Ato de Empatia

Publicado em: 02/08/2021

Mauri Paroni
Chá e Cadernos 100.54

Meu amigo W… afirma seriamente ser uma reencarnação do poeta e escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950). O seu primeiro livro de poesia, Trabalhar Cansa, é de 1936. Antifascista, foi preso e. depois da II Guerra, inscreveu-se no Partido Comunista. Nessa época, iniciou “O Ofício de Viver” (“Il Mestiere di Vivere”), diário autocrítico composto de reflexões sobre a sua arte, seus processos criativos e o sentido da própria existência, que escreveu até suicidar-se num quarto de hotel em Turim ingerindo barbitúricos.

Não acredito na estória de reencarnação contada por W… sobretudo por ele não ser o poeta genial que foi Pavese. Nem que ele vá suicidar-se. Mas a simples lembrança de sua convicção fantasiosa leva-me a ficar preocupado com o paradeiro de meu amigo, pois a vida nos fez perder o contato. Sinto uma forte empatia que não se perde. Tais sensações paralelas são a própria poética pavesiana.

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Em tempos de pós verdade, há líderes políticos mentalmente doentes que inventam serem netos de “mutilados na guerra” em missão de poder autocrático nesta nova existência. Mitizações rasas como essa são sempre sobre alguma personagem “nobre”. Feitas por gente medíocre, jamais são sobre um cidadão invisível. Acabam referendadas por milhões de internautas. É proposital e recorrente; a presente destruição da Cultura enquanto valor se manifesta exatamente assim.

De outra parte, como no caso de poetas como W…, transferimos afetos a um escritor, a uma obra de arte, a um herói famoso ou a uma pessoa da família, do clã. Nem tudo estará perdido se estivermos na esfera do raciocino abstrato sobre as necessidades materiais da cultura humana. A aura conseguida é uma das essências da arte do teatro.

Os dois casos têm ainda intacto o cordão umbilical da loucura fabulatória. Mexem com os medos caprichosamente escondidos em nossos inconscientes.

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Cesare Pavese

Costumo lembrar-me da obra de Pavese quando me sinto inapropriado. Copo de vinho novo na mão, as suas palavras trazem-me imediatamente o medo de receber a notícia do suicídio de meu amigo. O efeito é grande: adquire-se um sentido de compaixão que aumenta o amor pelo humano.
O Castigo do Egoísta
“Quem não sabe viver com caridade e abraçar a dor dos outros, tem como castigo sentir com violência intolerável a dor própria. A dor só pode suportar-se tornando-a comum e compartilhando-a com os outros que sofrem. O castigo do egoísta está em só disso se aperceber sob a férula (castigo), tentando em vão aprender a caridade, por interesse.”

“As coisas são descobertas através das memórias que se tem delas. Recordar uma coisa é vê-la – agora, apenas – pela primeira vez”.

de ‘O Ofício de Viver”

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Pavese está absolutamente próximo ao desespero existencial recorrente no arbítrio da ditadura militar no Brasil, presente nos filmes de Carlos Reichenbach (1945-2012). Ele era um confesso inspirado por O Ofício de Viver, confissão publicada no Caderno +Mais, da Folha de São Paulo, em 13 de novembro de 2005 :

[O Ofício de Viver
Carlos Reichenbach
especial para a Folha
Leio trechos esparsos de “O Ofício de Viver”, de Pavese, e de “Murilo Mendes – Poesia Completa e Prosa” praticamente todos os dias. Enquanto os pensamentos de Murilo Mendes são celebrações à vida, a obra de Pavese é um autêntico inventário do desespero. São obras de aguda sensibilidade e inteligência, que, paradoxalmente, se completam. Por via transversa, Mendes dá a chave para entender (e amar) “O Ofício de Viver”: “Ler os textos da noite com a lente do dia”. A obra terminal de Pavese é um alerta a respeito das perversões da melancolia. Um documento humano essencial da nossa época, transgressivo em sua “franqueza dilacerante”.
Cheguei ao cinema via literatura, mas nunca foram romances ou textos de ficção que me estimularam a pensar e escrever os meus filmes. Minhas idéias brotam sempre de fragmentos poéticos, de mergulhos alheios na memória e meditações sobre a vida.
Sob esse prisma, as obras de Jorge de Lima, Murilo Mendes, além de “O Ofício de Viver”, são inesgotáveis mananciais de inspiração; a mística insinuante de Lima, a vastidão intelectual, o prazer pela vida de Mendes e a dor crucial de Pavese, “gatilhos” da criação.]

O poeta suicida Corsário, interpretado pelo ator Paulo Hesse em “Damas do Prazer” (1978) de Antônio Meliande (com Nicole Puzzi – Carlos Reichenbach colaborou no roteiro) é o próprio desespero pavesiano que circulava anonimamente pelas ruas da São Paulo da ditadura militar.

