
Em TIP (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo), na última apresentação no Teatro YouTube, em São Paulo, Milla Fernandez transforma a própria biografia em matéria cênica e faz da exposição um gesto estético radical. A experiência vivida como camgirl durante a pandemia aparece em cena como dispositivo para investigar os mecanismos de construção da imagem, do desejo e da validação social. Sob direção de Rodrigo Portella, a autoficção ultrapassa o campo do testemunho para alcançar uma dimensão simbólica que interroga o lugar da mulher, da atriz e da mercadoria em uma sociedade orientada pelo olhar.
A narrativa visual da montagem nasce justamente dessa tensão entre revelar e ocultar. Portella elimina qualquer excesso cenográfico e aposta em uma cena despojada, onde a arquitetura do próprio teatro é incorporada à dramaturgia. A retirada dos tradicionais panos pretos expõe as entranhas da caixa cênica e rompe com a ilusão realista. O espectador não é convidado a acreditar em uma representação, mas a acompanhar a construção de uma memória. O palco se torna um espaço de exposição, quase uma arena de vulnerabilidade, onde a atriz se oferece ao olhar público ao mesmo tempo em que questiona esse olhar.
O elemento visual mais marcante da encenação está nos longos tapetes vermelhos que atravessam o espaço. Associados tradicionalmente ao glamour, ao sucesso e à celebridade, eles funcionam aqui como uma imagem ambígua. Ao mesmo tempo em que evocam o sonho da ascensão e do reconhecimento, também sugerem um percurso de sacrifício. O vermelho não remete apenas ao luxo, mas ao risco, à ferida e ao incêndio anunciado no próprio título da obra. A cada deslocamento de Milla sobre essa superfície, a cena parece reafirmar que o caminho da visibilidade é também o caminho da exposição extrema.
Essa economia de elementos fortalece a potência do corpo da performer como principal operador visual da encenação. Milla ocupa o palco sem escudos, transitando entre a comicidade, a ironia e a dor. Sua presença produz imagens contraditórias que desafiam leituras simplistas sobre o universo do entretenimento adulto. Não há glamourização nem condenação moral. O que emerge é a complexidade de uma mulher que negocia constantemente os limites entre autonomia e vulnerabilidade, desejo e necessidade, liberdade e mercado.
O figurino de Karen Brusttolin desempenha papel fundamental nesse processo. Ao evitar os clichês associados à erotização feminina, a criação visual recusa a iconografia fácil do universo pornô. Em vez de reforçar fantasias previsíveis, o figurino desloca o foco para a subjetividade da performer. O interesse da encenação não está em reproduzir imagens de consumo sexual, mas em desmontá-las, revelando suas engrenagens e suas consequências emocionais.
A iluminação concebida pelo próprio Rodrigo Portella acompanha essa lógica de depuração. Longe de buscar efeitos espetaculares, a luz opera como ferramenta de revelação. Ao destacar a materialidade do espaço e a presença física da atriz, constrói atmosferas que oscilam entre a intimidade da confissão e a exposição pública do espetáculo. É uma luz que não esconde as imperfeições nem suaviza as contradições. Pelo contrário, torna-as visíveis.
Outro aspecto relevante da visualidade é a integração da trilha sonora de Federico Puppi e Leonardo Bandeira. A predominância percussiva cria uma pulsação constante que aproxima a narrativa de um estado de urgência. A música não ilustra as ações, mas produz tensão, como se cada relato fosse acompanhado pelo ritmo acelerado de alguém tentando sobreviver. Quando Milla assume o saxofone em cena, a sonoridade ganha uma camada autobiográfica adicional. O instrumento deixa de ser mero recurso musical para se transformar em extensão do corpo e da memória da performer.
Também merece destaque o trabalho de vídeo design, utilizado com discrição e inteligência. Em uma obra que discute a cultura da imagem e os ambientes digitais, seria fácil cair na tentação de uma visualidade excessivamente tecnológica. A encenação evita esse caminho. O universo virtual permanece como fantasma, como presença invisível que atravessa os relatos sem dominar a cena. Essa escolha preserva o protagonismo da atriz e reforça o caráter humano da experiência narrada.
O maior acerto visual de TIP talvez esteja justamente em sua recusa ao espetáculo fácil. Em vez de reproduzir as imagens do desejo vendidas pelas plataformas digitais, a montagem cria um espaço para refletir sobre elas. O palco se transforma em território de confronto entre a imagem que se oferece e a pessoa que existe por trás dela. O que está em jogo não é apenas a experiência de uma camgirl durante a pandemia, mas a condição contemporânea de indivíduos que aprendem desde cedo a performar versões de si mesmos para conquistar atenção, aprovação e pertencimento.
Ao narrar a disputa por visibilidade entre centenas de salas virtuais de camgirls, Milla Fernandez estabelece um diálogo contundente com a própria realidade do trabalho artístico. A lógica das plataformas digitais reproduz, em escala ampliada, a dinâmica dos testes de elenco, nos quais atrizes competem permanentemente pela atenção de diretores, produtores e espectadores. Em ambos os universos, a sobrevivência depende da capacidade de destacar-se em meio a uma multidão de rostos, transformando carisma, aparência, talento e até vulnerabilidade em ativos de mercado. A encenação evidencia como essas estruturas, aparentemente distantes, compartilham mecanismos semelhantes de exposição, validação e descarte. O espetáculo sugere que a camgirl e a atriz habitam espaços atravessados pela mesma pergunta: o que é preciso oferecer de si para ser escolhida? Ao aproximar essas duas experiências, TIP amplia sua reflexão para além do universo do entretenimento adulto e revela as engrenagens de uma sociedade em que a visibilidade se tornou uma forma de trabalho.
A imagem da fogueira que atravessa o título do espetáculo ecoa a longa história de perseguição às mulheres que ousaram desafiar os limites impostos por sua época. Se antes as “bruxas” eram queimadas por transgredirem normas religiosas, morais e sociais, hoje outras formas de julgamento público continuam operando sobre os corpos femininos. Em TIP, Milla Fernandez estabelece uma ponte simbólica entre essas mulheres historicamente condenadas e a mulher contemporânea que decide expor sua própria trajetória, assumindo o risco da crítica, da incompreensão e do estigma. O gesto de “atirar-se ao fogo” antes que a queimem transforma-se em ato de autonomia: em vez de aguardar a condenação alheia, a artista toma para si a narrativa de sua experiência. A fogueira deixa de ser apenas instrumento de punição e converte-se em metáfora de transformação, um espaço onde as cinzas do julgamento podem dar origem a uma identidade reconstruída a partir da própria voz.
Ao final, a imagem mais poderosa da montagem não é a do erotismo nem a da exposição, mas a do fogo sugerido pelo título. Milla Fernandez, sentada na beira do palco, faz da cena um mergulho voluntário nas próprias contradições. Ao lançar-se às chamas da memória, transforma a autoficção em ato de resistência. E, nesse gesto, produz uma visualidade que ilumina não apenas sua trajetória pessoal, mas também as fissuras de uma sociedade que insiste em medir o valor das pessoas pela capacidade de serem vistas.
Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

