Cabaret Fucô

Publicado em: 18/08/2020

[…] O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis
a uma economia dos direitos suspensos. […]
Michel Foucault

Para o filosofo checo-brasileiro Vilém Flusser, em uma das suas mais prestigiadas obras, “Filosofia da caixa preta”, a fotografia e todo o seu aparato técnico de captura da imagem são mecanismos de controle, uma vez que “o fotógrafo manipula o aparelho, o apalpa, olha para dentro e através dele, a fim de descobrir novas potencialidades”. Para Flusser, todo o interesse está concentrado no aparelho fotográfico, e tudo ao entorno desse aparelho – o objeto da fotografia – está vinculado às potencialidades desse aparato técnico. Nessa perspectiva, cabe ao fotógrafo romper esse sistema de controle, baseado no fetiche ao equipamento, rompendo as convenções e extraindo “imagens interessantes, informativas e ao mesmo tempo inéditas”.

A partir da ideia, elaborada por Flusser, de controle da fruição da vida social em função da idolatria à imagem, é possível aproximar o espetáculo Cabaret Fucô, com a direção de Rodolfo Garcia Vazquez, o primeiro musical da trupe e a segunda parte da “Trilogia Cabaret” desta teoria. A obra explora a estética dos freak shows e investiga os mecanismos de controle social descritos pelo filósofo francês Michel Foucault. A ideia, que toma como referência os antigos circos e o ambiente noturno e festivo dos bordéis da década de 1950, é contribuir para a construção de um pensamento crítico desalienante e propor ao público a seguinte questão: afinal, onde estaria a liberdade em um mundo controlado ao extremo pela sociedade da informação digital e pelo bombardeio incessante de imagens que nos é imposto a cada fração de segundo?


A montagem, fotografada em sua estreia, em 2016, num ambiente embriagado de liberdade e festividade, característica marcante do grupo, explora os vários sentidos da palavra “aberração” para o pensamento conservador e padronizante e redimensiona as várias formas de preconceito (de gênero, cor de pele, estatura, peso, classe, posição política e estilo de vida).

O elenco conta com a participação de Ivam Cabral, Bel Friósi, Breno da Mata, Daiane Brito, Eduardo Chagas, Fabio Penna, Gustavo Ferreira, Henrique Mello, Julia Bobrow, Robson Catalunha, Sabrina Denobile e Silvio Eduardo.

Em cenas curtas e fragmentadas, as figuras bizarras desse cabaré criam reflexões sobre a trajetória do homem na sociedade contemporânea a partir de temas como o feminismo, a repressão sexual, os padrões de beleza, a busca pelo emprego dos sonhos, os relacionamentos perfeitos e a robotização das convenções e crises sociais.

Talvez essas imagens, construídas em diálogo livre dos dogmas e distanciadas do formalismo técnico, possam conter um pequeno fragmento do comportamento libertário e inovador da Cia. Os Satyros, tão buscado nos escritos e pensamentos de Vilém Flusser e Michel Foucault.

 

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