
A atriz Ana Hartmann retorna ao Teatro Oficina, espaço fundamental em sua formação artística, para dar corpo e voz ao universo enigmático de Clarice Lispector em O Ovo e a Galinha, espetáculo com direção de Joana Medeiros. A montagem parte de um dos contos mais instigantes da escritora para investigar as relações entre pensamento, existência e linguagem, transformando o fluxo de consciência da literatura em experiência teatral.
Em cena, Ana interpreta Clarice no momento em que a escritora lê o próprio conto e passa a experimentar fisicamente as imagens, associações e inquietações despertadas pelo texto. A partir da visão de um ovo sobre uma mesa, o cotidiano se desdobra em reflexões sobre Deus, amor, trabalho e os limites da compreensão humana. A palavra literária encontra na atuação, nas projeções, nos sons, nos objetos e no jogo entre luz e sombra outras possibilidades de expressão, construindo uma cena em que corpo, imagem e pensamento se contaminam.
Com origem em uma pesquisa iniciada em 2017, o espetáculo também recupera um episódio singular da trajetória de Clarice: sua participação no primeiro Simpósio de Bruxaria de Bogotá, em 1975, ocasião em que apresentou justamente O Ovo e a Galinha. Entre relatos imprecisos e zonas de mistério, a montagem transforma esse acontecimento em matéria dramatúrgica, aproximando a escritora de um universo em que a razão convive com o inexplicável.
De volta ao Oficina, onde iniciou sua trajetória teatral e participou de montagens dirigidas por Zé Celso Martinez Corrêa, Ana Hartmann reencontra um espaço que marcou sua formação. Com trabalhos no teatro, no cinema e na televisão, incluindo produções da Globo e da Netflix, a atriz assume agora o desafio de transformar uma escrita de densidade filosófica e poética em acontecimento cênico. Nesta entrevista, ela fala sobre o processo de criação da personagem, o encontro com a literatura de Clarice Lispector e as possibilidades de fazer do corpo um território para as perguntas que o texto não pretende responder.
Bob Sousa – Você interpreta Clarice Lispector no momento em que ela lê o próprio conto. Como surgiu essa perspectiva para construir a personagem?
Ana Hartmann – Existe algo muito simples nessa escolha: esse texto nasce de uma consciência, de uma inteligência, que é a inteligência de Clarice Lispector. E o que começou a nos fascinar foi justamente investigar o que essa mulher estava vivendo, o que se passava dentro dela para que fosse capaz de olhar através de um ovo e, a partir dele, atravessar a própria realidade.
A biógrafa de Clarice, Teresa Montero, nos lembrou que O Ovo e a Galinha foi escrito na mesma época de A Paixão segundo G.H.. Estamos falando de uma percepção muito particular, de um olhar que atravessa e fragmenta a realidade tal como a conhecemos, colocando em crise as nossas próprias estruturas de compreensão do mundo.
Por mais que o conto seja extremamente reflexivo, ele possui uma dramaturgia própria, que começa justamente no fato de ter sido parido por aquela mulher, por aquela inteligência, naquele momento de sua existência.
Quando descobrimos sua participação no Simpósio de Bruxaria de Bogotá, em 1975, essa perspectiva ganhou uma nova dimensão. Foi um acontecimento bastante controverso, cercado de relatos contraditórios e fascinantes, que até hoje desperta curiosidade. Essa presença de Clarice num encontro dedicado à bruxaria tornou-se também um dos motes da nossa pesquisa. Começamos a investigar o que significava a bruxaria para nós e de que maneira essa ideia poderia se relacionar com uma mulher cuja escrita parecia possuir a capacidade de transfigurar a realidade.
Bob Sousa – O Ovo e a Galinha é um texto marcado pelo fluxo de consciência e por associações filosóficas. Quais foram os principais desafios de transformar essa escrita em ação teatral?
Ana Hartmann – Isso que é o fascinante na literatura de Clarice: é a filosofia se tornando ação. É a palavra se tornando ação. É um texto profundamente teatral.
