
Em Do Ventre à Cabeça, primeiro solo teatral da atriz e dramaturga paraense Luiza Braga, as histórias de sua avó abrem caminhos para uma experiência que ultrapassa o universo familiar e alcança os modos de vida das populações ribeirinhas da Amazônia. A partir dos ensinamentos dessa mulher, nascida às margens do rio, em Cametá, no Pará, a artista constrói uma dramaturgia que articula oralidade, cultura popular e práticas transmitidas entre gerações, revelando uma relação profunda entre natureza, espiritualidade e vida cotidiana.
Fruto de uma pesquisa iniciada em 2021, durante a realização do documentário Mariana: histórias de vida e encantaria, o espetáculo também se apoia no trabalho do Coletivo Filhos de Iracema, do qual Luiza faz parte. A convivência com mestras e mestres ligados ao T.E.U.C.Y., terreiro de Mina Nagô com oito décadas de existência, aproxima a criação teatral da Encantaria Amazônida e do Tambor de Mina, manifestações que atravessam o cotidiano e a identidade cultural da região.
Sob a direção de Victor Mendes, a investigação ganha uma forma cênica marcada pela delicadeza e pela manualidade. A atriz transforma objetos diante do público, enquanto a cenografia de Marisa Bentivegna evoca um rio como espaço de passagem e encontro. A música ao vivo de Gisah Preta, a voz de Mãe Rita D’Oxum e as projeções sobre o couro de um tambor compõem uma dramaturgia sensorial, na qual palavra, corpo, som e imagem ampliam as possibilidades de narrar.
Para Luiza, o solo representa um marco em sua trajetória como mulher amazônida e artista. Ao transformar experiências familiares em criação compartilhada, ela reflete sobre pertencimento, deslocamentos e os vínculos que permanecem mesmo à distância do território de origem. Nesta entrevista, a artista aborda o processo criativo, os desafios de levar a Encantaria à cena e o teatro como espaço de valorização de conhecimentos historicamente marginalizados.
Bob Sousa – Do Ventre à Cabeça parte das memórias e dos ensinamentos de sua avó ribeirinha. De que maneira essas histórias se transformaram em dramaturgia e deram origem ao seu primeiro solo?
Luiza Braga – Eu gosto de dizer que, antes de tudo, o espetáculo conta histórias de um lugar e de como se vive nesse lugar. A minha avó é uma mulher pequenina, que fala mansinho. E tem a liberdade – que segundo ela só a idade traz – de não precisar mais se preocupar com a opinião dos outros. Então, quando comecei a conversa sobre o espetáculo, tenho a sensação que abrimos um portal, uma fenda no espaço-tempo que me levou direto pra beira do rio onde ela nasceu e onde pariu seus seis filhos. Foram quase cinco horas de papo gravado em vídeo. Daí vieram histórias que, muito mais que lembranças familiares, eram conhecimentos transmitidos entre gerações, modos de cuidar, de curar e de existir, que guardam uma relação profunda com a ancestralidade amazônida. A dramaturgia foi se construindo a partir desse encontro entre memória pessoal e memória coletiva, entre as histórias da minha avó e as narrativas desse lugar – dessa Amazônia – onde o modo de vida se repete de palafita em palafita. Com isso quero dizer que as narrativas da minha avó, mais do que falar sobre ela ou sobre a nossa família, falam sobre como se vive na amazônia cabocla.
Então, a dramaturgia de “Do Ventre à Cabeça” nasce de um lugar íntimo, mas, principalmente, de uma forma de compreender o mundo em que a natureza, a espiritualidade, o corpo e a vida cotidiana estão profundamente conectados.
Transformar esse material no meu primeiro solo foi também um exercício de escuta e de coragem. Estar sozinha em cena me colocou diante da necessidade de encontrar, no meu próprio corpo, as vozes, os silêncios e as presenças que atravessam essa história. Não se tratava apenas de narrar as memórias, mas de permitir que elas ganhassem outras formas, imagens e sentidos no teatro. O espetáculo se tornou um gesto de reconhecimento do lugar de onde eu venho e uma maneira de compartilhar saberes que, embora nasçam de uma experiência particular, dialogam com questões como origem, pertencimento, cuidado e cultura popular.

Bob Sousa – A pesquisa do espetáculo começou em 2021, durante a realização do documentário Mariana: histórias de vida e encantaria. Como se desenvolveu o processo de investigação junto ao Coletivo Filhos de Iracema e às comunidades tradicionais de terreiro?
