Cenógrafa e diretora britânica tinha 87 anos; ligada à Quadrienal de Praga, manteve relações com artistas brasileiros e ministrou oficinas em São Paulo e Salvador

A cenógrafa, diretora e professora britânica Pamela Howard morreu em 26 de outubro, aos 87 anos. Referência internacional na criação e no ensino da cenografia, construiu uma trajetória que aproximou a prática artística, a pesquisa e a formação de profissionais de diferentes países. Sua morte foi comunicada por instituições com as quais manteve vínculos, entre elas o Centro Romeno da OISTAT, organização internacional dedicada à cenografia, à arquitetura e à tecnologia teatral.
No Brasil, Pamela trabalhou com o cenógrafo J.C. Serroni, que ressalta a importância de sua contribuição para o teatro. Segundo ele, a artista foi “uma grande inspiração pra todos que vivem o universo da cenografia, da Quadrienal de Praga e do ensino desta linguagem”. O depoimento reúne campos que, em sua trajetória, estiveram profundamente relacionados: a criação de espetáculos, o intercâmbio internacional e a transmissão de conhecimento.

J.C. Serroni e Pamela Howard na casa da artista, nas proximidades de Londres, em registro de alguns anos atrás.
Pamela esteve ligada à Quadrienal de Praga, um dos grandes encontros internacionais da cenografia. Foi criadora do Scenofest, iniciativa que reuniu estudantes e professores de diferentes partes do mundo no âmbito do evento, e também atuou na curadoria de exposições do Reino Unido em Praga. Sua dedicação ao ensino incluiu a criação, em 1992, do mestrado internacional em Cenografia Europeia na Central Saint Martins, com uma proposta de formação que articulava instituições de quatro países.
Essa disposição para compartilhar experiências também marcou sua passagem pelo Brasil. Em 2008, realizou atividades no Espaço Cenográfico, em São Paulo, e no Teatro Castro Alves, em Salvador.
Seu pensamento ganhou uma importante via de circulação entre leitores brasileiros com o lançamento de O que é cenografia?, publicado pelas Edições Sesc São Paulo em 2015, com tradução de Carlos Szlak. No livro, Pamela examina as relações entre espaço, texto, pesquisa, composição, direção, atores e espectadores. Desenhos, projetos e experiências de sua carreira sustentam uma reflexão sobre a cenografia como parte da construção do acontecimento teatral, em diálogo com as demais linguagens da cena.
Pamela permaneceu em atividade até os últimos dias. Pouco antes de morrer, esteve na Romênia para participar da Bienal de Cenografia de Bucareste e do lançamento da edição romena de seu livro. Na homenagem publicada após sua morte, o Centro Romeno da OISTAT recordou a alegria e a energia com que ela participou desses encontros, compartilhando ideias e experiências com a comunidade teatral.
Sua atuação também alcançou a preservação dos espaços de cultura. Em Selsey, na Inglaterra, onde passou a viver em 2003, ajudou a iniciar o movimento de recuperação do Pavilion, edifício cuja importância reconheceu e levou ao conhecimento do Theatres Trust. Ao homenageá-la, a instituição responsável pelo espaço destacou seu papel decisivo no processo que permitiu assegurar a propriedade do imóvel em 2024. Entre os grandes encontros internacionais e o cuidado com um teatro de sua comunidade, Pamela manteve a criação artística ligada às condições que tornam possível sua continuidade.
Para Ivam Cabral, diretor executivo da SP Escola Superior de Teatro, a contribuição de Pamela alcança também a formação desenvolvida pela instituição. “Pamela foi uma presença inspiradora para a nossa Escola. Suas ideias e sua maneira de compreender a cenografia alimentaram reflexões sobre o ensino e sobre a relação entre as diferentes linguagens do palco. Existe uma forma de presença que se constrói pelo pensamento, pelas referências que compartilhamos e pelo trabalho de pessoas como Serroni, que conviveram com ela e trouxeram essa experiência para perto de nós”, afirma.