Clarice flertava com o teatro, flertava com a atuação. Ela fazia traduções teatrais junto com Tati Moraes. Traduziu Hedda Gabler, a pedido de Tônia Carrero. E existe um relato de que Tati precisava pedir para Clarice se concentrar na tradução, em vez de ficar encenando as falas do texto. Verdade ou não, gosto de pensar que isso é uma pista de que, para Clarice, a voz e a palavra eram extremamente vivas e acionáveis.
Mas, sem fazer qualquer tipo de presunção, nós temos uma personagem em cena que é acometida por pensamentos, por um fluxo de consciência, e que, ao vivo, diante de nós, busca lidar com eles dentro de si, dentro do seu próprio corpo, e nos transmitir uma mensagem limpa, clara, sobre o que resta da sua realidade após ela se deparar com uma visão que destrói a narrativa que está acostumada a viver.
Então, por ser um texto literário, é claro que existe um desafio, porque não existe dramaturgia no sentido clássico do termo. Não existe uma dramaturgia dada, nada é dado, as cenas não são dadas. A gente teve que criar uma personagem. A gente teve que imaginar essa personagem crescendo, se multiplicando e sendo, portanto, uma ação que desafia o próprio espaço-tempo, porque ela se dá no pensamento da personagem e é materializada em cena.
Eu acho que o desafio também é aceitar essa provocação, é aceitar que a nossa dramaturgia não é apenas uma mulher lendo um texto ou uma mulher vendo um ovo. Ela é uma mulher dentro da sua própria cabeça. E o cérebro é um grande mistério, assim como o universo. O comportamento do nosso pensamento é rizomático, quântico. Então, acho que o maior desafio foi aceitar e incorporar essa premissa quadridimensional da personagem. A gente precisa aceitar e aprender a lidar com isso. Esse é o maior desafio, porque o fato de ser literatura ou filosofia, inclusive, é a própria ação do texto.

Bob Sousa – O espetáculo parte da participação de Clarice no Simpósio de Bruxaria de Bogotá, em 1975. De que maneira esse episódio contribuiu para a criação da dramaturgia?
Ana Hartmann – Esse episódio é a nossa âncora. Foi ele que trouxe as maiores questões para a gente trabalhar criativamente. Colocar a perspectiva de Clarice como bruxa não é fazer uma afirmação sobre Clarice ou sobre a bruxaria. É entender, assim como Simón González, que convidou Clarice, dizia na carta-convite, que a palavra dela tinha a capacidade de transmutar a realidade.
E essa proximidade entre literatura e magia não é uma coisa que surgiu a partir de então. As próprias tradições judaicas, inclusive das quais Clarice descendia, também atribuem à palavra, à letra, ao verbo, uma potência criadora. Nas tradições cristãs também existe essa ideia do verbo como criador, fundador da realidade, da nossa realidade humana. A linguagem.
Então esse evento é multiplamente interessante. Em primeiro lugar, porque os relatos são contraditórios, são inclusive engraçados. Uma pessoa que esteve nesse Congresso de Bruxaria relatou que, enquanto Clarice lia o conto, um homem comia um ovo cru no chão, enquanto uma galinha se materializava no espaço. Então é inusitado, é um testemunho de como realmente a palavra magnetiza e envolve as pessoas, não apenas pelo seu conteúdo, mas pela forma como ela é lida e vivida.
Esse evento é um poço infinito de inspirações. E a gente está no mês das bruxas, né? Eu penso muito sobre o que significa ainda o termo bruxaria. Não apenas da forma que eu falei, mas a bruxaria de ser, de dar voz a um aspecto do feminino que nunca se vê, que não se viu até hoje na literatura, na espiritualidade. O feminino foi abafado, silenciado. E isso é a bruxaria. Isso é o que eu considero bruxaria.
É um aspecto do feminino que começa a despontar hoje de forma muito leve, porque assusta profundamente e abala profundamente as estruturas de uma sociedade. Ele não é palatável, ele não é agradável, ele não é doce. É um feminino obscuro.
Então o Simpósio de Bruxaria me trouxe isso: essa visão revolucionária e provocativa do que significa a literatura, do seu poder de transformar a própria arte, de como atuar a partir de uma perspectiva não linear, porque a gente está dentro do cérebro de uma pessoa que lê um texto. E do que significa a bruxaria em si, para além do Halloween, é claro.
