
Entre o teatro e a literatura, a escrita de Priscila Gontijo se constrói como um território de tensão entre lucidez e delírio. O ensaio fotográfico que acompanha esta entrevista, realizado no Teatroiquè, reforça simbolicamente essa travessia entre a cena e a palavra, dois campos que a autora habita com singularidade ao longo de sua trajetória.
Em seu romance de estreia, Peixe Cego, Priscila apresenta Irina, uma personagem deslocada na paisagem urbana de São Paulo, que sonha com Moscou enquanto atravessa as contradições afetivas, profissionais e existenciais de um mundo marcado pelo simulacro. Entre referências à literatura russa, ao teatro e à cultura contemporânea, a narrativa investiga os vazios, as inquietações e os desejos de pertencimento que atravessam a experiência humana.
Fortemente influenciada por autores como Dostoiévski e Nelson Rodrigues, Priscila transforma o absurdo cotidiano em matéria literária e dramatúrgica. Sua produção, marcada pelo humor melancólico, pela crítica social e pela atenção às zonas limítrofes entre sanidade e loucura, revela uma artista interessada em compreender as fissuras do presente.
Escritora, dramaturga, roteirista, pesquisadora e fundadora da Companhia da Mentira, Priscila construiu uma obra que transita entre diferentes linguagens sem abrir mão da complexidade estética e da reflexão sobre a condição contemporânea. Nesta entrevista, ela fala sobre seu processo criativo, a influência da literatura e do teatro em sua formação, a experiência no CPT de Antunes Filho e o relançamento de Peixe Cego, romance que retorna ao público dez anos depois de sua primeira edição, reafirmando sua potência e atualidade.
Bob Sousa – Em Peixe Cego, Irina vive em um constante estado de deslocamento e não pertencimento. Como essa sensação de “não lugar” dialoga com a experiência contemporânea nas grandes cidades?
Priscila Gontijo – Irina realmente não pertence a lugar nenhum. Nem sua casa é sua casa: ela está sempre sendo despejada, devendo aluguéis, fazendo bicos, sendo demitida. Não tem nenhuma âncora. A única terra à qual consegue se agarrar com seus pés tortos, repletos de joanetes, é a terra da imaginação, da grande Mãe Rússia. Ela não se sente em casa nem em seu próprio país e, por isso, idealiza outro, que conhece apenas pela literatura.
Peixe cego narra alguns dos paradoxos deste século por meio dessa e de outras vozes dissonantes. Durante sua deambulação pela cidade em busca de alguém que a acompanhe — afinal, o concurso que ganhou para ir a Moscou exige um acompanhante — Irina encontra diferentes personagens, sempre à margem. São pequenas existências espalhadas por diferentes regiões de São Paulo, que revelam como espaços periféricos do mundo globalizado reinventam a cidade.
Essas criaturas, mais do que esquecidas ou vencidas, vagam por um espaço fluido, submerso. Trata-se de personagens movediças, habitantes de territórios instáveis e não convencionais.
Bob Sousa – A presença da literatura russa, especialmente de Fiódor Dostoiévski, é muito forte no romance. De que maneira essas referências moldaram a construção da protagonista e da própria linguagem do livro?
PG: A literatura russa se faz presente no romance a partir do imaginário de Irina, que sempre teve como referência os grandes romancistas russos do século XIX por influência do pai, tradutor de russo. O ponto de vista que narra a história está contaminado pelos espectros das antigas xilogravuras, pela densidade emocional das personagens eslavas e por sua inadequação ao mundo.
Em relação à linguagem, alguns conceitos que Bakhtin identificou na obra dostoievskiana aparecem ali não como influência direta, mas como eco: o dialogismo, o inacabamento, características de uma prosa hesitante, marcada pela interrupção e repetição e, principalmente, pelas contradições presentes tanto nas personagens quanto nas relações humanas.
Bob Sousa – O título do romance nasce de uma provocação de Nelson Rodrigues. Como essa imagem do “peixe cego” atravessa a narrativa e se desdobra na trajetória de Irina?
PG: “O brasileiro é um peixe cego. Tem luz própria.” A frase de Nelson surge como o guia de um roteiro que Irina escreve enquanto deambula. Ela quer ir para Moscou. Esse é o seu sonho de infância.
Quando ganha um concurso de supermercado cujo prêmio é uma viagem para a Rússia, descobre que precisa levar um acompanhante. Mas ela não tem com quem dividir o prêmio: ninguém quer ir, ninguém pode, nem mesmo o pai. Como um sinal de sorte, Irina recebe de presente um peixe cego, que batiza de Míchkin, em referência ao príncipe de O idiota, de Dostoiévski. Esse pequeno ser aquático torna-se um talismã para a realização do sonho.
O peixe evoca tanto a caminhada de Irina pela cidade em busca de um parceiro de viagem quanto a jornada de alguém que deseja alcançar um país distante sem ter conseguido criar vínculos profundos no lugar em que nasceu. Como Irina, ele bate as barbatanas com rapidez, na escuridão da gruta, mas continua dando cabeçadas nas pedras do percurso.
Bob Sousa – Sua obra transita entre o teatro e a literatura. Quais são, para você, as principais diferenças no processo criativo e na relação com o público entre essas duas linguagens?
PG: O processo criativo difere bastante, inclusive no ritmo da escrita. O texto teatral, ao menos para mim, nasce de forma veloz, quase sem espaço para pausas. Além disso, existe a leitura com a equipe, que inevitavelmente interfere no resultado final, porque o melhor termômetro do texto teatral é o ator.
