
A trajetória de Naruna Costa e a história do Grupo Clariô se confundem em uma pesquisa teatral que faz da memória, da identidade negra e da cultura periférica fundamentos de criação e resistência. Há mais de duas décadas, o grupo sediado em Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, constrói uma poética própria, enraizada nas experiências de uma população formada por diferentes migrações, ancestralidades e modos de vida. Em Casa do Norte, espetáculo que revisita essa trajetória, Naruna transforma a celebração em gesto político e a comédia em instrumento de afirmação cultural. Ao apostar na estética brega, no exagero, na música e no humor, a encenação recusa a representação da periferia pela falta e faz transbordar suas abundâncias, seus afetos e suas potências.
A casa que dá título ao espetáculo é, ao mesmo tempo, uma mercearia popular, um lugar de encontro e um território de preservação de memórias. Na construção dessa visualidade marcada pelo excesso de objetos, cores, sons e referências, reaparecem vestígios de montagens anteriores do Clariô, compondo uma espécie de arquivo vivo da trajetória do grupo. A memória não se apresenta como nostalgia, mas como alicerce para afirmar quem são hoje e o que ainda desejam contar. A metáfora também alcança os espaços culturais independentes, ameaçados pela precarização e pelo risco de desaparecimento. Diante dessas ameaças, Naruna escolhe o grito em vez da fala branda, a alegria em vez da dor e a exaltação em vez da homogeneização. Nesta entrevista, a atriz e diretora reflete sobre a construção de uma identidade artística coletiva, a potência política do riso, a estética como afirmação de pertencimento e o futuro do teatro negro e periférico, cuja história, como ela ressalta, continua a florescer apesar das adversidades.
Bob Sousa – Você afirma no programa do espetáculo que “celebrar é resistir”. De que forma Casa do Norte transforma essa ideia em experiência cênica e quais reflexões surgiram ao revisitar a trajetória de 20 anos do Grupo Clariô durante o processo de criação?
Naruna Costa – A GRAÇA é a chave da Casa do Norte. Graça no sentido do potencial político imenso que o “riso” tem, ao provocar uma relação gráfica com a plateia que expressa sua experiência de forma direta e sincera. O povo (publico) não se esconde num teatro como esse. Não se omite. Emite.
Graça no sentido da identidade do grupo. “Qual sua graça?”, não é assim que a gente diz ao perguntar o nome de alguém? Acho a “nossa graça” está desenhada em letras garrafais dentro da proposta desse teatro exageradamente sentido, vivido, expressado. Ali, nós não falamos, nós transbordamos a nossa identidade. E, por fim, graça no sentido sagrado mesmo. A celebração é uma forma de resistir às opressões, às tentativas de apagamento e às violências. Celebrar é uma arma sagrada usada pelos nossos ancestrais, seja pra distrair o inimigo, ou para fortalecer nossas bases, nossa cultura, lembrar de quem somos e das belezas que transbordam das abundâncias das comunidades que a mídia insiste em chamar de “carente”. Fazer uma peça-denúncia, num formato de comédia barata, sendo ela caríssima à cultura brasileira, exaltando o Brega enquanto linguagem estética, apostando em personagens populares no centro da elite do teatro paulistano, eu diria Brasileiro, é falar muito alto sobre quem é o Clariô.
Revisitar nossa trajetória de 21 anos foi emocionante e fundamental para a escolha arriscada que fizemos. Nunca trabalhamos diretamente com o gênero (comédia) no teatro. Aqui apostando numa comédia thriller, tínhamos como ponto de partida toda a memória do Clariô que queríamos que, de alguma forma, estivesse no palco. E assim foi feito. Muitos detalhes estéticos impressos no cenário e na luz, como os latões de tinta servindo de luminárias (usados como refletores no nosso primeiro espetáculo), figurinos e adereços de outras peças relembrados em detalhes dos novos, trechos de musicas e das dramaturgias passadas como flashs de uma memoria que paira… Tudo isso está lá e foi possível porque sentamos para estudar nossa própria historia e alí descobrimos que temos uma estética, uma forma de produzir e de pensar teatro que, independente da peça, estará registrada pela nossa poética no palco.
Bob Sousa – A encenação constrói uma visualidade marcada pelo excesso de objetos, histórias, músicas, afetos e memórias. Como essa estética da abundância foi pensada para dialogar com as experiências das periferias e com a memória dos migrantes nordestinos?