A carta-convite do Congresso de Bruxaria de 1975 é endereçada aos “amigos do desconhecido”. Simón González apresenta o congresso como uma investigação dos poderes interiores do ser humano e das forças ocultas do universo, para além dos cinco sentidos. Para mim, especialmente no Teatro Oficina, essa é a definição de todo evento teatral. Quando a gente entra no teatro, a gente está transmutando forças ocultas do universo. Então, sim, esse evento é a nossa âncora. É o nosso convite para ler Clarice e entender o texto teatral e literário, mas também o verbo como um elemento fundador e transformador da realidade. Essa é a verdadeira bruxaria.
E essa proximidade entre literatura e magia não é uma coisa que surgiu a partir de então. As próprias tradições judaicas, inclusive das quais Clarice descendia, também atribuem à palavra, à letra, ao verbo, uma potência criadora. Nas tradições cristãs também existe essa ideia do verbo como criador, fundador da realidade, da nossa realidade humana. A linguagem.
Então esse evento é multiplamente interessante. Em primeiro lugar, porque os relatos são contraditórios, são inclusive engraçados. Uma pessoa que esteve nesse Congresso de Bruxaria relatou que, enquanto Clarice lia o conto, um homem comia um ovo cru no chão, enquanto uma galinha se materializava no espaço. Então é inusitado, é um testemunho de como realmente a palavra magnetiza e envolve as pessoas, não apenas pelo seu conteúdo, mas pela forma como ela é lida e vivida.
Esse evento é um poço infinito de inspirações. E a gente está no mês das bruxas, né? Eu penso muito sobre o que significa ainda o termo bruxaria. Não apenas da forma que eu falei, mas a bruxaria de ser, de dar voz a um aspecto do feminino que nunca se vê, que não se viu até hoje na literatura, na espiritualidade. O feminino foi abafado, silenciado. E isso é a bruxaria. Isso é o que eu considero bruxaria.
É um aspecto do feminino que começa a despontar hoje de forma muito leve, porque assusta profundamente e abala profundamente as estruturas de uma sociedade. Ele não é palatável, ele não é agradável, ele não é doce. É um feminino obscuro.
Então o Simpósio de Bruxaria me trouxe isso: essa visão revolucionária e provocativa do que significa a literatura e a arte, do seu poder de transmutar a realidade, e de como atuar a partir de uma perspectiva não linear, porque a gente está dentro do cérebro de uma pessoa que lê um texto. E do que significa a bruxaria em si, para além do Halloween, é claro (rs).

Bob Sousa – A montagem articula atuação, projeções, câmera ao vivo, sons e objetos. Como esses elementos interferem na sua interpretação e na construção da cena?
Ana Hartmann – O teatro, a máquina teatral composta por esses elementos diversos, faz com que O Ovo e a Galinha seja um espetáculo muito vivo e muito para além da presença da atriz. São elementos que a gente entende como o próprio mundo interferindo na andança da personagem.
O Ovo e a Galinha é um texto em que uma personagem digere o próprio pensamento e tem novas percepções. Então a máquina teatral é como se fosse o mundo trazendo pistas para uma nova realização e, ao mesmo tempo, uma exteriorização do pensamento dela.
Nesse sentido, a máquina contribui para uma sensação muito misteriosa e magnética. Essa contradição, esse ruído, essa tensão entre a atriz e a máquina são o que fazem a nossa peça ser aquilo que um crítico no Rio de Janeiro chamou de um “monólogo coletivo”.
Porque ela é multissensorial e esses diversos elementos são operados pelos “agentes” da peça. Os agentes são personagens mencionados pela própria Clarice no conto. São pessoas disfarçadas que se reconhecem num mundo onde a gente não pode verbalizar certas coisas. São reconhecimentos de alma. São pessoas que caminham junto com a gente, muitas vezes ao nosso lado e muitas vezes se voltando contra nós. Pessoas que se unem através do amor.
E esses agentes operam essa máquina. Então a máquina é uma aliada da personagem, muitas vezes se volta contra ela e muitas vezes é uma extensão dela mesma. Mas acho que o que importa entender é que a máquina é um grande elemento de contracenação e da dramaturgia.
