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Literatura no palco

Publicado em: 02/10/2017 |

O romance “Festa no covil”, de Juan Pablo Villalobos – tema justamente da última coluna de Ivam Cabral de 5 de julho de 2013, aqui no Portal da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco –, é também peça de teatro, atualmente em cartaz no Espaço Beta do Sesc Consolação, todas as quintas e sextas-feiras, às 20h, até 30 de agosto.

Num monólogo de 60 minutos, com direção de Mika Lins (que, juntamente com Ana Saggese, adapta a obra ao palco), o espetáculo sublinha o talento de Marcos de Andrade como ator. A cenografia enxuta e sempre competente de Andre Cortez lembra um playground feito de lego, em que pequenas modificações alteram o conjunto! A luz de Caetano Vilela abre espaços inesperados no palco, aumentando-o ou diminuindo-o, fazendo metáfora ao mundo de Tochtli – uma criança que nos narra a história, enfiada numa trama claustrofóbica.

O narrador está como que confinado numa clausura. E é na construção de seu discurso que Marcos de Andrade esboça a personagem. Sua fala é sombra de outra voz, da qual só conhecemos fiapos e rastros. Ele repete o discurso dos adultos (como todas as crianças fazem), buscando traduções, sublinhando seus enigmas, produzindo teorias e desenhando uma geografia e uma história particulares a respeito do mundo.

A pulsão de investigar está posta em marcha! As inquietações que fazem da infância um tubo de ensaio de pesquisas sobre os enigmas primeiros – que resultam em edifícios teóricos impressionantes, dando conta de elaboradas parábolas sobre nossa gênese. As crianças são, como se sabe, os primeiros cientistas, filósofos e poetas.

Toda a peça é feita exclusivamente de relatos de acontecimentos, mais ou menos distantes, justamente como é a infância para nós: remota e colada, a um só tempo, a todo gesto nosso de cada dia.

Com seu depoimento, Tochtli nos faz saber dos ecos de fatos do exterior: esse território estrangeiro permanentemente desejado e inacessível para a criança.

E é violência o que ele recolhe do mundo externo: é isso o que ele ouve dos adultos. E algumas de suas compreensões, atravessadas pela ingenuidade, resultam engraçadamente equivocadas; às vezes, quase doces.

As sutilezas desse dicionário infantil que vai se estabelecendo são expressas nos gestos mínimos com que o ator veste a personagem. Fisicamente, em seu corpo, apenas mãos e dedos falam. Além da pontaria de fazer o corpo alcançar o alvo, seu modo de narrar (voz e entonações, submetidas a uma fantástica economia) conclui o desenho da criança.

Talvez os únicos momentos em que o espetáculo corre o risco de decair (por excesso, numa atuação onde, felizmente, economia é o lema) sejam as poucas vezes em que o ator abandona o relato distanciado para manifestar uma dor presente. Pois sua aposta está na eficácia de tocar o espectador com uma, por assim dizer, “voz passiva”: dando notícias do que se passa no mundo lá fora, como as sombras da caverna de Platão. É essa delicadeza justamente que potencializa o seu trabalho. Ele (tanto quanto o personagem) está submetido a forças que o antecedem e determinam. Donde a voz passiva.

Há um choque de línguas entre o adulto e a criança, diz a psicanálise húngara! Choque entre a paixão e a ternura. A linha que as liga nunca é horizontal. Entre elas, está posta desde o princípio uma assimetria fundamental. Línguas desencontradas!

A linguagem (genitalizada) dos adultos excita e traumatiza a criança, impossibilitada de assimilar ou de participar das cenas de comércio afetivo do mundo adulto, às quais ela assiste calada: os enigmas que seus pais veiculam excluem-na. Eis o trauma! Ponto de nascimento do segredo e do proibido. E fonte de criação no campo das artes.

E aqui talvez não importe tanto que o universo violento de Villalobos carregue suas especificidades circunstanciais: as do mundo do narcotráfico, pervertendo a moral e os valores mais essenciais. Distorcendo éticas e mundos. Pois, independentemente disso, a criança às voltas com os traumas inevitáveis é o tema profundo dessa obra: aqueles enigmas que exigem do sujeito, desde cedo e desde sempre, um árduo trabalho de digestão.

Metabolização das alteridades. Processamento das porções heterogêneas que compõem o universo e que nos interrogam sem descanso. Tarefa hercúlea! Os dispositivos de simbolização que possuímos são sempre precários, frente às forças turbulentas do real. Desamparo!

E, assim, nessa adaptação para o teatro, as qualidades do romance da literatura mexicana chegam também ao palco. O que nos permite dizer, com Ivam Cabral: “Villalobos constrói uma obra aterradora”! E fecunda!

Pós-escrito: Em nome da verdade! A opção pelo fragmentário, tão honesta com nossa realidade, que acompanha o espetáculo passo a passo, acaba sofrendo no final por – o que parece – uma tentativa de síntese. Como se a peça desejasse terminar “redonda”.  Fato que, entretanto, não compromete esse interessante exercício de teatro a que Mika Lins se dedica.