Já o romance exige mais tempo de elaboração, maturação e descanso entre as revisões. Pode levar anos. Exige também longos períodos de solidão. Na dramaturgia, mesmo quando se escreve sozinho em casa, trata-se sempre de um trabalho coletivo.
Há ainda a questão da recepção. O público não perdoa: você vê ali, ao vivo, se o texto chega ao espectador ou não. Já cada leitor lê no seu próprio ritmo e em um espaço reservado, não coletivo. O leitor é um mistério. O espectador é uma certeza. Nelson dizia que o que estraga o teatro é a plateia.

Bob Sousa – Em seus textos, há uma recorrente exploração do absurdo que emerge do cotidiano. Como você identifica esse absurdo na realidade e o transforma em material artístico?
PG: A realidade é profundamente absurda. Basta pensar no nascimento, na morte, na experiência de habitar um corpo. Gerar uma criança dentro de si, ver uma cabeça surgir do próprio corpo, envelhecer, adoecer, desaparecer: tudo isso é, em alguma medida, absurdo.
O que faço nos meus textos não é inventar o absurdo, mas evidenciar algo que já está presente no cotidiano e que muitas vezes passa despercebido. A literatura apenas desloca levemente o olhar para que possamos enxergar o estranhamento que sempre esteve ali.
Bob Sousa – Irina sonha com Moscou, cidade que carrega tanto uma memória afetiva quanto uma idealização cultural, ligada a As três irmãs, de Anton Tchékhov. Que papel esse imaginário exerce na construção da narrativa e na crítica ao presente?
PG: Cada um de nós, em algum momento, desejou estar em outro lugar, morar em outro país, encontrar a felicidade em outra cidade. Para Irina, esse lugar é Moscou. Nele se misturam referências literárias, paisagens imaginadas e uma memória afetiva ligada ao pai, que viveu lá, e à língua russa que sempre esteve presente dentro de casa.
De um lado, existe seu lar real: um país tropical, solar. De outro, um lar imaginário: frio, introspectivo, eslavo. Esses dois mundos dialogam dentro dela como uma música dissonante.
Como a contradição humana é um dos pilares da criação — personagens sem contradições tendem ao estereótipo — Irina se estilhaça pela cidade enquanto vaga entre diferentes indivíduos. Ela só começa realmente a enxergar o outro quando a cortina desse grande teatro da imaginação se abre e revela seu próprio isolamento.
É maravilhoso viver na imaginação.
Mas também é preciso embarcar na maré alta da vida, da cidade e do mundo ao redor, com seus riscos e belezas, suas incertezas e mistérios.
Bob Sousa – Você integrou o Núcleo de Dramaturgia do CPT – Centro de Pesquisa Teatral e também fundou a Companhia da Mentira. De que maneira essas experiências coletivas influenciaram sua escrita e a construção da sua linguagem artística?
PG: O CPT e Antunes Filho tiveram uma influência formadora que modificou não apenas minha relação com o teatro, mas minha vida. Antunes trabalhava com o conceito do ator-criador e desenvolveu o projeto Pret-à-Porter, composto por pequenas cenas criadas e interpretadas pelos próprios atores. Como estímulo para a criação dramatúrgica, líamos muito sobre escrita. O livro Para Trás e Para Frente, de David Ball, foi fundamental para mim, assim como os filmes de Mike Leigh, Ken Loach, Bruno Dumont e Éric Rohmer, entre outros.
Além disso, participei do Círculo de Dramaturgia do CPT, onde escrevíamos e líamos os textos uns dos outros. Essa experiência dupla — encenar textos próprios nas cenas do Pret-à-Porter e compartilhar peças autorais no Círculo — foi decisiva para que eu me tornasse dramaturga.
Mais tarde, na Companhia da Mentira, fundada a partir dos encontros e pesquisas que realizamos com Donizeti Mazonas, Gabriela Flores, Gilda Nomacce, Silvio Restiffe e Lianna Mateus, encenamos meu primeiro texto teatral, Soslaio, no qual eu também atuava. A partir daí, decidi me dedicar integralmente à escrita. Antunes foi a ponte para essa mudança.
Bob Sousa – Peixe Cego ganha agora uma edição comemorativa de dez anos. Como foi revisitar essa obra depois de tanto tempo, e que novas leituras ou camadas você enxerga hoje no romance?
PG: Como a primeira edição do livro se esgotou, resolvemos — eu e a editora, na figura de Jorge Viveiros de Castro — lançar uma nova edição. O romance também foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2017, então me pareceu natural recolocá-lo em circulação.
Não costumo revisitar meus livros. Acho que cada obra responde a quem você era como autor em determinada fase da vida. Ainda assim, algumas obsessões permanecem: a paixão pela literatura russa, pelos animais, a inadequação ao mundo e a solidão nas grandes cidades.
Hoje me chama atenção a forma como Irina passa a enxergar os outros e a própria cidade porque precisa encontrar alguém para acompanhá-la a Moscou. É nesse ponto que o livro reverbera de maneira particularmente atual. Estamos cada vez mais isolados e distantes uns dos outros. Quando escrevi Peixe cego, o apelo das redes sociais era menor e ainda não se falava em inteligência artificial da forma como falamos hoje.
Talvez por isso o romance me pareça, agora, uma defesa da imaginação, da fabulação e da necessidade do encontro. É um livro que aposta na invenção de personagens, no teatro, na criação de mundos, no espaço público e na aventura de sair de si mesmo para encontrar o outro.