Cada elemento, cada pequeno elemento é significado e ressignificado em cena. Cada objeto, cada copo, cada reflexo da luz no copo, tudo isso tem um significado. E olhar para a peça assim eu acho que é a grande genialidade da Joana. Porque o mundo é assim, o mundo é cheio de significado. Basta a gente querer e estar aberto para lê-lo.
Então os elementos interferem de forma a compor a dramaturgia como personagens, ora como coadjuvantes, ora como antagonistas. São objetos de tensão e também oferecem uma outra realidade possível, uma outra leitura possível.
O Luz Barbosa, que trabalha com a gente, é um elemento cênico muito forte nessa construção, dentro da tradição do Oficina. É um cinema dentro do teatro. A gente tem telas enormes no Teatro Oficina, a intervenção do vídeo, que é outra construção feita pela Cecília Lucchesi, e a intervenção do cinema.
Então eu posso dizer que esses elementos não são apenas dramatúrgicos, mas oferecem múltiplos recortes e possíveis leituras de um mesmo tema. Isso significa que a gente não encerra a interpretação do texto numa caixa quadrada, ou retangular, como diria Clarice. Pelo contrário, a gente abre o texto a partir de novas perguntas, novas percepções.

Bob Sousa – Você iniciou sua trajetória no Teatro Oficina e agora retorna a esse espaço. O que esse reencontro representa para você como atriz?
Ana Hartmann – A última peça que eu tinha feito no Teatro Oficina foi Bacantes, em 2018. São quase oito anos, embora em 2025 a gente tenha feito os ensaios abertos de O Ovo e a Galinha. Eu acho que, para mim, esse retorno representa um novo desafio, porque eu comecei a minha história no Teatro Oficina e, como eu não tinha feito aulas de teatro antes, o teatro italiano nunca foi o meu modelo de teatro. O teatro, para mim, sempre foi um teatro como o Teatro Oficina, um teatro artaudiano, um teatro de arena, um teatro de multidão. Esse era o meu modelo de teatro e, tendo sido treinada para isso e forjada nessa bigorna, digamos assim, eu tinha isso como dado na minha vida.
Depois eu circulei por outros lugares, muitos lugares, cinema, televisão, outros teatros. Inclusive, a gente estreou O Ovo e a Galinha num palco italiano. E voltar para o Teatro Oficina me trouxe um novo desafio, que é encarar novamente esse teatro de multidão. E uma percepção de que talvez seja o teatro que faz sentido para mim hoje. Um teatro que precisa estar pulsante, vivo, sendo ressignificado o tempo todo.
É um teatro de oficina no sentido de ser uma forja constante, seja no campo da produção, seja no campo da comunicação, seja no campo da direção, seja no campo da atuação. A gente está trabalhando a cada instante para fazer com que o teatro faça sentido para o grande público, para o hoje, para o aqui e agora, para a ágora que é o teatro.
Então estar no Teatro Oficina, inclusive no período das eleições, significa olhar para o teatro e ser provocada por ele no sentido político e de ágora mesmo, no sentido mais profundo que tem o teatro para mim hoje, como transmutador da realidade, como lugar de presença, como lugar de deliberação. O Teatro Oficina é um convite para a gente presentificar o texto diante da nossa realidade.
Estar de volta ao Teatro Oficina reforça em mim a consciência de que o teatro é uma experiência coletiva, é uma experiência de multidão, é uma experiência profundamente conectada com o hoje, é uma experiência necessária e que tem muita gente querendo e precisando do teatro para se refletir. O nosso retorno de público me traz essa percepção. Assim como o Globe Theatre de Shakespeare, essa ideia do teatro como algo que reúne muitas pessoas, que se atualiza e que precisa do público. Precisa do público.
O Teatro Oficina é um teatro que está em contracenação com o aqui e agora e com o público. Para mim, esse conceito de teatro para amigos que se tem na classe teatral hoje, principalmente em São Paulo, é uma falácia. O público quer teatro. E o que a gente precisa fazer é atualizar o teatro, atualizar a nossa dramaturgia diariamente para que ele esteja conectado com o aqui e agora.
