Skip to content Skip to footer

SP Escola de Teatro entrevista a artista sueca Carima Neusser

No final de fevereiro, a SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco recebeu a visita de dois artistas suecos incríveis: Per Hüttner e Carima Neusser.

A uma plateia lotada na Unidade Roosevelt, eles apresentaram duas performances distintas que fundiram teatro, performance, música, projeções, artes visuais e interações com o público: “Limites” e “Cocktail”.

Neusser apresentou “Cocktail”, onde preparou quatro tipos de bebidas para o público, sendo cada bebida está ligada a um período específico da história da dança (por exemplo, a corte de Luís XIV, o Butoh japonês, etc.). Enquanto servia cada bebida de forma coreográfica, ela falava de maneira pessoal sobre a era coreográfica e projetava imagens sedutoras que sublinham seu discurso.

Hüttner criou conexões entre texto, som e visual. Ele apresentou uma performance audiovisual, onde utilizou gráficos 3D hipnóticos em conjunto com sua música. Tudo se funde em um todo artístico onde som e imagem interagem perfeitamente. A música foi inspirada em três poemas curtos do escritor argentino Jorge Luis Borges.

A residência artística em São Paulo foi organizada pela área de relações internacionais e parcerias da SP Escola de Teatro. A residência e as performances no Brasil são produzidas pelo Vision Forum e a viagem ao Brasil é financiada pela Helge Ax:son Johnsons stiftelse e pela Kulturbryggan em Estocolmo.

Performance internacional “Cocktail” de Carima Neusser. (20/02/2026) | Foto: Clara Silva.

Leia a entrevista completa com Carima Neusser:

Carima Neusser (www.carimaneusser.com) é coreógrafa e performer baseada em Estocolmo. Ela apresentou performances em palcos, museus e galerias na Europa, Oriente Médio, América do Norte e América do Sul — com destaque para a documenta fifteen em Kassel, em 2022. Recentemente, apresentou a obra “The Liminal” no Weld, em Estocolmo, que foi muito bem recebida. Sua paixão pelo Brasil despertou durante uma viagem de trabalho em 2018.

Seu trabalho frequentemente une a dança a áreas como neurociência e arquitetura. Como essas disciplinas influenciaram os movimentos específicos ou a “narrativa não-verbal” que você desenvolveu para esta performance?

Em meu trabalho coreográfico, interessa-me explorar a relação entre dança e arquitetura. Crio obras para a “caixa preta” (teatro tradicional), mas também realizo trabalhos site-specific em espaços alternativos como minas desativadas, igrejas consagradas, museus e outros. Diferentes configurações arquitetônicas e espaços de performance permitem formas distintas de explorar minha prática coreográfica, oferecendo oportunidades de me envolver com o público de maneiras variadas.

Desenvolvi “Cocktail” e seus movimentos corporais de modo que se adaptem ao espaço específico onde a obra é apresentada. Não se trata de um ajuste comum que se faz ao performar em um espaço e depois em outro; em vez disso, utilizo a arquitetura do local como uma ferramenta para explorar diferentes tipos de movimentos no palco. Por exemplo, desenvolvi e reuni um conjunto de movimentos e ações que funcionam como um “roteiro de movimento aberto”, do qual escolho dependendo de como o espaço está organizado.

Dessa forma, a arquitetura me oferece tanto possibilidades quanto uma quantidade considerável de restrições. Em “Cocktail”, raramente me apresento no centro do palco, mesmo que a disposição do público seja a tradicional frontal. Em vez disso, utilizo outros espaços da sala: as paredes, escadas, entrando e saindo de portas, entre o público, em cadeiras e assim por diante.

Diferente de meus trabalhos anteriores, onde a coreografia é fixa, nesta obra desenvolvi a performance de modo que ela se baseie em ferramentas de improvisação. Isso significa que a configuração arquitetônica e a interação com o público dão origem a certos movimentos durante a apresentação. É como se fosse preciso ouvir atentamente o que o espaço e o “aqui e agora” estão oferecendo em um determinado momento, e utilizo minha experiência de palco para navegar e tomar decisões a partir disso. Ou melhor, quem faz isso é minha personagem, Sasha Diamond. O roteiro da performance diz: “O que Sasha Diamond faria agora?”. Eu possuo uma estrutura de movimentos e um cronograma para a performance — que funciona como uma âncora de suporte para a personagem —, mas a apresentação em si me dá a possibilidade de desviar da coreografia fixa em resposta ao público e ao espaço.

Performance internacional “Cocktail” de Carima Neusser. (20/02/2026) | Foto: Clara Silva.

Nesta apresentação, você prepara drinks para o público. Como essa ação ritualística ajuda o público a se conectar com as histórias “liminares” ou invisíveis que você tenta contar?

A performance transita dentro do espaço liminar da ambiguidade. Nem eu, nem o público sabemos como a apresentação se desenrolará. Dependemos uns dos outros para criar a performance. Um exemplo do conceito de liminalidade e do seu significado: uma pessoa passa por uma jornada mental e emocional, em um estado de transição de um ponto da vida para o outro — por exemplo, um adolescente que passa de menino a adulto. Durante essa transição, regras e preconceitos são virados de cabeça para baixo, e a pessoa encontra-se em um estado de ambiguidade.

