A boa revolta de Valter Rege

Publicado em: 30/06/2020

Mauri Paroni
Chá e Cadernos, 100.30

O Brasil expandiu-se sem controle sobre a exploração humana via supressão da liberdade da maioria de sua população, a afrodescendente, e dos indígenas. O faz ainda hoje e sempre o fará se não houver impedimentos à linguagem usada pela mesma expansão. Não, isso não é mera fabulação ideológica: são fatos. Neste país de imperialismo claudicante, soa um recado dado pelo jovem cineasta Valter Rege, direta como toda mensagem do homem em revolta: lutar contra o anacronismo daquela linguagem, presente em todos os centímetros do Brasil.

Basta notar que muitas residências, fora da favela ou dos conjuntos residenciais populares, disponham do historicamente atrasadíssimo “quarto de empregada” ou da cozinha e sala independentes. Ou seja: senzalas aspirando por justificação. Qualquer corretor imobiliário de pequenos apartamentos os oferecerá com o espaço do convívio familiar centralizado num cubículo punitivo atravancado pelo minissofá fronteado, a menos de dois metros, por enorme TV de tela a plasma; o conjunto virá coroado por ampla garagem para dois carros.

Esse opróbrio habitacional é mais uma das muitas realidades consequenciais de um fato evidente: desde que a metrópole foi abolida do estado brasileiro, outra lúgubre metrópole a sucedeu, operada por posseiros, depois grileiros, sem a menor cultura histórica, mas com o dobro da pretensão de domínio dos antecessores. O Brasil coloniza-se a si mesmo. O antigo colonizado retornou à Europa, onde sucumbe à contradição de sua anacronia em suas próprias terras.

É obvio que cada pessoa que  viva no Brasil – cada pessoa – veja, banal e quotidianamente, gente preta assassinada mediante violência generalizada, exploração absurda desde tenra idade, má alimentação, má saúde, má educação – atualizado pelourinho para rebeldes e  fujões – uso de trabalhadoras no serviço doméstico e trabalhadores no serviço braçal; A negros e negras, raras posições de destaque, além de clichês de falso folclore. É – sempre foi – o que vi, em todos – todos – os dias, em qualquer – qualquer – lugar do Brasil: a violência factual contra o preto, hora após hora, até tornar-se norma “natural”.

Quando vejo a imagem de Valter Rege cuidando de sua casa à vista  de sua  janela para a comunidade, filmando-a com os  meios que pode escolher, vejo a vitória do enternecimento de quem promove a boa revolta dentro de si, de sua casa, de seu estilo de vida como artista, gay, de sua mente  criativa, que se apresenta com a dignidade de seu nome:

🎬🎥 Cineasta, Escritor, PRETO, GAY, FAVELADO , que foge dos esteriótipos.
Criador do canal Valter Rege.

A partir desse exato segundo, a história progride de modo contrário ao que quer a vergonhosa metrópole auto-alimentada brasileira.

Vejo-o muito com adequada apropriação de semelhanças com a Europa e o Norte da África, ante o superficial desperdício do saber com que os novos metropolitanos brasileiros sonham para suas breguíssimas luas-de-mel, a desvirginarem a cultura da qual se orgulham de serem descendentes sem sequer terem-na conhecido. Por desconhecerem qualquer tipo de cultura própria, desprezam a cultura negra, por exemplo. Ergo, desprezam qualquer vida negra. A violência consequente disso é cínica e mais deletéria que a ação de qualquer grupo supremacista em lugares onde haja uma segregação racial mais nítida. Quero dizer: dela são saudosos, além de praticarem hodiernamente uma má cultura europeia do século XIX, detentora da chave da escravização das ideias, ou do falseamento do conceito dito progressista. Duas faces da mesma face; Consumismo versus gosto.

Valter Rege chega a mencionar a palavra “consumo”, mas o sentido é o do gosto pela fruição de um bem conquistado. Explico com uma metáfora: o casario da maioria dos burgos construído nas encostas colinares das cidades, por falta de espaço social, durante a expansão urbana de pouco antes da Grande Peste do século XIV, na Europa e no Oriente. Esta mais se assemelha que se diferencia da comunidade onde vive Rege, hoje, em Americanópolis, São Paulo. A diferença restante – fundamental – é que hoje, nas primeiras, há condições dignas de vida, propriedade da casa, saúde, educação, segurança, investimento, coisa que a favela não tem e não terá enquanto quem a narrar for a elite que a oprime, como é o caso do Brasil.

Basta abrir os olhos e despir-se do preconceito ou do doloroso complexo da gentalha “anticomunista” ou “conservadora” (não o são; são meros reacionários): Vê-se, em Rege, o futuro no nosso presente. Se o quisermos prever, bastará verificar se mais dos seus agirem em sua consonância para a manutenção da já difícil respiração cultural – hoje, física – da sociedade Brasileira. Ele ensina o caminho das pedras de como produzir arte cinematográfica com poucos meios e justa ambição. Seu estilo de vida é exemplar para o nosso tempo. Ou se resolve a questão e se desenvolve a fórmula por ele sugerida ou a morte de todos, colonizadores e suprematistas incluídos, está decretada, inapelável, sem uma segunda instancia. É fundamental, para quem se estuda, conhecer as suas práticas.

Não tenho mais nada de útil a acrescentar, além de informar que quem escreve é ítalo-brasileiro; portanto, branco de visão originalmente europeia (a que me foi ensinada na escola), mas com aguda prática de consciência crítica.

Ilustrações do Instagram de Valter Rege

 

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