Para além disso, acho que significa fazer parte de um movimento dentro da própria companhia, de entender quais são os seus rumos estéticos, a sua narrativa interna, dessa associação que tem mais de 60 anos de existência e que está contracenando agora com a ausência do Zé. Fazer parte dessa multiplicidade de propostas, da existência política desse teatro hoje como multiplicador de heranças teatrais.
A Joana Medeiros, eu e esse coletivo que se forma em torno de O Ovo e a Galinha fazemos parte de um movimento muito maior. Não é uma única coisa que está acontecendo. A gente tem o Roderick Himeros com Rasga Coração, ao mesmo tempo, nos fins de semana, no Teatro Oficina. A gente tem as visitas à Casa de Acervo, as visitas guiadas ao teatro, o próprio Senhora dos Afogados. Quer dizer, tem muitas coisas. O teatro é ação, então tem muitas coisas acontecendo.
E é muito bom fazer parte disso, porque o Teatro Oficina faz parte do meu corpo. Eu sonho com ele e com o Zé muito frequentemente. O meu subconsciente está enraizado lá, assentado lá. Então significa emocionalmente muito também.
Bob Sousa – Depois de trabalhos no teatro, no cinema e na televisão, o que esse encontro com Clarice Lispector trouxe de novo para sua pesquisa como intérprete?
Ana Hartmann – Viver uma personagem é uma experiência física muito forte. Porque mesmo a subjetividade é física, ela é materialidade, ela é um fluxo neural, um fluxo hormonal, ela é uma relação sensorial com o mundo. Então eu, como atriz, venho dessa tradição. Venho dessa tradição sensorial, profundamente real, de relação com as personagens.
E, nesse sentido, viver Clarice como personagem… Porque o que mais nos chama a atenção em Clarice é essa relação de deslumbramento e horror constante com o mundo. Ela transita entre esses polos com muita intensidade. Veja bem: um ovo, uma barata em A Paixão segundo G.H., uma rosa em A Imitação da Rosa, um homem cego no conto Amor. A forma como a vida bate nas personagens de Clarice e as atravessa, como se fosse mesmo um atropelamento de sensações e de percepções, é muito fragmentadora. Ela desestabiliza, destrói o ego, é uma espécie de morte, uma espécie de experiência que nos coloca num limbo. É um rito de passagem. É morrer em vida.
E isso é o que Clarice nos propõe. Eu não preciso ir para Nárnia para ter uma experiência mágica, porque o mundo já é mágico. O universo, a realidade, já são extremamente mágicos e incognoscíveis.
Então viver isso, estudar isso, pesquisar isso é se colocar numa posição desafiadora. É desafiador, para dizer o mínimo. Não é fácil andar sem estrutura. Não é fácil ser profundamente atravessado pela realidade a todo instante.
A gente precisa, como Clarice diz, da clara e da gema. A gente precisa do cotidiano, a gente precisa da banalidade, da futilidade. E isso é um tema do próprio O Ovo e a Galinha. Eu acho que talvez a resposta sobre esse desafio esteja no próprio conto. Porque Clarice mesma fala que é absolutamente indispensável que ela seja fútil.
Então eu acho que é isso. É encontrar um balanço entre a relação espiritual com o mundo, com o aqui e agora, com a minha realidade, e fazer as pazes com a minha banalidade. É uma grande lição sobre como viver.
Como atriz, eu posso dizer que viver Clarice é um convite para olhar as personagens também a partir do comportamento do seu pensamento e a partir das suas próprias palavras. Acho que me trouxe, mais concretamente, uma relação mais profunda com o texto. Porque eu só posso conhecer Clarice através do que ela falou, de como ela escreveu, de como ela traduziu. A tradução de Clarice também é muito interessante, a forma como ela traduz os textos. E através das entrevistas dela.
Então me trouxe uma relação muito profunda com o texto, porque era isso que eu tinha como base para a pesquisa. Em geral, é assim também com o roteiro. O roteiro é muito importante. Acho que a relação com o roteiro se aprofunda através da palavra e das múltiplas interpretações possíveis da palavra. Quer dizer, me manter aberta para os múltiplos significados da palavra enquanto personagem.
Então eu diria que é isso.

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes (com orientação do Profº Drº Alexandre Mate). É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