Penso na performance como um espaço liminar onde se aplicam outras regras que não as do cotidiano. Entramos todos juntos nesse espaço. Ao longo da apresentação, brincamos com as regras de como agir em um espaço de performance. Quando eu, como performer, estou indo longe demais? O quanto o público pode interagir? Até onde devemos ir? Nós ousamos? O que aconteceria? Além disso, ao servir coquetéis de forma ritualística, a performance reforça a ideia de que o ato de beber pode servir como uma via de comunicação com partes ocultas de nós mesmos e com espíritos. Convida-nos a percorrer uma jornada juntos e a entrar em outro estado de ser. É difícil descrever exatamente o que acontece durante a performance, mas, ao servir os coquetéis, a fronteira entre público e performer torna-se borrada. Os drinks tornam possível uma experiência coletiva e interativa. Cria-se um ciclo de feedback (feedback loop) entre o performer e o público. Reagimos e interagimos diretamente uns com os outros e as coisas começam a acontecer.

A liminalidade também pode se referir a comportamentos que ocorrem no limite do que é aceito em determinada sociedade. Por exemplo, um ladrão que rouba é um marginalizado, mas, por outro lado, também faz parte da sociedade. A performance visa trabalhar com ações e comportamentos que estão no limite do que é socialmente aceito. Passo por diferentes estados corporais e emocionais, ações e movimentos obscenos; estimulo as pessoas a beberem os coquetéis mesmo quando dizem não ou hesitam. O performer atua, portanto, no limite, em um espaço liminar entre ser o anfitrião que cuida e compartilha histórias e, ao mesmo tempo, quebra regras e vai um pouco além. Juntos, expandimos as fronteiras; é uma experiência coletiva e é aqui que as histórias ocultas ganham forma e o espaço liminar nasce: no sentido de que transgredimos — tudo no espírito de Dionísio, o deus do caos.

Performance internacional “Cocktail” de Carima Neusser. (20/02/2026) | Foto: Clara Silva.

Como seu trabalho regular no Brasil e sua recente residência no México mudaram sua perspectiva sobre como o corpo humano processa e comunica narrativas culturais?

O trabalho que tenho realizado ultimamente tanto no México quanto no Brasil é uma continuação de uma pesquisa coreográfica que iniciei na Europa há alguns anos. Questiono como eu e meus colaboradores (dançarinos com quem trabalho) definimos certas normas culturais e histórias sobre o corpo, seus movimentos e processos, e como podemos quebrá-las ou alterá-las através de nossos próprios movimentos.

Para fazer isso, precisei me afastar da história da dança ocidental e buscar em outros lugares. Sou muito inspirada pelo coreógrafo Tatsumi Hijikata, fundador do Butoh, e em como sua dança foi desenvolvida como uma resposta às narrativas culturais que estavam sendo moldadas no Japão durante sua vida. Seu trabalho corporal foi uma resposta direta às normas estabelecidas na sociedade, a como nossa compreensão de nossos corpos é moldada por essas ideias, e também a como certos valores são atribuídos ao corpo e aos seus movimentos em uma cultura específica.

Como coreógrafa ocidental, busco primeiro observar como o corpo ocidental é moldado e valorizado em nossa sociedade. Viajar e desenvolver o trabalho no Brasil e no México me traz novas percepções tanto da minha própria cultura quanto novas perspectivas importantes que são somadas à pesquisa ao aprender com as culturas mexicana e brasileira. Foi muito diferente realizar o trabalho no México e no Brasil. O público reage de forma distinta ao que faço e digo. Isso torna ainda mais claro que temos referências diferentes, narrativas culturais diferentes que carregamos dentro de nós.

Performance internacional “Cocktail” de Carima Neusser. (20/02/2026) | Foto: Clara Silva.

Quais são suas reflexões sobre o sistema pedagógico da SP Escola de Teatro e o trabalho da Escola durante sua visita a São Paulo?

Assim que passo pelas portas e entro na Escola, sinto uma sensação de abertura e ludicidade ao meu redor e dentro de mim. A Escola parece focar na experimentação e ter uma atitude aberta em relação ao que a arte pode ser e o que ela pode fazer. Isso, naturalmente, afeta a mim e ao trabalho que estou apresentando na Instituição.

Antes de tudo, sou muito grata por ter sido convidada de forma tão calorosa para trabalhar na SPET. A Escola não parece controlar cada detalhe minucioso, mas sim permite que pessoas com diferentes visões e práticas formem a vida e o conteúdo da escola. Para mim, isso dá a impressão de que o trabalho artístico e pedagógico vem em primeiro lugar. Valoriza o fazer artístico e a ideia de que a arte precisa ser livre e diversa. Significa que é um lugar para estudantes e artistas testarem coisas novas, descobrirem e trocarem ideias de uma maneira muito mais plural e livre. Isso, na minha experiência, é raro em muitas instituições de arte hoje em dia.

Sinto que alunos, público, artistas convidados e professores são vistos e respeitados em suas diferenças (o que significa que todos podem ser quem são), em vez de tentar encaixar todos em uma categoria, como sinto que acontece em universidades na Europa, por exemplo. Também tive a impressão de que os estudantes da Escola assumem responsabilidades e estão muito envolvidos nos diferentes aspectos do trabalho geral da instituição. Em outras palavras, a SPET parece focar muito em estruturas de trabalho coletivo, o que acredito ser muito importante na criação artística e na formação de comunidades que podem se espalhar dentro e fora da Escola.

Inscreva-se em nossa newsletter