A passagem do grupo canadense Talk Is Free Theatre pela SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco não poderia ter sido diferente: um grande sucesso.
Rapidamente, as três sessões da peça “Cock” esgotaram, com muitas pessoas na porta esperando por um ingresso sobrando. A residência artística na Escola teve apoio do Ontario Arts Council.
Nos dias 2, 3 e 4 de abril, o grupo baseado em Barrie, Ontario, apresentou a comédia de sucesso do dramaturgo britânico Mike Bartlett.
A dramaturgia é sobre John, um homem gay, que está em um relacionamento com seu parceiro há sete anos. Mas, quando ele conhece e se apaixona por uma mulher, é forçado a contemplar os limites de sua identidade e decidir o que realmente deseja para seu futuro.
O espetáculo teve direção de Dylan Trowbirdge, assistência de direção e design de som de Nolan Moberly, produção de Jeff Braunstein (gerência) e Kathleen Black (design) e no elenco Aidan deSalaiz, Michael Torontow, Tess Benger e Kevin Bundy.

“O grupo canadense Talk Is Free Theatre tem sólida carreira internacional, com turnês na África, Ásia e Europa. O espetáculo ‘Cock’, que apresentaram gratuitamente na Escola, foi sucesso de público e crítica no West End londrino. São oportunidades imperdíveis para os nossos estudantes e o público em geral para conhecer outras estéticas teatrais”, analisa Marcio Aquiles, Assessor de Relações Internacionais e Parcerias da SP Escola de Teatro.
Já Gustavo Ferreira, Coordenador de Extensão Cultural e Projetos Especiais da Instituição, comenta: “A vinda do Talk Is Free Theatre reforça a importância da SP Escola de Teatro como um espaço que recebe e apresenta trabalhos de grupos relevantes da cena internacional. É um encontro que fortalece a nossa atuação no campo artístico e amplia o diálogo com o público e os estudantes.”
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Leia a entrevista completa com o grupo:
A TIFT é conhecida por ser bastante aventureira. Como foi a experiência de trazer Cock para São Paulo e o que você achou da energia aqui na Escola?
ARKADY SPIVAK (Produtor Artístico): A SP Escola de Teatro foi a parceira ideal para Cock. Nosso trabalho imersivo prospera fora das estruturas institucionais convencionais, onde uma energia de base permite uma troca mais autêntica, imediata e duradoura entre artistas e público. Esse espírito está muito vivo na Escola.
O que mais nos impressionou foi o nível de engajamento. O público não veio apenas para assistir, mas para participar ativamente de uma investigação compartilhada sobre as questões de identidade, desejo e expectativas sociais da peça. Esse tipo de abertura é essencial para o trabalho imersivo.
A Escola em si parece diferente de qualquer outra que já encontramos. Existe uma disposição para desafiar estruturas, questionar normas e criar espaço para o risco. De muitas formas, isso espelha o que Cock faz como obra e o que a TIFT busca como companhia. Tudo pareceu um raro alinhamento de o quê, quando, onde, com quem, para quem — e, mais importante ainda — por quê.
Já que a TIFT se especializa em reimaginar obras, qual foi a principal centelha ou o “pulo do gato” por trás desta encenação específica da peça?
DYLAN TROWBRIDGE (Diretor): A inspiração para a encenação surgiu de um impulso de honrar o que Cock é em sua essência: uma peça sobre um amor transcendente, exposto e imensurável; e uma batalha crua, íntima, verbalmente violenta e profundamente pessoal. Nossa missão foi teatralizar isso da maneira mais imediata e eletrizante possível.
Nossa investigação sempre nos levava de volta à proximidade. Nossa produção situa o público perigosamente perto, cercando a ação como espectadores em um clube da luta clandestino. Eles respiram o mesmo ar que os personagens em seus momentos de maior exposição — testemunhando a alegria eufórica e a dor incapacitante a poucos centímetros de distância.
Se esses personagens estão vivendo em um estado de nudez emocional — se estão completamente expostos — então o que acontece quando o público é trazido para esse mesmo espaço? O grande teatro deve abraçar as qualidades que tornam essa linguagem única: proximidade, vivacidade, intimidade.
Nossa produção experimenta ousadamente com esses elementos. Construímos uma encenação que otimiza a exposição, a intensidade e a imediação — onde nada é suavizado, e cada mudança, cada hesitação, cada momento de conexão ou ruptura é sentido em tempo real. O público não está apenas assistindo à experiência — eles estão vivendo e respirando dentro dela.
Porque quando os atores estão totalmente expostos, algo extraordinário acontece. O trabalho ganha vida de uma forma diferente — mais perigosa, mais elétrica, mas também mais humana. E isso pareceu a maneira mais verdadeira e, em última análise, a mais emocionante de dar vida a esta peça.
Qual foi a parte mais desafiadora (ou gratificante) de dar vida ao seu personagem nesta produção encenada no Brasil?
AIDAN DESALAIZ (Ator, interpretando John): O aspecto mais desafiador de atuar em São Paulo — que rapidamente se tornou o mais gratificante — foi a maneira como os sons da rua invadiam o espaço da performance. A vida urbana no Brasil é tão pulsante que ela se infiltrava no mundo da nossa peça.
Nós absorvemos esses sons, e eles acabaram elevando e moldando a vida que acontecia no palco. A música, as risadas, a alegria, tudo alimentava o universo do nosso espetáculo, e não havia divisão, não havia separação. Isso nos trouxe plenamente para cada momento, e foi lindo!
A peça “parece” diferente quando você a encena para um público brasileiro em comparação ao Canadá ou ao redor do mundo?
AIDAN DESALAIZ : A peça realmente parece diferente dependendo da cidade em que estamos nos apresentando. Nós nos esforçamos para estar plenamente vivos em cada momento em que estamos no palco. Em nossa produção imersiva, o público é mais um personagem na história.
Cada ser humano traz suas próprias bagagens e pontos de vista para o universo do espetáculo, e é isso que torna cada apresentação diferente e viva. As diferentes reações (risos, suspiros) que o público brasileiro trouxe nos desafiaram a vivenciar a peça de maneiras novas e interessantes. É uma relação fascinante e esclarecedora!