Cartaz de Damas do Prazer

O Cineasta Carlos Reichenbach

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Em a Lua e as fogueiras, a mestra de Pavese era a… a Lua. Importantíssima para qualquer camponês, ele se juntava a eles na natureza e, com a gente simples, narrou os ciclos do tempo, dos nascimento à morte, refugiou-se na memoria do prosador que mais tarde seria construído.

“Uma aldeia é necessária, nem que seja pelo prazer de partir. Uma aldeia significa não estar sozinho, sabendo que no povo, nas plantas, na terra há algo de seu, que mesmo quando você não está lá, ainda está esperando por você”. (*)


Campos natais de Pavese

A trama de A Lua e as fogueiras é narrada em primeira pessoa misturando passado e presente, cujos acontecimentos sem grandes detalhes não estão aparentemente ligados entre si pelos pensamentos e reflexões do protagonista. Depois de vinte anos emigrado, este regressa à aldeia natal e vê que tudo mudou, menos a paisagem e o seu amigo Nuto. Lembra os primeiros amores e as primeiras experiências de vida. Mas outros acontecimentos intervêm: já não são apenas recordações, mas cega loucura do presente, fogos que não são as fogueiras festosas dos camponeses, mas os incêndios provocados pela raiva ou pelo desespero. A Lua e as Fogueiras é uma história sobre as cicatrizes que se acumulam com a impassibilidade da natureza. Cesare Pavese retorna à sua aldeia onde convivia com artesãos e gente simples. Ele, que trabalha como dedicado editor em Turim, na sofisticada editora de Giulio Einaudi; ele, que convive com Norberto Bobbio, Leone e Natalia Ginzburg e tantos outros intelectuais progressistas.
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Constance Dowling no filme noir Black Angel, 1946

Pavese apaixonou-se loucamente por Constance. Foi correspondidao sem intensidade. Dedicou-lhe dez poemas, oito em italiano e dois em inglês, datilografados, mas data e título de cada um foram escritos à mão por Pavese, que também escreveu na capa: “Verrà la morte e avrà i tuoi occhi/11 marzo – 11 aprile 1950”. Ela morreu oficialmente de ataque cardíaco em 1969, mas seu sobrinho afirma que suicidou-se com barbitúricos.


Andrea Checchi e Costance Dowling no filme La strada finisce sul fiume 1950 fonte Stradafiniscesulfiume1.jpg


A cidade de Turim

Verrà la morte e avrà i tuoi occhi
(Tradução de Rui Caieiro)

Virá a morte e terá os teus olhos —
esta morte que nos acompanha
de manhã até à noite, insone,
surda, como um remorso antigo
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito reprimido, um silêncio.
Assim os vês todas as manhãs
quando sozinha te inclinas
diante do espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos nós também
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como abandonar um vício,
como ver no espelho
ressurgir um rosto morto,
como escutar lábios fechados.
Mudos, desceremos ao abismo.


[Perdono tutti e a tutti chiedo perdono. Va bene? Non fate troppi pettegolezzi. Cesare Pavese.]
(Perdoo a todos e a todos peço perdão. Tudo bem? Não façam fofoca demais. Cesare Pavese)
Bilhete encontrado na cena de seu suicídio.

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Num momento em que, aparentemente, se perde quase tudo nas transições que vivemos de uma arte pata outra, de uma sociedade para outra, de uma inteligência humana para uma artificial, ao leitor desejo ardentemente o não esquecimento das obras que fazem de nós o que somos e o que seremos.

Fontes de citações:
Cesare Pavese, Opere, 14 vol., Einaudi, Torino 1968.

(*)
“Un paese ci vuole, non fosse che per il gusto di andarsene via. Un paese vuol dire non essere soli, sapere che nella gente, nelle piante, nella terra c’è qualcosa di tuo, che anche quando non ci sei resta ad aspettarti.“

Cesare Pavese, La luna e i falò, collana Einaudi Tascabili, Einaudi, Torino.

(**)
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi
questa morte che ci accompagna
dal mattino alla sera, insonne,
sorda, come un vecchio rimorso
o un vizio assurdo. I tuoi occhi
saranno una vana parola,
un grido taciuto, un silenzio.
Così li vedi ogni mattina
quando su te sola ti pieghi
nello specchio. O cara speranza,
quel giorno sapremo anche noi
che sei la vita e sei il nulla.
Per tutti la morte ha uno sguardo.
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi.
Sarà come smettere un vizio,
come vedere nello specchio
riemergere un viso morto,
come ascoltare un labbro chiuso.
Scenderemo nel gorgo muti.