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Aula Clínica

Publicado em: 05/07/2022

Chá e Cadernos 100.96
Mauri Paroni

– Esses aí fizeram o Check in.

No corredor, transcorria uma aula de clínica medica com vinte estudantes e o professor. Ouviu-se aquele sussurro no hospital universitário em que estávamos internados – indígena, preto e branco.

– Cancelaram o voo. Porque não se usa essa linguagem na Medicina. Que pode não ser uma ciência exata; prognostico e estatística são, sim, números, mas não são certeza abstrata. Nem tratamos o que chamam de “milagre”. Mas tratamos – também – do que os gregos chamavam de ethos. Budistas, de ichinen. Terreiros, de axé. Campbell, de poder mitico. Religiosos, enfim, de fé. Espinosa, de afeto. Ateus, de acaso. Artistas, de arte. Holly e Bollywood, de happy end. Diante disso, pilantras usam baixo palavrório: “corredor da cura” e que tais. Querem acumulo de dinheiro e mau poder (de uma conta pobre para outra bilionária)… Heine chamou isso de ópio do povo – retrucou o professor.

– Quem era Heine?

– Quem era Espinosa?

– Quem era Campbell?

– Axé o que é? (*)

– Vão estudar! – respondeu o ainda irritado professor.

O apelido do professor era “Chupa Cabra” – pelo seu aspecto; escolhi acreditar naquela alegoria mítica do Chupa Cabra, via Campbell.

Naquele hospital, havia a presença constante de senhoras voluntarias a distribuir conforto e sopas, padres confessores, psiquiatras, palhaços revolucionários, fanatizados doadores de pijamas, pastas de dente e escovas. Estes últimos traficavam a audição de gritarias para “descarrego do demônio” sua consequente falta de fé.

Saí vivo daquilo, não obstante a pregação e relativos decretos de condenação à morte e ao Inferno. Declarei que não acreditava naquele fanatismo; e que era colega do “demo em mim”, pela linguagem: cientificamente, o progresso do meu linfoma estava em A-3 – muito avançado. Tomaram os brindes de volta. Disse então que saíssem. Abri, de um livro de poesia latina, o salmo V de Catullo; e o recitei como numa antiga missa em latim.

Catullo – carme V

Vivamus, mea Lesbia, atque amemus
Rumoresque senum severiorum
Omnes unius aestememus assis.
Soles occidere et redire possunt:
Nobis cum semel occidit brevis lux,
Nox est perpetua una dormienda.
Da mi basìa mille, deinde centum,
Dein mille altera, dein secunda centum
Deinde usque altera mille, deinde centum.
Dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut ne quis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.

[Tradução explicativa:

Vivamos, minha Lesbia, e amemos.
A fofoca senil não vale um centavo.
Sóis se põem e renascem;
uma vez que a luz breve a nós se tenha acendido,
dormiremos uma noite eterna.
Dê-me mil beijos, depois cem,
depois mais mil, depois mais cem,
depois mais mil, depois cem.
Quando dados muitos milhares,
Misturamos tudo, que nenhum mau-olhado nos caia
Porque grande será o número de beijos.]

Correram dali.

– Sai, ô coisa ruim, ô demônio!

Gritou um dos fanáticos .

Acudiu-nos uma alarmada residente da psiquiatria, que nos ofereceu calmante químico. Em paz, lembrei-me de quando, meio escondido da mulher ao lado de quem acreditava que iria morrer um dia, sussurrei a lírica V de Catullo(**), misturado ao frescor sibilante da brisa da vereda trilhada, esperando refazer aquele caminho.

Há ética e antiética no tratamento humano. Escritos e poesias podem ser atirados ao papel ou à fogueira por antiéticos e ignorantes. Mas também podem ser sussurrados pela eternidade da impermanência. Vida. Teatro. A poesia dita na mente de quem tem esperança não morre diante da parca. O futuro é uma voz feliz ou uma desgraça aberta à lâmina. Concomitantes, talvez.

———–

(*)

– Christian Johann Heinrich Heine 1797 1856 foi o poeta alemão mais importante do período de transição entre o Romantismo e a “Jovem Alemanha”.

– Baruch de Espinosa (1632 —1677), filósofo holandês, iluminista e crítico bíblico de modernas concepções de si mesmo e do universo, grandes nacionalistas da filosofia do século XVII.

– Joseph John Campbell (1904 – 1987) foi um escritor e professor universitário norte-americano famoso por seus estudos de mitologia e religião comparada.

– Axé (de àṣẹ, termo iorubá que significa “energia”, “poder”, “força”) pode se referir tanto aos assentamentos de orixás que ficam nos altares quanto à força mágica que sustenta os terreiros de candomblé.[de Wikipedia]

(**)

– Gaio Valerio Catullo (84 – 54 AC) foi um poeta Romano nascido em Verona, famoso pela intensidade das paixões amorosas expressas nos Catulli Veronensis Liber. Viveu em Sirmio, hoje Sirminone, uma península sobre o lago de Garda, norte italiano. A sua área arqueológica contém os restos de uma das maiores vilas residenciais, domina toda a bacia do lago e é cercada por um histórico cinturão de centenas de oliveiras milenares.