Marcio Tito, egresso do curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, escreve e dirige “!! ABRA OS OLHOS & DIGA AH !!”, espetáculo do Tragédia Pop Coletivo Teatral que investiga como o mal pode emergir não do extraordinário, mas do cotidiano, das distrações, da precariedade e dos pequenos desvios morais que aprendemos a justificar e relevar.
Livremente inspirado no pensamento sobre a banalidade do mal, o espetáculo constrói um campo ético instável onde dois sujeitos comuns, em deriva verbal constante, abrem um “portal” para decisões que jamais acreditaram ser capazes de tomar. O texto não julga, não explica e não redime: apenas expõe, com humor ácido e violência argumentativa, o modo como raciocínios tortos podem ganhar aparência de lógica — e, pior, de necessidade.
O espetáculo aposta no excesso como linguagem. O próprio título já funciona como um gesto performativo: um imperativo agressivo, farsesco e irônico, que convoca o espectador a entrar num jogo moral onde nada é confortável, discreto ou seguro. A peça se move por deriva, não por ação; por pensamento em voz alta, não por conflito clássico. O drama aqui é o ruído de fundo de uma conversa que escapa ao controle.

Com atuações de Lucas Costa e Matheus Barbuio, a encenação constrói um espelhamento inquietante entre os personagens. À medida que as vozes se contaminam, as fronteiras éticas se dissolvem e o que parecia apenas brincadeira começa a revelar um terreno profundamente cruel. O humor, longe de aliviar a cena, funciona como armadilha — é por ele que o mal desliza com mais facilidade.
!! ABRA OS OLHOS & DIGA AH !! é um espetáculo sobre influência, distração e responsabilidade. Sobre como forças conscientes se apropriam da nossa inconsciência. Sobre como a miséria material e simbólica pode produzir raciocínios monstruosos sem que ninguém precise levantar a voz. Um teatro que não aponta vilões, mas humanos — e, por isso mesmo, atinge em cheio.
O espetáculo é dedicado à memória de Roberto Piva, poeta fundamental para a imaginação do excesso, do corpo, da rua e da experiência radical da vida. Seu espírito atravessa o título, o gesto e a pulsação do trabalho.
Tragédia Pop Coletivo Teatral
Surgido em 2011, a partir da pesquisa que resultou no espetáculo Roberto & a Filologia das Estrelas — trabalho biográfico construído como uma farsa atravessada por referências pop —, o Tragédia Pop Coletivo Teatral investiga a criação e a renovação de arquétipos dramatúrgicos para o início do século XXI. Seu trabalho cruza referências clássicas com estertores pós-modernos, elaborando uma linguagem autoral que se debruça sobre as questões contemporâneas não por seu impacto midiático, mas por sua complexidade ética.
A pesquisa do grupo parte da convicção de que é possível debater as contradições de reis e rainhas medievais ou do período clássico a partir de situações aparentemente banais: um casal de pessoas simples cantando e dançando num forró improvisado no centro da maior cidade da América do Sul. O épico e o ordinário coexistem, revelando continuidades profundas entre formas históricas distintas de tragédia.
Objetivamente, o que se vê em cena são obras atentas ao modo como as pessoas falam nas ruas do centro de São Paulo. O coletivo empresta ao léxico cotidiano um tratamento que remete ao verniz dramatúrgico de Nelson Rodrigues, refinando expectativas e debates e fazendo com que textos simples e falas banais adquiram densidade trágica. Nesse movimento, o trabalho evidencia o que há de eterno no humano, aproximando Sófocles da literatura pulp dos anos 1980, sem hierarquias nem nostalgias.
Com uma pesquisa marcada pela investigação do ator e pelo protagonismo da palavra, e por uma direção quase nunca poética e sempre objetiva, a Tragédia Pop mantém, ainda que não opere nos moldes clássicos do teatro colaborativo, um campo decisório aberto, entendido como ágora. Suas montagens são atravessadas por referências e argumentos inesperados, resultado de um modo de produção orientado pela precisão técnica do som e por uma dramaturgia pré-concebida, porém porosa — uma escrita pensada para se completar no processo e precisar dele como suporte vital.
Serviço
ABRA OS OLHOS & DIGA AH !! (um espetáculo sobre a banalidade do mal)
De 20 de março a 10 de abril – Sexta às 20h30
Espaço d’Os Satyros – Praça Franklin Roosevelt,214, São Paulo – São Paulo
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia) pelo Sympla https://bileto.sympla.com.br/event/117041
Informações para a imprensa: Ferdinando Martins (11) 97356-1308
Ficha Técnica
Concepção geral: Marcio Tito & Alexandre Gnipper
Ideia original, direção e dramaturgia: Marcio Tito
Dramaturgismo, trilha sonora, teaser e direção: Alexandre Gnipper
Dramaturgismo e produção: Ferdinando Martins
Com: Lucas Costa & Matheus Barbuio
Preparação de elenco: Daniel Maschiari
Luz: Rodrigo Damas
Voz off: Alessandro Imperador
Arte gráfica: Maiara Zaminelli
Fotos e captação de vídeo: Gabriel Ventura
Trilha sonora do vídeo: Chama/Lama Cósmica (Alexandre Gnipper, Azul Silvestre)
Agradecimentos: Teatro da USP, Cia Os Satyros, SP Escola de Teatro, Teatro Estrada, Grupo Trapo, Milena Makuxi, Maré Ink Estúdio
Realização: Tragédia Pop Coletivo Teatral

