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Alteridade, gesto, corpo presente

Publicado em: 14/06/2022

Chá e Cadernos 100.94
Mauri Paroni

– Gestapo; geste à peau. [ sic Suzanne hommel e Jacques Lacan] – aqui

Ler aqui sobre gestapo a geste à peau=gesto na pele:

– A morte, a morte, a morte; não seria amor, amor, amor? [sic paciente – psicanalista em conversa num bar]

O psicanalista francês Jacques Lacan – Imagem: CEA – Flickr – USP Imagens

– “O inconsciente é estruturado enquanto linguagem”.

Para o psiquiatra francês, influenciado pelo movimento surrealista e o estruturalismo, Jacques Lacan (https://clipp.org.br/o-inconsciente-e-estruturado-como-a-linguagem/), um saber do outro de si – significante – também representaria o sujeito para outro significante. Como artista, divago que talvez o inconsciente possa ser lido não somente através de letras ou palavras, mas por uma “gramática de ironias”. Proponho, sobre isso, uma fantasia roteiristica: um professor bebia um copo de água quente que acompanhava seu pedido, fora do cardápio: um misto quente cujo queijo fora substituído por tomate e maionese. Chamava-o “x-miséria”, diferente do famoso cheese miséria de seus tempos de fim de infância, lamentavelmente disturbada pelo bullying de uma turma imbecilizada pela ditadura militar dos anos 70. Tal sanduíche-discurso inconsciente do professor era incompreensível para o jovem filmaker que o acompanhava. Mas atraiu a atenção de uma solitária psicanalista, acomodada à mesa contígua, que havia encomendado um nobilíssimo hambúrguer de baby beef. Ela mesma tinha um portamento levemente aristocrático. Parecia uma marionete de movimentos gráceis – marionetes voam, são perfeitas para a dramaturgia ligeira do século XVIII, não põem os pés no palco, têm a sua sustentação vinda de cima, contrariamente ao dramático fantoche, movido dos ínferos da representação cênica. A psicanalista foi convidada a se juntar ao grupo. Chegou um segundo hambúrguer, cortado e dividido, menos com o professor e seu humilde x-miséria. A conversa continuou. Ela dividiu seu conhecimento clivado [dual]: um primeiro significante-sanduiche enunciou o segundo significante-sanduiche-discurso-outro.

A estrutura do discurso inconsciente podia ser lida. O professor e o filmaker, enquanto comiam, falavam sobre um projeto de leitura de mãos através do toque físico e da invenção de palavras e vaticínios; mais que simples brincadeira, seria estruturação de saberes; Ao ouvir isso, a psicanalista ofereceu a mão à leitura. Sua figura estendeu-se dramaticamente, como alguém que agarrasse a corda de peito de um prático na abordagem do navio a ser manobrado no atraque ao porto.

Diante daquele contato manual, o professor evocou a corda de Nietzsche – “O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é degrande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso.” ; não contente, ligou tudo ao encalhe do mega cargueiro no canal de Suez em 2021, à consequente interrupção do ciclo do comércio mundial, à crise da circulação oriente-ocidente seguida pela interrupção do fluxo do gás siberiano sob a Ucrânia, ao naufrágio da nova via da seda chinesa, ao primeiro prego batido na tampa do caixão da ideologia bolsomínia. Chegou-se a sugerir a elaboração de uma tese sobre leituras de voz do além-do-teatro. Fez-se silencio. O professor refletia internamente sobre o porquê de qualquer gesto prosaico em sua vida ironizar o drama, embora ele apreciasse mais marionetes que fantoches.

Esta é uma divagação. Fosse um roteiro, seria incompreensível. Fosse o real inconsciente, o professor perguntaria a seu consciente sobre seu espírito lacaniano e nômade.

O silêncio foi seguido por um diálogo onírico.

– Vejo uma fogueira noturna de Dia de Reis, a Epifania.
– Para que lado foi a fumaça?
– Não se pode ler nada nesta noite escura.
– Mas tem o luar.
– De uma Lua impossível, aquela desejada pelo imperador Caligula.
– O impossível é o real.
– Exatamente. Impossível ler uma Lua estruturada no eu dentro de si. Quero dizer, no céu sobre nós.
– Estamos sob o relento invernal.
– Boa noite.
– Boa noite.

Uma jornalista atenta e silenciosa testemunhava aquele silencio onírico. Viu tudo terminar quando a tranquilidade do bar foi invadida por uma gentalha de bacanas transtornados por não trazerem telefones, mas cadeiras próprias. Um deles acomodou à mesa a sua cadela pincher mimada. Apesar de falarem com gramática, não conseguiam encadear uma conversação. Somente teciam comentários em serie sobre a frequência de uma hipotética balada ocorrida na noite anterior. Esvaziados de sentido, os comentários caíram no regime alimentar ministrado à cadela e às suas consequências sobre a beleza saudável do pelo curto do animal. Isso fez o discurso se engrenar na sofrente mente crucifixa professor: outra ironia alegórica da condição humana. Uma cachorrificação lacaniana. Deus ainda não está morto. Se tanto, deslido.