Luiza Braga – O Coletivo Filhos de Iracema é um coletivo que reúne artistas de diversas linguagens: teatro, dança, música, audiovisual. E somos todos fincados numa casa de Mina Nagô chamada T.E.U.C.Y: o segundo terreiro mais antigo do estado do Pará, com 80 anos de existência. A partir da reunião dessas pessoas das artes com mestras e mestres de cultura popular, pertencentes ao terreiro nasceu o coletivo. E acho que o desejo de desenvolver projetos culturais em coletivo veio a partir da percepção de que as experiências de cuidado que se processam na comunidade alteram a forma como nos colocamos no mundo. E, a partir dessas transformações, o fazer artístico também é atravessado e transformado.
Se eu mudo, se meu olhar para o mundo se transforma, a minha produção artística também se transforma. Daí nasceram os primeiros projetos e o Coletivo foi ganhando corpo.
O documentário “Mariana: histórias de vida e encantaria” foi o primeiro projeto audiovisual, onde eu assino direção e roteiro. Nele fizemos uma grande entrevista com Yá Gedeunsu, mãe de santo e guia maior do Coletivo, sobre o Tambor de Mina e sobre a cabocla Encantada Mariana – a padroeira do Tambor de Mina e da Encantaria Amazônida. Nessa conversa muitas histórias são trazidas, desde como Mariana se apresenta, suas principais cantigas, suas narrativas míticas, até casos de cura e bênçãos promovidos pela cabocla.
Já o Filhos de Iracema foi fundamental para pensar essa relação entre arte, memória e tradição. A pesquisa exigiu uma postura de escuta, respeito e reconhecimento dos saberes compartilhados, compreendendo que determinadas experiências não podem ser reduzidas a referências estéticas ou materiais dramatúrgicos. Existe uma dimensão coletiva, espiritual e comunitária que precisa ser considerada quando levamos essas tradições para a cena. Nesse percurso, o espetáculo foi encontrando seu próprio caminho, articulando a investigação documental à experiência teatral e buscando construir um diálogo sensível com os conhecimentos que inspiram sua criação.
Bob Sousa – A Encantaria Amazônida e o Tambor de Mina atravessam a narrativa, aproximando saberes indígenas, afro-diaspóricos e tradições populares. Que caminhos você encontrou para levar essas manifestações à cena?
Luiza Braga – A Encantaria Amazônida e o Tambor de Mina carregam histórias de resistência, pertencimento e continuidade, nas quais diferentes matrizes culturais se encontram ao longo do tempo. Para mim, levar essas referências à cena significa reconhecer a complexidade da formação cultural amazônida e valorizar os saberes que foram preservados e transmitidos, apesar dos processos históricos de apagamento e marginalização.
Então, na dramaturgia do espetáculo estamos contando histórias de um lugar. E, na Amazônia, muitos saberes codificados no Tambor de Mina e na Encantaria estão presentes no cotidiano da vida das pessoas. A relação com o rio, com a chuva, com as folhas. Nesta perspectiva, quando a personagem da avó ensina como preparar um banho de folha ela não está, necessariamente, ensinando a partir da cosmologia de uma religiosidade. Mas, fundamentalmente, está compartilhando uma prática cultural profundamente imbricada no cotidiano da vida das pessoas. A minha avó, enquanto mulher ribeirinha do interior do estado, promove no dia a dia dela práticas ancestrais de cuidado, de relação com as águas e com os bichos. Então, o Tambor de Mina e a Encantaria costuram toda a dramaturgia do espetáculo, mas sempre nesta perspectiva: falar sobre a Amazônia brasileira.
Na cena, propomos essa aproximação pela relação entre palavra, corpo, musicalidade, memória e presença. Busco uma linguagem teatral que permita que essas referências atravessem a experiência do público sem transformar a tradição em ilustração. Existe uma responsabilidade em lidar artisticamente com esses saberes. É um encontro entre a linguagem do teatro e conhecimentos que já possuem suas próprias formas de narrar, ensinar e produzir sentido.

Bob Sousa – A direção de Victor Mendes aposta na delicadeza e na manualidade, com objetos transformados diante do público e uma cenografia que remete a um rio. De que forma essas escolhas contribuíram para a construção da encenação?
Luiza Braga – A delicadeza e a manualidade propostas pelo Victor dialogam diretamente com a natureza da dramaturgia. O espetáculo parte de saberes que são transmitidos pela experiência, pelo gesto, pela observação e pelo contato entre gerações. Nesse sentido, a transformação dos objetos diante do público cria uma relação muito particular com o tempo da cena: aquilo que parece simples revela outros sentidos, assim como uma lembrança se modifica quando é revisitada e uma história ganha novos significados quando é contada. A materialidade dos objetos aproxima o público de uma dimensão artesanal da criação, em que fazer, lembrar e narrar se tornam ações interligadas.