Naruna Costa – Casa do Norte é um sonho antigo do Clariô. Já queríamos, há tempos, falar sobre essa característica especifica da nossa cultura periférica paulistana. Algumas gerações de filhos de gente que migrou. O sotaque, a comida, os modos de vida, a estética de um povo marcado pelo contato com vários povos brasileiros. A periferia onde em cresci era um lugar de paulistas filhos de não-paulistas. Muita gente do nordeste, muita gente do norte e muita gente das fazendas de minas, Espírito Santo. Um povo preto em sua maioria, que veio para São Paulo erguer essa cidade, buscando fugir das adversidades de suas origens, mas sempre sonhando em um dia voltar. Isso é muito específico. É um povo cercado de povos. E a casa do Norte (mercearia popular na periferia) é onde se concentra muitas coisas relacionadas à cultura de toda essa gente, vinda do norte ou não.
Isso forma uma identidade. E essa identidade tem cheiros, sabores, cores, falas, músicas e tudo é muito marcante. Nada é soft, nem clean. Porque tudo carrega a memória de seus lugares de origem, defendidos por esse povo e pelos filhos desse povo.
O exagero é político, é um jeito nosso de ressaltar, enaltecer, abrilhantar e transbordar o que essas culturas trouxeram para esta terra. Não íamos fazer uma Casa do Norte Gourmet. Isso é parte da cultura do Paulistano burguês, nós defendemos a raiz. Que é assim.
Talvez ali, no palco Anchieta soe em demasia, mas na vida vivida na periferia, a vibração é essa. O Rock é doido!

Bob Sousa – A dramaturgia de Jhonny Salaberg flerta com o melodrama, o folhetim e até mesmo com elementos do true crime. Como você trabalhou esses registros na direção para equilibrar humor, suspense e emoção sem perder a dimensão política da narrativa?
Naruna Costa – Foi um revistar as técnicas de teatro que aprendi no início da carreira, quando fazia Teatro de Costumes, dentro do projeto Ademar Guerra, ainda no contexto do teatro amador. Essa comedia faz parte da minha formação e, de alguma maneira, exige uma técnica que me foi apresentada nos meus primeiros passos de teatro. Além disso, um trabalho profundo de escolhas das estéticas marcantes do grupo, para incluir coisas que comunicassem com o publico, ainda que parte dele não conhecesse diretamente nossa história. Estudei muitos filmes, fui assistir peças que geralmente não fazem parte do meu repertório, para recuperar estruturas cênicas, me inspirar. O próprio Jhonny nos compartilhou uma filmografia interessante para pesquisa.
Mas teatro se faz ao vivo, no dia a dia dos ensaios. E, depois de um longo tempo de pesquisa do grupo, que passou por bibliografia, filmes, peças e até memes, muitos memes, nos encontramos para criar. E ainda bem que o grupo tem um elenco fortíssimo, que colaborou muito com a construção minuciosa das personagens e se dispôs a se jogar numa aventura gigantesca comigo e com toda equipe. Foi um processo que nos exigiu muito fisicamente. São muitas linhas dramatúrgicas. A encenação com uma geografia específica de gestos melodramáticos, cruzando com a linha musical que comenta e sugere muitas pontuações nas cenas, marcadas pela palavra que transborda na voz, mas que carrega memorias, afetos.. Tudo marcado. Tudo, devidamente colocado em função do caos que vai se tornando a convivência das personagens. Um caos orquestrado, geografado milimetricamente.
A gente ensaiou tudo no Espaço Clariô, com o cenário sendo levantado pelo Rager dia a dia e com a presença firme da iluminadora Zerlô, no ensaios, criando junto, levantando hipóteses dentro da construção de cada cena.
Como a gente acredita que um grupo de teatro deve ser.
Nada seria possível se não tivessemos uma equipe tão competente como também foi a direção musical de Naloana Lima, a direção de movimento de Castilho, a assistência de direção do Ailton Barros que permitiu que eu pudesse levantar todo o espetáculo, antes de ir, definitivamente para a cena.
Bob Sousa – A Casa do Norte apresentada no espetáculo é ao mesmo tempo comércio, centro cultural, arquivo de memórias e metáfora dos próprios grupos de teatro que resistem em seus territórios. Como essa relação entre espaço físico e espaço simbólico orientou suas escolhas de encenação?
Naruna Costa – Sabíamos que, diante de tudo que estávamos (e seguimos) passando com a ameaça de perder nosso espaço, diante da situação precária que se encontra a cultura e o teatro de grupo, ano após ano, na cidade e no Estado de SP, deveríamos não só denunciar, mas tentar traduzir a importância desses pontos na cidade. E a nossa Casa do Norte era a oportunidade de criar essa metáfora direta com os espaços culturais das quebradas que sim, nascem dentro de comércios, de quintais, bares.
