muito difícil para quem não frequentasse grupos ou bares da classe teatral; a desconfiança era justificada: era fim de ditadura, mas ainda ditadura – o movimento por eleições diretas e livres dos militares estava no começo, a imprensa ainda estava sob censura federal, havia alta inflação, crise econômica, arrocho salarial, tudo corroía qualquer prática libertaria. Isso mudou somente no fim da década através da solidariedade entre as vítimas diretas da foice da Aids. Qualquer acesso à prática do teatro era um ato de amor sacrificial. Só entendi o quão política era a coisa quando, recém diplomado em direção na Itália em 88, registrei meu livrete de pertencimento e contribuição trabalhista/sindical. Ainda se usava em São Paulo a chamada “carteirinha de puta” para figurar no sindicato da classe teatral. Na Itália, a “Camara del lavoro”, ente estatal criado na ditadura de Mussolini, provia a carteira a trabalhadores do espetáculo – vi o quanto foi manipulada, desde sempre, qualquer legislação trabalhista, por qualquer ditadura… trago esse assunto, jovens [Poetas], para pensar em identidade e acesso a vocês, à vida, ao teatro e a seus mundos infinitos.

A ideia da “carteirinha de puta” me abriu um canal surrealista: foi a saída que encontrei para a necessidade de descobrir a vida do teatro longe do que sobrava: cursos de “métodos” e prontidões, muito longes de qualquer contexto ibero-americano… pratiquei a frequência semanal a uma casa de massagem (!), pateticamente enturmado num estupido bando de pós adolescentes sem qualquer ambição ética. Visto com desconcerto aqui também, não totalmente despido de culpa, carregado de copiões de tragedia grega, castamente ensaiava falas a baixíssima voz com as profissionais do sexo – eram excelentes, divertidas e felizes com o teatro. Na biografia, foram todas, sem exceção, pobres e expulsas das suas famílias e cidades ainda garotas, por terem engravidado ou sobrevivido a um aborto. Mal sabiam ler. Por isso liam melhor. Diziam. Falavam. Nada de representar, mas, sim, fingir serem elas mesmas. Teatro. Um único conhecido aprovou essa estória: era Luiz Alberto Galizia, diretor dez anos mais velho, num eterno e intensíssimo encontro casual durado dez minutos na madrugada.

Quando falado e vivido desde o começo, quando impossível de ser lido literariamente numa atuação, o teatro é maravilhoso. Jovens [Poetas], isso se aprende na marra, e na nossa escola existe como pedagogia e fluxo vital. Aprendi, ao aceitar o fluxo vital em que me inseri, a lição que condicionou tudo o que levei para a Europa. Estudante, levei anos para sacar o valor daquilo, até que alguns excelentes mentores italianos me alertaram. Diziam contagiá-los com um “talento inventivo que faz dançar o teatro doido” (sic); afirmo com veemência: era – é – simplesmente um TRABALHO.

Gostei a vida inteira de dançar. Já não posso mais dançar como gostei. O trabalho vale a dança que não posso mais dançar. Quanto vale a dança – para vocês? Continuo na próxima carta, jovens [Poetas].