A presença do rio como referência cenográfica também estabelece uma relação importante com o universo amazônida e com a ideia de travessia que atravessa o espetáculo. O rio pode ser caminho, território, fronteira e lugar de encontro; ele conecta comunidades, conduz histórias e participa da construção das identidades de quem vive às suas margens. Essa imagem amplia o espaço cênico para além de um lugar físico, criando uma paisagem poética na qual memória e imaginação podem coexistir. As escolhas da direção contribuem, para uma encenação que aposta menos na explicação e mais na sugestão, permitindo que os sentidos se construam na relação entre os elementos da cena e a imaginação do público.
Bob Sousa – A música ao vivo, a voz de Mãe Rita D’Oxum e as projeções sobre o couro do tambor ampliam a dimensão sensorial do espetáculo. Que relações você buscou estabelecer entre palavra, corpo, música e imagem?
Luiza Braga – Um corpo brincante, desde a palavra até a construção corporal das personagens é uma marca do espetáculo. A manualidade é o motor central de tudo que estamos fazendo. Todos os elementos de cena são construídos, em cena, por mim. A palavra não existe isolada do corpo, assim como a memória não se manifesta apenas pela narrativa verbal. Há lembranças que chegam pela voz, pelo ritmo, por uma imagem ou por um gesto que reconhecemos mesmo sem conseguir explicá-lo. A música ao vivo amplia essa dimensão, criando uma experiência em que o som não funciona somente como acompanhamento, mas como uma presença que dialoga comigo em cena e com a dramaturgia. A Gisah tem uma presença forte em cena e cheia de nuances com a encenação. A voz da Mãe Rita D’Oxum traz uma força própria para essa composição, aproximando a cena de uma tradição de oralidade na qual a voz é também veículo de memória, experiência e transmissão de saberes.
As projeções sobre o couro do tambor estabelecem outro campo de diálogo, fazendo com que imagem, matéria e som se encontrem em um mesmo espaço. O tambor, enquanto elemento material e sonoro, ganha uma dimensão visual que amplia a percepção do público e cria novas camadas de leitura. A escolha por projetar no couro do tambor, então, condensa alguns desejos: trazer as narrativas da encantaria para a cena através de um elemento fundamental para a tradição afro-indígena da Mina e também brincar com elementos que não estão apenas a serviço de uma narrativa linear, mas que produzem sensações. A relação entre palavra, corpo, música e imagem constrói uma dramaturgia sensorial, na qual o espectador é convidado não apenas a acompanhar uma história, mas a experimentá-la por diferentes vias de percepção.
Bob Sousa – O espetáculo também aborda migrações e pertencimento. O que essa travessia entre memória familiar, ancestralidade e experiência pessoal representa em sua trajetória como artista?
Luiza Braga – Acho que minha trajetória artística está absolutamente implicada com minha identidade de mulher amazônida. Neste sentido, transitar entre as memórias familiares e as tradições do meu lugar para construir “Do ventre a cabeça” é realmente um marco.
Acho que pensar sobre migrações não diz respeito apenas ao movimento entre territórios geográficos, mas também às transformações que acontecem quando nos afastamos de determinados lugares, histórias e modos de vida. O que levamos conosco? O que permanece no corpo, mesmo quando estamos longe? Como os conhecimentos recebidos das gerações anteriores continuam a existir em nós e se transformam ao longo do caminho? Essas questões atravessam o espetáculo e me permitem olhar para a memória não como algo fixo, mas como uma experiência viva, que se atualiza no presente.
Na minha trajetória artística, Do Ventre à Cabeça representa a possibilidade de transformar uma investigação íntima em criação compartilhada. O teatro se torna um lugar onde posso me aproximar das minhas raízes, reconhecer as histórias que me constituem e estabelecer um diálogo com outras experiências de vida. Ao mesmo tempo, esse processo amplia minha compreensão sobre o papel da arte na preservação e na circulação de conhecimentos que nem sempre encontram espaço nos discursos dominantes. Fazer esse solo é, para mim, uma maneira de construir pontes entre gerações, territórios e linguagens, reconhecendo que nossas histórias individuais também são atravessadas por histórias coletivas. É uma travessia que não busca necessariamente chegar a uma resposta definitiva sobre quem somos, mas abrir espaço para continuar escutando, lembrando e criando a partir daquilo que nos constitui.

Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes (com orientação do Profº Drº Alexandre Mate). É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