Ali, também uma chance sutil de comentarmos nosso sentimento sobre as constantes ameaças contra nossas casas: O bar FECHA NUNCA! Usando de referência esses botecos comuns na região, a gente, de alguma forma, expressa e transborda nossa luta, numa faixa (brilhante) que traduz o sentimento de resistência que carregamos.

Bob Sousa – O espetáculo dialoga diretamente com montagens importantes da história do Clariô, como Hospital da Gente, Urubu Come Carniça e Voa!, Severina e Boi Mansinho e a Santa Cruz do Deserto. Como essas obras reaparecem em Casa do Norte e o que elas revelam sobre a identidade artística construída pelo grupo ao longo desses vinte anos?
Naruna Costa – Nós fazemos teatro negro, Bob. E sinto que, aca montagem, é preciso pensar o que nos falta contar. São muitas lacunas, muitas necessidades, muitas histórias e modos de vida que precisam ser compartilhados nas nossas cenas. E cada momento histórico exige um conteúdo, uma forma, um jeito de lutar. Nós vínhamos da grande ameaça de perder a nossa sede. Nosso espaço que há 20 anos é presença impactante no território de Taboão e região. Nessas duas décadas, assistimos de perto o sucateamento e a destruição de tantos espaços e grupo teatrais. Isso é muito triste e mais triste ainda é o apagamento que fica. Nós lutamos a vida toda, enquanto povo preto e periférico, para existir perante a sociedade, contra a invisibilização que nos mata. E, de repente, nos deparamos concretamente com a possibilidade do apagamento. Da fragilidade mesmo da nossa presença ali, na Rua Santa Luzia.
E, sem debater muito, decidimos que nosso revide seria pelo grito e não pela fala branda, seria pela alegria e não pela dor, pela exaltação e não pela homogeneização. Não queremos ser o outro, nem a repetição de nós mesmos. Queremos dizer quem somos hoje. Fortalecer nossa cultura.
E a cultura Brega é uma cultura que representa nosso povo, nossa periferia, faz parte da nossa formação, da nossa ancestralidade, da nossa forma de comunicação. E então, decidimos nos mostrar, com um tom à mais, exageradamente apaixonadamente.
Porém, visitar os outros espetáculos nos deu alicerces. Olhar nossa luta a respeito da trajetórias das mulheres negras, os homens periféricos, a cultura e as manifestações populares, as comunidades autossustentáveis, os cantos de trabalho, tudo isso fortaleceu a nossa trama e enriqueceu demais ao pontuar nossa história nos momentos marcantes como o momento “Eu Não Sou da paz’, ou tantos outros citados e celebrados, literalmente, como referência de um certo grupo de teatro independente. Poder falar da nossa comunidade, citar nomes de pessoas que marcaram nossas trajetórias, reverenciar outros coletivos e artistas, tudo isso é muito emocionante para nós.
Bob Sousa – Em um momento em que muitos espaços culturais independentes enfrentam dificuldades para permanecer ativos, qual é o papel do teatro de grupo hoje e que futuro você imagina para o Clariô a partir das questões levantadas por Casa do Norte.
Naruna Costa – O papel do teatro de grupo hoje e sempre (na minha opinião) é radiografar a cidade, de perto, fazer um teatro de acordo com o desejo de uma sociedade em que queremos viver, seja através da denuncia, da celebração, do resgate ou fortalecimento da história, das culturas e das humanidades. O teatro de grupo é um teatro político por natureza. A perspectiva de criar uma pesquisa a longo prazo, através de repertórios, constrói estéticas e memórias em torno da nossa cultura metropolitana. O teatro de grupo é o caminho para os avanços políticos voltados à cultura e não só. É um lugar de questionamento, de produção de pensamento, de debate e combate às estruturas que se mantem através da precarização das vidas comuns.
O futuro que eu imagino para o teatro de grupo é um futuro de luta, porem colhendo os frutos das sementes que plantamos. Quando nasceu o Grupo Clario de Teatro, também nasceram a Cia Os Crespos, Coletivo Negro, Inventivos, não muito depois, as Capulanas. Foi o momento em que ressurgiu o Teatro Negro Paulistano. Somos parte desta história e deixamos um legado, que desemboca nos coletivos negros de hoje, em dramaturgos e dramaturgas como o próprio Jhonny Sallaberg, em uma plateia que hoje, tem autoestima de ir ao teatro, porque sabe que “vai se ver”.
Então, apesar de toda a precarização, o que floresceu não morre. O futuro será de luta, mas teremos muito mais contingente.

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes (com orientação do Profº Drº Alexandre Mate). É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

