Bob Sousa: colecionador de mundos

Publicado em: 13/12/2013

“Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo, e,uma vezdesaparecidas,não há nenhum esforço sobre aterra que

possa fazê-las voltar”

(Henri Cartier Bresson, no livro “O momento decisivo”)

 

Todos os dias, diante da Torre Eiffel, milhares de pessoas, de diferentes países, se aglomeram com suas máquinas digitais em riste ou apontam seus smartphones para a famosa construção. A obsessão dos turistas pela fotografia é alimentada pelo maior dos temores: a efemeridade da vida. Aquele momento único vai se perder com o transcorrer dos anos, e somente uma foto poderá provar que aquele dia existiu, tanto para quem o fotografou quanto para os outros. A realidade estará impressa naquela imagem digitalizada, como uma lembrança, uma prova, uma experiência vivida e transformada em pixels. A angústia provocada pela ideia de que um instante precioso pode se perder inexoravelmente – para sempre – se dilui parcialmente graças à fotografia.

 

Somente isso já seria o suficiente para justificar um livro de fotografias de teatro. O teatro, essa arte do efêmero, que não se grava nem se repete de maneira idêntica, depende das fotografias para resistir a seu próprio fim. É por meio desses registros, em pixels, cromos ou negativos, que os instantes encenados se eternizam. Cenários, atores, luzes, gestos, maquiagem e figurino, tudo pode ser finalmente inventariado, lembrado e revivido, seja nos álbuns, nos porta-retratos, nas revistas, nas redes sociais, nos sites ou nos livros.

 

A despeito dos diversos programas de edição e manipulação de imagem, a fotografia ainda carrega em si uma ideia de reprodução do real. Mais do que os relatos ou as pinturas, as fotos são provas irrefutáveis daquilo que existiu um dia. Elas legitimam ambientes e personagens, como se testemunhassem fenômenos que não podem ser esquecidos. E é por isso que a fotografia, para a gente do teatro, é tão importante quanto para os turistas diante da Torre Eiffel. A sensação angustiante de que nossa obra é efêmera, de que ela vai desaparecer em poucas semanas, pode ser amenizada ou disfarçada quando temos uma fotografia nas mãos.

 

A obra de Bob Sousa funciona como antídoto contra essa angústia. Ela remedia ou atenua a dor do efêmero à medida que o cartão de memória é preenchido. Mais do que isso, a fotografia de Bob Sousa atinge outras camadas, ainda mais profundas, de intervenção criativa. Seu legado não é apenas o de quem se apropria daquilo que sorrateiramente se deu diante de nossos olhos para surrupiar instantes e imprimir memórias. Suas fotos exprimem a sensibilidade de alguém que testemunhou um momento teatral e pôde transformá-lo, numa fração de segundo, numa nova experiência artística.

 

A fotografia de Bob Sousa não apenas registra o momento teatral, mas trata de propor ao que a vê uma nova experiência estética, com formas, movimento, cores, expressões e sensações próprias. Observando suas fotos, desenvolvemos um novo olhar sobre o mesmo espetáculo, não como uma simples reprodução, mas como uma nova percepção da obra. O teatro deixa de ser apenas a realidade capturada instantes antes de se extinguir para se transformar em mistério. E o olhar de Bob Sousa, debruçado generosamente sobre o palco, os camarins, as coxias, e sobre cada um dos profissionais que produzem e se alimentam do espetáculo, em cena ou fora dela, nos conduz com sedução e magia a um outro patamar: um mistério sobre o mistério, como definiu a também fotógrafa Diane Arbus, norte-americana famosa nos anos 1960 por seus retratos de pessoas excluídas ou marginalizadas, entre as quais alguns anões, gigantes e transexuais. Algo que, para além do registro histórico, nos leva a um mundo ainda a ser descoberto ou criado.

 

Imagens, ações, emoções. Muitas. Captados com as lentes da sensibilidade, os retratos de Bob Sousa nos remetem à magia do palco e eternizam o que é efêmero. Por muitos ângulos, o artista da câmera retratou dezenas de artistas do palco e personalidades que compõem as plateias desses artistas ou os bastidores de sua atividade. São imagens que contam ou recontam histórias já assistidas, é claro, mas são também registros a partir dos quais muitas outras histórias podem ser contadas, lembradas, reinventadas.

 

Algum leitor desavisado pode pensar que é tarefa simples o registro que esse jovem fotógrafo aqui nos apresenta. Engana-se. Um amontoado de cliques jamais conseguiria traduzir o que ele traduziu: a sutileza das expressões dos atores, os olhares, as cores, as emoções que elas despertam. Neste volume, Bob Sousa nos apresenta sua disposição para captar o imaterial e transformá-lo em inesquecível, uma arte que se conquista após um longo e persistente exercício de paciência. Porque todo bom fotógrafo sabe que é preciso paciência, e muita, até que o registro sonhado se concretize na lente da câmera.

 

Por vezes, as imagens que se tenta captar ganham vida própria e, como os humanos, se tornam temperamentais, arredias. No mesmo instante que nossa retina fixa uma imagem, ela pode desaparecer. Num piscar de olhos, a foto cobiçada se perde, se despedaça, desaparece. É nesse momento que muitos desistem. Mas não o incansável Bob Sousa. Ainda que muitas das imagens sonhadas por ele tenham lhe escapado, ao final venceu sua persistência. E o troféu conferido por sua vitória acaba sendo nosso, distribuído nas páginas deste livro.

 

Susan Sontag, escritora, ativista e crítica de arte, dizia que colecionar fotos é colecionar o mundo. Bob Sousa nos permite colecionar o mundo mágico do teatro a partir de seu olhar único.

 

Referências bibliográficas

CARTIER-BRESSON, H. The Decisive Moment. New York: Simon and Schuster, 1952

* por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro.

 

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